WASHINGTON, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ano após o retorno à Casa Branca, Donald Trump governou fiel ao discurso que o reconduziu ao poder, marcado pelo confronto, nacionalismo, autoritarismo e mobilização permanente de sua base.
O republicano apostou em medidas de forte impacto simbólico, mesmo que elas testassem os limites da lei e das instituições. Nem todas as promessas foram concretizadas, mas muitas redefiniram políticas públicas e reacenderam disputas judiciais e políticas.
Na imigração, tema central de sua campanha de 2024, Trump avançou de forma marcante. Imagens de agentes do ICE levando imigrantes em situação irregular para centros de detenção se tornaram recorrentes ao longo do último ano, simbolizando uma política que deixou de ser episódica para se consolidar como diretriz de governo. O número de deportações cresceu de forma significativa, ainda que longe das metas que passavam dos milhões anunciadas durante o período eleitoral.
O republicano também tentou rever o princípio da cidadania automática para filhos de imigrantes, uma mudança estrutural barrada de forma provisória pela Justiça. Enfrentou ainda resistência, desta vez no Congresso, com propostas como o fechamento definitivo do Departamento de Educação.
Em relação à política externa, o contraste entre promessa e realidade foi ainda mais evidente. Trump não conseguiu encerrar as guerras na Ucrânia, em 24 horas, como previa, e em Gaza. Suas ameaças territoriais ao Panamá e à Groenlândia não avançaram além da retórica.
Ao mesmo tempo, cumpriu compromissos caros à base Maga ("Make America Great Again"), como o perdão aos invasores do Capitólio, o desmonte de políticas de diversidade e a ofensiva contra a participação de mulheres trans em esportes femininos --medidas que reforçaram o apoio de seus eleitores, mas aprofundaram a polarização e multiplicaram contestações legais.
IMIGRAÇÃO
Deportações em massa
Promessa que definiu a campanha à Presidência de Trump, a deportação em massa de imigrantes dos EUA mobilizou a base republicana como nenhuma outra. Em diversas ocasiões ao longo da corrida eleitoral, Trump disse que deportaria milhões de pessoas do território americano, chegando a citar como meta 20 milhões de expulsões --o equivalente a mais de 5% da população total do país.
O número de deportações conduzidas pelo governo subiu de forma drástica no primeiro ano do segundo mandato de Trump, embora haja várias estimativas conflitantes sobre quantos imigrantes deixaram os EUA. Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), 2,5 milhões de pessoas foram expulsas em 2025, das quais 600 mil foram deportadas, e o restante deixou o país de forma voluntária após receber uma ordem de remoção.
Uma análise da Folha apontou que 100 mil imigrantes haviam sido deportados pelo ICE (a agência de imigração dos EUA) até setembro, um aumento de 126% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Remover cidadania de filhos de imigrantes
Trump repetiu a promessa que havia feito no seu primeiro mandato de acabar com a cidadania automática para todas as pessoas nascidas em solo americano. O objetivo é eliminar um dos grandes incentivos da imigração, uma vez que imigrantes sabem que filhos nascidos no país obtêm cidadania, não importa o status migratório de seus pais. Isso porque os EUA, como o Brasil e quase todos os países das Américas, praticam a chamada cidadania jus soli, enquanto Europa, África e Ásia reconhecem a cidadania jus sanguinis --isto é, apenas filhos de cidadãos são cidadãos.
Em seu primeiro dia de volta à Casa Branca, Trump publicou um decreto estabelecendo que perdem o direito à cidadania filhos de imigrantes em situação irregular ou de pessoas que estejam nos EUA com visto de turista ou similares. O decreto foi suspenso pela Justiça americana até que sua constitucionalidade seja analisada pela Suprema Corte, de maioria conservadora.
ECONOMIA
Ampliar taxação de importados
Como parte de esforços que, segundo Trump, visam fortalecer a economia americana, o republicano deflagrou uma guerra comercial inclusive contra parceiros históricos. Para isso, fez uso de uma lei que concede ao presidente amplos poderes econômicos durante uma emergência nacional.
Ao declarar emergência em diversas regiões, o presidente impôs tarifas comerciais sobre importações. Para o Brasil, passaram a incidir sobretaxas de até 50%. Vários são os países que continuam sob o tarifaço de Trump.
Após negociação com o governo brasileiro, o republicano anunciou em novembro uma retirada de tarifas para o país. Mesmo com o avanço, 22% das exportações brasileiras continuam sobretaxadas em no mínimo 40%, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin. Já o Centro de Estudos de Negócios Globais da FGV EESP aponta que 40,95% dos produtos vendidos aos EUA continuam pagando tarifa de 50%.
Cortar impostos
Redução da carga tributária e enxugamento da máquina pública são bandeiras perenes do Partido Republicano, e Trump fez campanha prometendo ampliar os cortes de impostos que fez em 2017, durante seu primeiro mandato. Segundo análises independentes, esses cortes beneficiaram principalmente os mais ricos e grandes empresas e tiveram pouco impacto de longo prazo para famílias de classe média e baixa renda.
De volta ao poder, Trump capitaneou a aprovação de uma lei que tornou os cortes de 2017 permanentes. Depois de longa disputa no Congresso, o presidente conseguiu passar a chamada Big Beautiful Bill (grande e belo projeto de lei, em inglês), que também cortou benefícios e subsídios federais a planos de saúde da era Barack Obama.
Demissões em massa nos serviços públicos
Junto com o bilionário Elon Musk, Trump colocou em prática o que afirmou ser um projeto de reestruturação da força pública. Sob o pretexto de "reduzir desperdício, fraude e abuso" e "tornar o governo mais eficiente", o presidente criou o Departamento de Eficiência Governamental, a princípio liderado por Musk e o empresário Vivek Ramaswamy.
Segundo dados mais recentes do Escritório de Gestão de Pessoal do governo americano, o número de funcionários civis federais caiu em cerca de 220 mil de janeiro a novembro de 2025. Uma análise do Departamento do Trabalho, o emprego civil federal caiu para a menor parcela da força de trabalho empregada já registrada no país, com dados que remontam à década de 1930. Essa representa a maior redução anual da força de trabalho federal em mais de 75 anos, desde a desmobilização após a Segunda Guerra Mundial.
Fechar o Departamento de Educação
Durante a campanha, Trump prometeu fechar o Departamento de Educação, criticando o órgão, que ele chamou de "grande golpe". Ele diz que é necessário devolver a educação ao controle das autoridades estaduais --argumento controverso, uma vez que os estados já detêm ampla autonomia sobre o ensino.
Entre as principais funções do órgão estão o combate à discriminação e a promoção do acesso à educação, além da gestão de empréstimos estudantis, do financiamento à pesquisa e do apoio a estudantes com deficiência. A proposta de encerrar formalmente o departamento, criado em 1979, não é nova e já havia sido defendida pelo republicano na campanha de 2016, mas não avançou porque sua extinção exige a aprovação de uma lei no Congresso.
Em março de 2025, Trump assinou um decreto para facilitar o fechamento e a reestruturação do Departamento de Educação, mas a extinção formal ainda não ocorreu, pois enfrenta o mesmo obstáculo do primeiro mandato: o aval do Congresso.
AMBIENTE
Investir em combustíveis fósseis
Trump fez campanha prometendo uma expansão sem precedentes da produção de petróleo e gás no país --com consequente queda nos preços de combustíveis e um novo ciclo de crescimento e empregos para o setor. O presidente chegou a repetir seu lema "perfure, baby, perfure", em contraposição a projetos voltados para energia limpa.
Um ano depois, porém, analistas do setor relatam que a produção não avançou além dos níveis recordes herdados do governo Biden. Houve aumento da extração, mas puxado sobretudo por ganhos de eficiência. Também por isso, não houve uma explosão de postos de trabalho.
Trump concedeu novos incentivos fiscais e enfraqueceu regulações ambientais. Ao mesmo tempo, o aumento de preços consequente do tarifaço aumentou custos para o setor.
Sair do acordo de Paris
Da mesma maneira que fez em seu primeiro mandato, o americano retirou os EUA do Acordo de Paris, compromisso internacional de combate às mudanças climáticas. Ainda em campanha, ele classificou o documento de injusto para a economia americana.
Na primeira vez que o fez, a medida passava a valer dali a quatro anos e, com Biden eleito, os EUA ficaram pouco mais de dois meses fora do acordo. Dessa vez, porém, a retirada tem efeito um ano após a notificação à ONU. A partir de 21 de janeiro deste ano, portanto, o país está oficialmente fora do pacto.
POLÍTICA EXTERNA
Acabar com Guerra da Ucrânia e em Gaza
Ao longo de toda a campanha eleitoral, Trump insistiu que acabaria com a Guerra da Ucrânia nas primeiras 24 horas de volta ao cargo e com a guerra na Faixa de Gaza, antes mesmo de voltar à Casa Branca. Como repetia o então candidato, os dois conflitos, que tiveram início durante a gestão Joe Biden, não teriam acontecido se ele estivesse no poder.
Nenhuma das bravatas se concretizou, embora a pressão de Trump sobre Israel e aliados do grupo terrorista Hamas, como o Qatar e a Turquia, tenha culminado no acordo de entrega de reféns de Israel e no frágil cessar-fogo, em vigor desde outubro. Já a guerra da Ucrânia continua em andamento, com Moscou exigindo concessões significativas de Kiev e Washington para o fim do conflito.
Tomar controle do Canal do Panamá e Groenlândia
O republicano fez ameaças ao longo do primeiro ano do mandato de retomar o controle do Canal do Panamá e de adquirir a Groenlândia, descrevendo ambos como vitais para a "segurança econômica e nacional".
Em relação ao Panamá, acusou o país de cobrar taxas excessivas de navios americanos e de permitir a ampliação da influência chinesa na região. O presidente panamenho negou as acusações, reafirmou a soberania do país sobre o canal e rejeitou qualquer possibilidade de transferência de controle aos EUA.
De olho na posição geográfica estratégica e nas reservas minerais, Trump também passou a defender, desde o início do mandato, que os EUA assumissem o controle da Groenlândia, sugerindo inclusive a compra da ilha, que é um território autônomo sob soberania da Dinamarca. As propostas foram rejeitadas por autoridades dinamarquesas e groenlandesas, e um encontro recente na Casa Branca terminou sem acordo sobre o futuro do território.
MAGA
Proibir mulheres trans em esportes femininos
O presidente prometeu proibir mulheres trans de competir em categorias esportivas femininas em escolas e universidades financiadas com fundos federais. Ele afirmou que a inclusão de atletas trans do sexo feminino "não é justa" e defendeu que a medida seria uma forma de proteger os "esportes femininos".
Ele assinou um decreto que orienta agências federais a aplicar regras que impedem mulheres trans de participar de competições femininas em programas que recebem apoio ou financiamento federal.
Ao menos 26 estados adotaram políticas de acordo com a orientação do republicano. Entre as exceções, está Maine, que lidou com processos e cortes de verbas. Críticos afirmam que a política discrimina atletas trans.
Nos últimos dias, a Suprema Corte, de maioria conservadora, começou a analisar recurso contra proibições a atletas transgênero em alguns estados. Porém, a maioria pareceu inclinada a apoiar os banimentos.
Eliminar DEI de empresas e governo
Trump prometeu eliminar políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) no governo federal, afirmando que esses programas eram discriminatórios e contrariavam a lei e a meritocracia.
No início do mandato, o republicano assinou decretos que encerraram os programas na administração federal, revogando políticas anteriores e dissolvendo conselhos e cargos ligados à DEI em diversas agências. O presidente ainda revogou normas que exigiam ações afirmativas de empresas contratadas pelo governo e orientou que agências retirassem referência de DEI nos processos e nos materiais.
Perdoar invasores do Capitólio
Na campanha, Trump prometeu perdoar os condenados pelos ataques ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, descrevendo os envolvidos como vítimas de perseguição política. Ele afirmou várias vezes que, se eleito, concederia perdão presidencial "no primeiro dia" de mandato, enquadrando o episódio como resultado de abusos do sistema judicial contra seus apoiadores.
No dia em que assumiu o cargo, o presidente cumpriu a promessa e concedeu perdões e comutações de pena a cerca de 1.500 réus. Entre os beneficiados estavam integrantes e líderes de grupos da extrema direita, como Oath Keepers e Proud Boys. Os envolvidos na invasão ao Capitólio haviam sido insuflados por meses de declarações de Trump, que disse, sem apresentar provas, que as eleições de 2020 foram fraudadas.