NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Tarek William Saab escreveu dois poemas desde o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. Não quer compartilhar a íntegra para não dar spoiler de seu futuro livro, mas dá pistas. O procurador-geral da Venezuela escreveu sobre "o que significa entrar em um umbral": entrar em um ponto de virada, quando algo começa a se transformar.

Devoto militante chavista desde a gênese do movimento nos anos 1990, foi aliado de primeira hora de Hugo Chávez, depois de Maduro. Budista e autodenominado "poeta da revolução", assumiu o Ministério Público em 2017. Ao conceder essa entrevista exclusiva, pediu que fosse dedicada "a temas humanos". E irritou-se porque avaliou que esse não foi o curso seguido.

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza. Algumas das respostas contêm afirmações contestadas e, por isso, são acompanhadas de checagens entre colchetes.

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PERGUNTA - Onde o sr. estava quando houve a invasão americana? Como recebeu a notícia?

WILLIAM SAAB - Estava acordado, com minha família, quando ocorreu esse lamentável caso sem precedentes na história contemporânea, eu diria nos últimos séculos no hemisfério ocidental. Foi uma agressão militar com bombardeios a locais civis. Foi bombardeada uma área onde morreram pessoas da terceira idade, e locais de Caracas densamente povoados, resultando em mais de cem vítimas assassinadas. Designamos quatro promotores para apurar todos os fatos, e essa investigação está avançando.

Fui rapidamente informado, inclusive por vítimas. Uma pessoa conseguiu me enviar um vídeo, minutos antes das 2h [3h em Brasília], no qual se via o bombardeio de uma área próxima ao edifício onde ela morava. Às 7h daquele 3 de janeiro, fiz minha denúncia solicitando uma prova de vida do presidente da República, já que até aquele horário não havia um testemunho real se ele estava vivo ou morto.

Depois tive uma reunião com quem era então vice-presidente -Delcy Rodríguez, hoje presidenta encarregada da República Bolivariana da Venezuela-, que ocorreu às 12h, no âmbito do Conselho de Segurança e Defesa da Nação.

P - Muitos dizem que Maduro foi traído para que a invasão americana acontecesse. O sr. acredita que tenha havido traição?

WS - Isso faz parte de uma narrativa para a divisão, para que existam disputas internas e, obviamente, para facilitar a ação do inimigo agressor e de seus aliados, colocando numa bandeja de prata o que eles continuam aspirando: que a Venezuela se transforme literalmente em uma colônia estrangeira, violando a soberania nacional e a autodeterminação dos povos.

P - Em alguns comunicados o sr. mencionou que a libertação de presos na Venezuela tinha como objetivo buscar um espírito de paz para o país neste momento. Por que, então, isso não foi feito antes?

WS - Há uma desinformação que quero corrigir. Esclareço que, de 24 de dezembro de 2025 a 3 de janeiro, quando o cidadão presidente da República, Nicolás Maduro, ainda estava em funções na Venezuela -porque agora está sequestrado-, saíram aproximadamente mais de 150 pessoas vinculadas a atos de conspiração e de ultraje à lei.

No ano de 2024 também fizemos revisões de solicitações de medidas cautelares e libertações. Isso também ocorreu em 2023, 2021, 2020 e 2019. Ou seja, tem sido uma política do Estado venezuelano. Após o dia 3 de janeiro, nessas quase duas semanas até hoje, foram concedidas aproximadamente 400 medidas substitutivas da prisão.

[Organizações independentes de direitos humanos, entre elas a internacionalmente reconhecida Foro Penal, confirmaram somente 72 liberações de presos políticos desde 3 de janeiro. Sobre o período de 25 de dezembro até o dia 3, a organização confirma 120 solturas. Nos anos anteriores, o país ficou conhecido pela prática da chamada "porta giratória": liberar alguns presos políticos enquanto novos presos ocupam seu lugar.]

P - Há algumas pessoas muito conhecidas, para as quais havia maior pressão internacional, como a ativista Rocío San Miguel e o ex-presidenciável Enrique Márquez, que só agora foram libertadas. Houve conversa com os Estados Unidos?

WS - Não quero repetir o que já te disse. Já desenvolvi de forma suficiente e ampla a sua pergunta e podemos passar para outra, não sei.

P - OK, voltemos a um aspecto pessoal. A arte é muito importante para o sr. Desde que o ataque aconteceu, escreveu algum poema?

WS - Isso não é um hobby para mim. Eu sou um intelectual orgânico, um poeta de ofício. Sou um poeta natural, com um dom que a vida me concedeu, e obviamente que sim, escrevi pelo menos dois poemas nesses dias. Eu poderia citar algumas frases. São relacionadas ao que poderia ser entrar e conhecer um umbral. De estar em um limiar [em um ponto de transição].

Foi um pouco isso que senti nessas primeiras horas, e eu escrevi sobre isso. E vou continuar nessa tarefa, sempre com todos esses sentimentos muito focados na esperança, na fé, na espiritualidade. Sou filosoficamente budista e estoico, e acredito que isso me ajudou muito nessas horas.

Onde estão os organismos internacionais que devem zelar pelos direitos humanos para deter ações como essas e corrigi-las em tempo real? Corrigi-las de que maneira? Conseguindo que o juiz que conduz esse caso jamais visto declare a liberdade incondicional do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Isso não tem precedentes, repito, na história da humanidade. Isso não se parece com nada. Existem referências, claro. O que ocorreu em Gaza é algo sem precedentes na história do planeta. Mas algo do que foi feito em Gaza ocorreu na Venezuela: o bombardeio de instalações e edificações civis, com a morte de pessoas que estavam dormindo naquele momento; a desproporção do uso indiscriminado de uma força praticamente atômica contra alvos humanos.

Nicolás Maduro ganhou as eleições. Ele havia sido reconhecido pela maioria dos países do planeta.

P - Isso não é verdade. Ele não foi reconhecido pela maior parte.

WS - Eu disse a grande maioria. Agora, os países que se prestaram a não reconhecer o presidente Nicolás Maduro abriram o caminho para esse bombardeio.

E os países que abriram a porta para essa invasão militar não estão isentos de que amanhã façam o mesmo com eles. Porque agora o mundo está absolutamente indefeso. Porque são países que podem ter recursos naturais, e isso será a desculpa final: utilizar todo esse esquema que mencionei para se apoderar do petróleo.

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do planeta, além de ouro, coltan [abreviação de columbita-tantalita, minério crucial para a indústria eletrônica] e minerais. Mas isso pertence a quem? Pertence ao povo da Venezuela. Quem deve administrar? Os venezuelanos.

Você não está nem sequer falando sobre o que aconteceu com o presidente Nicolás Maduro, com a esposa dele, com as centenas de mortos e feridos. Estamos falando como se fosse algo sem alma. Aqui há um fato brutal e bestial. Gosto de debater. Você está falando sem que eu tenha a oportunidade de perguntar. São perguntas e reperguntas para ver se me equivoco em algo. Não quero que isso seja um interrogatório policial.

[Pouco mais de 20 países reconheceram Nicolás Maduro como presidente. Entre eles, os aliados Cuba, Nicarágua, Rússia, Guiné Equatorial e Irã. O Brasil não o fez, mas tampouco reconheceu a oposição.]

P - Esta é uma entrevista que o senhor aceitou conceder e pela qual agradecemos. O senhor tem direito de não responder às perguntas. Podemos seguir?

WS - Vamos.

P - Espera algo do Brasil?

WS - Assim como de todos os países da América com os quais vivemos e mantivemos relações positivas desde o período de Hugo Chávez. Lembre-se de que Chávez foi o ponto de virada para que a América Latina alcançasse vitórias que pareciam impossíveis, como, por exemplo, as vitórias de Lula e Dilma no Brasil. Ele foi um farol para a esquerda revolucionária. Essa diplomacia tão necessária para buscar a paz teve um chanceler de destaque: o presidente Nicolás Maduro.

O Brasil pode fazer muitíssimo, assim como os Estados Unidos da América, que já negociaram com a Venezuela no passado recente. Minha conclusão é que o direito internacional morreu em 3 de janeiro. Portanto, é o momento de o direito internacional renascer. O Brasil pode exercer uma extraordinária vanguarda nessa diplomacia de paz.

P - De fora, é difícil compreender como é hoje a presença dos Estados Unidos na Venezuela depois da invasão.

WS - Eu respondo a temas vinculados à justiça e aos direitos humanos. Não sou um porta-voz político.

P - A pressão dos Estados Unidos de alguma forma influenciou ou pressionou o trabalho da Procuradoria-Geral da República?

WS - Nós estamos trabalhando desde o dia em que os fatos ocorreram, como em todos os outros dias, realizando nossas atividades cotidianas, atendendo às pessoas. E assim continuaremos fazendo. Essa é a linha de todo o Estado venezuelano: manter a ordem, a convivência, o trabalho e a governabilidade, nos termos que você pôde observar.

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RAIO-X | TAREK WILLIAM SAAB, 67

Procurador-geral da República da Venezuela desde 2017, é descendente de libaneses e foi governador do estado de Anzoátegui. Aliado de Hugo Chávez desde sua ascensão política, foi deputado, inclusive durante a Constituinte de 1999. Autodenomina-se o poeta da revolução, é formado em direito e especializado em direitos humanos.