SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, afirmou neste sábado (17) que as autoridades "têm a obrigação de quebrar a espinha dos sediciosos" e culpou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pelas mortes na repressão à recente onda de protestos.

"Não pretendemos levar o país à guerra, mas não perdoaremos os criminosos domésticos", disse Khamenei a apoiadores durante um discurso transmitido pela televisão estatal, acrescentando que "criminosos internacionais" eram piores e também não seriam poupados de punião.

"Pela graça de Deus, a nação iraniana deve quebrar a espinha dorsal dos sediciosos, assim como quebrou a espinha da sedição", afirmou.

Desde 28 de dezembro, o Irã virou palco de protestos que começaram como atos contra a crise econômica, se espalharam e se transformaram na mais séria ameaça à teocracia desde sua instalação em 1979.

As autoridades iranianas, que classificam os manifestantes como "terroristas" e acusam os Estados Unidos de instigá-los, responderam com uma repressão violenta. Segundo a a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, ao menos 3.428 pessoas morreram. O número real, porém, pode ser bem maior.

Outras fontes falam em mais de 5.000 ou até 20 mil óbitos, segundo a IHR. O canal oposicionista Iran International, baseado fora do país, cita fontes governamentais e de segurança para afirmar pelo menos 12 mil mortos.

O país está sob bloqueio de comunicações há dias depois que o regime cortou o sinal de internet em várias regiões do país.

Khamenei aproveitou seu discurso para alfinetar Trump diretamente, que vem ameaçando atacar o país militarmente. O republicano baixou o tom na quinta (16), ao dizer que tinha sido informado de que o número de mortes estava diminuindo, mas manteve pressão mobilizar dois grupos de porta-aviões para enviar para região

"Consideramos o presidente dos Estados Unidos culpado pelas mortes, pelos danos e pelas acusações feitas contra a nação iraniana", disse o aiatolá. "Tudo isso foi uma conspiração americana. o objetivo dos Estados Unidos é devorar o Irã (...) o objetivo é submeter o Irã nos níveis militar, político e econômico".

A repressão às manifestações no Irã tem gerado crescente preocupação com o número de mortos, mas é difícil confirmar os dados exatos. Isso porque o governo impôs restrições à internet, limitando o fluxo de informações.

A organização Netblocks, que monitora cibersegurança, registrou no sábado uma "retomada muito leve" da internet no país, após mais de 200 horas de bloqueio quase total.

"As medições mostram um aumento discreto na conectividade nesta manhã", informou a entidade.

Ainda assim, o tráfego geral permanece em apenas 2% dos níveis normais, sem sinais de recuperação significativa.

Com o restabelecimento parcial das ligações telefônicas, iranianos no exterior começaram a receber mensagens curtas de familiares. Elas são breves por dois motivos: alto custo e medo de segurança. Há receio de que as autoridades interceptem as comunicações ou acusem os remetentes de espionagem.