LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - As eleições presidenciais portuguesas deste domingo (18) serão as mais emocionantes e equilibradas das últimas quatro décadas. Nas semanas anteriores ao pleito, as pesquisas mostravam cinco candidatos empatados no primeiro lugar -um de esquerda, dois de direita, um de ultradireita e um independente.

Um segundo turno parece inevitável, algo que não acontecia desde 1986, quando o socialista Mário Soares derrotou o conservador Diogo Freitas do Amaral e se tornou o primeiro presidente civil após a redemocratização.

"Esse equilíbrio é reflexo do fim do bipartidarismo em Portugal", diz André Santos Pereira, professor de comunicação política na faculdade ISCTE e diretor-associado da consultoria Political Intelligence. "Havia, até recentemente, um domínio de siglas de centro, instituindo um padrão de vitórias em primeiro turno. A ascensão de um partido populista de extrema direita mudou essa situação."

Nos últimos dias, de acordo com as pesquisas, António José Seguro, um quadro histórico do Partido Socialista, e André Ventura, presidente do Chega, legenda que representa a ultradireita em Portugal, abriram pequena vantagem sobre os demais. Os levantamentos também mostravam João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes com chances de avançar ao segundo turno, com vantagem para o primeiro.

Os dois dividem os votos da direita tradicional, que governa o país e lidera os principais municípios. Ambos tiveram percalços ao longo da campanha -Marques Mendes enfrentou acusações de conflito de interesse, e Cotrim, de assédio sexual.

"Temos rastreado uma transferência de votos entre os dois, dentro do espaço da centro-direita", afirma Santos Pereira. O almirante Henrique Gouveia e Melo, candidato independente que liderou as pesquisas num primeiro momento, perdeu fôlego na reta final.

O tema da imigração foi um dos mais discutidos ao longo da campanha. Ele foi puxado pelo ultradireitista Ventura, que espalhou pelo país outdoors criticando a comunidade cigana e os imigrantes de Bangladesh.

Fotos de camisetas de propaganda do Chega, partido de Ventura, circularam pelas redes sociais na semana anterior às eleições. As etiquetas mostravam que haviam sido confeccionadas por uma empresa sediada em Bangladesh.

As posições dos candidatos sobre imigração marcam as diferenças entre as correntes da política portuguesa. Num debate, o socialista Seguro afirmou que "a entrada de imigrantes em Portugal, desde que seja organizada e integrada, é um contributo muito positivo para a economia". O candidato citou que 40% da mão de obra da agricultura do país -incluindo setores tradicionais como a colheita de azeitonas e produção de vinho- é formada por imigrantes.

Marques Mendes reforçou que "a imigração não é um problema, é uma oportunidade", numa postura mais moderada que a de seu concorrente direto, Cotrim de Figueiredo.

"A Manifestação de Interesse era um convite à imigração ilegal", afirmou Cotrim num debate, referindo-se à legislação que, até recentemente, permitia que um imigrante entrasse no país sem documentos e os obtivesse a posteriori.

Em Portugal, o presidente influencia o debate público, mas quem governa é o primeiro-ministro. Como chefe de Estado, o presidente tem a prerrogativa de promulgar e vetar leis. Também pode dissolver o Parlamento em caso de crise política, situação que, em Portugal, recebe o apelido de "bomba atômica". O atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, usou esse expediente três vezes ao longo de seu mandato.

Uma pesquisa do instituto Aximage publicada na quinta (15) mostra que, num hipotético segundo turno, António José Seguro poderia abrir uma vantagem de 20 pontos em relação a André Ventura -49% a 29%.

"É importante notar que, em Portugal, 40% do eleitorado é formado por maiores de 55 anos, que tendem a votar em candidatos mais moderados com medo de perder benefícios sociais e aposentadorias", diz o marqueteiro brasileiro Sérgio Guerra, responsável pela campanha vitoriosa de Luís Montenegro a primeiro-ministro de Portugal no ano passado.

A julgar pelas taxas de rejeição, Ventura teria dificuldades contra qualquer outro candidato num eventual segundo turno. De acordo com pesquisa da Universidade Católica de Lisboa, 64% dos portugueses disseram que não votariam nele de jeito nenhum. O menos rejeitado é Seguro (41%), seguido de Gouveia e Melo (47%), Cotrim de Figueiredo (50%) e Marques Mendes (51%).

Principais candidatos na disputa presidencial

António José Seguro

Nasceu em 1962 em Penamacor, na região da Beira Baixa. Foi militante da Juventude Socialista. Nos anos 1990, era considerado o futuro do partido ao lado de José Sócrates e António Costa --os três foram ministros de António Guterres. Sócrates e Costa posteriormente se tornaram premiês.

O candidato a presidência do Partido Socialista (PS) de Portugal, António José Seguro, durante comício Patricia de Melo Moreira - 16.jan.26 AFP Homem de terno e óculos acena com a mão direita levantada, enquanto várias bandeiras de Portugal vermelhas e verdes são agitadas ao fundo contra um fundo preto. Imagem pequena **** Seguro se afastou da sigla em 2015, após uma briga com Costa. Tornou-se professor em suas áreas de formação --ciência política e relações internacionais-- e comentarista de televisão. Retornou ao partido para se candidatar a presidente, tendo como principal plataforma restabelecer o diálogo em tempos de polarização.

André Ventura

Nasceu em 1983 em Sintra. Formou-se advogado, com doutorado na Irlanda. Foi comentarista de futebol na televisão e vereador no município de Loures pelo Partido Social Democrata, de centro-direita. Em 2019, depois de se desentender com a liderança da sigla, fundou o Chega.

Em apenas cinco anos, o partido da ultradireita se tornou o segundo maior da Assembleia da República, o Parlamento português. É conhecido por seus discursos inflamados contra a corrupção, contra o que considera uma doutrinação de esquerda nas escolas e contra a imigração.

João Cotrim de Figueiredo

Nasceu em 1961 em Lisboa. Descende de uma família de ingleses que se estabeleceu em Portugal no século 14 na corte da princesa Filipa de Lencastre, casada com o rei dom João 1º. Estudou economia na London School of Economics e entrou na política tardiamente, depois de ser executivo de grandes empresas.

Luís Marques Mendes

Nasceu em Guimarães em 1957. É o mais velho entre os candidatos com chances de vitória -seu slogan de campanha é "o valor da experiência". Marques Mendes ocupou cargos ministeriais nos governos de Cavaco Silva (1985-1995) e Durão Barroso (2002-2004), ambos do Partido Social Democrata.

Foi também conselheiro da Presidência nos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026). Advogado de formação, atuou como consultor durante um período em que ficou fora da política, estreitando laços com os setores financeiro e empresarial de Portugal.

Henrique Gouveia e Melo

Nasceu em Quelimane, Moçambique (na época província ultramarina de Portugal), em 1960. Morou no Brasil na adolescência, e estudou em São Paulo no Colégio Caetano de Campos. Fez carreira na Marinha portuguesa e chegou a almirante.

Ficou famoso durante a pandemia, quando coordenou a vacinação em Portugal e o país foi considerado exemplo de combate à Covid dentro da União Europeia. Em entrevista à Folha em outubro passado, quando era líder nas pesquisas, disse: "Se eu for eleito, não me esquecerei que o Brasil foi porto de abrigo de uma população gigantesca portuguesa, que foi sempre recebida de braços abertos".