LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - A vitória de António José Seguro no primeiro turno das eleições presidenciais portuguesas coroa uma virada épica. Nas primeiras pesquisas, em agosto do ano passado, o socialista patinava nos dez pontos percentuais, enquanto Luís Marques Mendes (centro-direita), André Ventura (ultradireita) e o almirante Henrique Gouveia e Melo (independente) disputavam o primeiro lugar com o dobro das intenções de voto. No final da campanha, apenas o ultradireitista manteve o fôlego.

Seguro e Ventura vão disputar o segundo turno no dia 8 de fevereiro. Por volta das 23h em Lisboa (20h em Brasília), com 99% das urnas apuradas, o socialista tinha 31% dos votos, e o ultradireitista registrava 23%. Em seguida, Cotrim aparecia com 16%, Gouveia e Melo com 12%, e Marques Mendes, com 11%

O comparecimento dos portugueses às urnas, nas eleições mais equilibradas desde a redemocratização do país, foi o maior dos últimos vinte anos. Estimava-se uma taxa de abstenção de 35% a 40%. Nas eleições de 2021 mais da metade dos portugueses não saiu de casa para votar ?o mundo vivia a pandemia da Covid 19.

A escolha dos portugueses será entre dois políticos que não poderiam ser mais diferentes. Seguro tem a fala pausada e radiofônica de um professor. Ventura é conhecido por terminar seus discursos aos gritos.

Na campanha eleitoral, os vídeos de Seguro mostravam o candidato jogando sinuca com integrantes da Juventude Socialista ou em tascas comendo bifanas ?os sanduíches de carne temperada típicos de Portugal. Na antevéspera do pleito, o Instagram de Ventura mostrava o candidato socando o capô de um carro enquanto seus seguidores gritavam: "18 de janeiro! Ventura em primeiro!"

As trajetórias políticas na vida real dizem mais sobre ambos que os posts controlados das redes sociais. O momento definidor da carreira de Seguro se deu de 2011 a 2014, período em que foi líder da oposição à frente do Partido Socialista. Portugal vivia uma fase difícil. Colhido pela crise do euro e com dívida e déficit insustentáveis, o país foi obrigado a pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional e a instituições da União Europeia. A contrapartida ao empréstimo foi um duro programa de austeridade.

O ajuste fiscal ficou a cargo do então premiê, Pedro Passos Coelho, do Partido Social Democrata, de centro-direita. Na oposição, Seguro criticava o governo, mas ao mesmo tempo abria a porta para soluções de compromisso e orientava o partido a se abster nas votações sobre as medidas de austeridade.

Essa "oposição responsável" ajudou Portugal a recuperar a credibilidade financeira mais rapidamente que outros países europeus ?o ajuste durou apenas três anos? mas a um preço alto: recessão econômica, desemprego em dois dígitos e êxodo de jovens.

Dentro do Partido Socialista, Seguro era pressionado a endurecer o discurso para surfar na impopularidade do governo de centro-direita. Enfrentou um duro confronto com António Costa pela liderança do partido ?e perdeu.

O aguerrido Costa arrebatou o poder de Passos Coelho, governou Portugal durante nove anos e hoje é presidente do Conselho Europeu. Seguro completou seu mandato de deputado e, em 2015, trocou a política partidária pelo magistério na universidade.

A característica que fez Seguro fracassar no Parlamento se tornou um poderoso ativo na corrida presidencial. Desde o início da campanha, ele vendeu a imagem de moderado. Sobre o episódio da política de austeridade, disse em entrevista: "Eu me orgulho de ter sido responsável e ajudado o meu país".

No dia de eleição, no comitê de Luís Marques Mendes, era dado como certo que muitos eleitores de centro-direita votaram em Seguro, abandonando o candidato apoiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro.

Esse voto útil moderado pode favorecer o socialista na rodada decisiva. Uma pesquisa realizada às vésperas da eleição mostrava que Seguro derrotaria Ventura por 49% a 29% num eventual segundo turno.

Em Portugal o presidente não governa. Atua como uma espécie de "poder moderador", que pode aprovar ou vetar leis e dissolver o Parlamento em caso de impasse político. Presidentes anteriores, como Mário Soares (1986-1996), Jorge Sampaio (1996-2006), Aníbal Cavaco Silva (2006-2016) e Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026) eram veteranos já afastados da vida partidária.

André Ventura é o antípoda de Seguro não apenas no perfil, mas também na trajetória política. Se para o socialista a Presidência seria a coroação de uma longa carreira, para o ultradireitista seria um passo em seu grande objetivo: alterar radicalmente a Constituição portuguesa. Dois dos eixos de sua reforma seriam sistema penitenciário e imigração. Penas mais duras no primeiro caso e restrições cada vez maiores no segundo, em linha com o discurso xenófobo que marcou toda a sua campanha eleitoral. Uma maior centralização do poder também está no seu horizonte.

Em entrevista à Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), o ultradireitista disse que, caso seja eleito presidente, quer usar a "magistratura de influência" inerente ao cargo para trabalhar pela revisão constitucional.

Ventura nunca escondeu que seu verdadeiro objetivo é se tornar primeiro-ministro ?o chefe de governo teria muito mais poder que o chefe de Estado para fazer as mudanças que ele pretende.

Para triunfar em 8 de fevereiro, Ventura deverá romper uma tendência. Em um país com média de idade elevada, o eleitor preocupado com suas aposentadorias pode querer fugir de um candidato que promete mudanças radicais.

Ganhando ou perdendo, o presidente do Chega já realizou um feito. Ao avançar ao segundo turno, ele conseguiu sua votação mais alta numa campanha presidencial, o que inevitavelmente o credencia para novos voos no futuro.

CANDIDATOS QUE AVANÇAM AO 2º TURNO

António José Seguro

Nasceu em 1962 em Penamacor, na região da Beira Baixa. Foi militante da Juventude Socialista. Nos anos 1990, era considerado o futuro do partido ao lado de José Sócrates e António Costa ?os três foram ministros de António Guterres. Sócrates e Costa posteriormente se tornaram premiês.

Seguro se afastou da sigla em 2015, após uma briga com Costa. Tornou-se professor em suas áreas de formação ?ciência política e relações internacionais? e comentarista de televisão. Retornou ao partido para se candidatar a presidente, tendo como principal plataforma restabelecer o diálogo em tempos de polarização.

ANDRÉ VENTURA

Nasceu em 1983 em Sintra. Formou-se advogado, com doutorado na Irlanda. Foi comentarista de futebol na televisão e vereador no município de Loures pelo Partido Social Democrata, de centro-direita. Em 2019, depois de se desentender com a liderança da sigla, fundou o Chega.

Em apenas cinco anos, o partido da ultradireita se tornou o segundo maior da Assembleia da República, o Parlamento português. É conhecido por seus discursos inflamados contra a corrupção, contra o que considera uma doutrinação de esquerda nas escolas e contra a imigração.