WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Em seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump não se arriscou a usar o poderio bélico americano com frequência. Seguiu os conselhos dos assessores que pediam cautela. A grande exceção foi o bombardeio que matou o chefe militar iraniano, Qassim Suleimani, em 2020.

A estratégia mudou no retorno à Presidência, diz Elliott Abrams, veterano da política externa americana, em entrevista à reportagem. Ele foi o enviado especial de Trump para a Venezuela e o Irã durante o primeiro mandato do presidente americano -justamente dois dos principais países hoje sob mira dos Estados Unidos- e também atuou nos governos de Ronald Reagan e George W. Bush.

Trump completa um ano de seu segundo mandato nesta terça-feira (20). Nesse período, atacou a Somália, o Iraque, o Iêmen, a Síria e a Nigéria. Bombardeou também as instalações nucleares iranianas e, em sua ação mais arriscada, atacou Caracas para capturar Nicolás Maduro. Chegou a ameaçar a Colômbia e reiterou ameaças de anexar a Groenlândia.

Nada disso parecia possível no mandato de 2017 a 2021. "Não pensávamos seriamente em invadir a Venezuela", diz Abrams, que estava nos bastidores dessas decisões. Em outubro de 2025, quando já não fazia parte do governo, o diplomata inclusive afirmou à BBC que Trump não atacaria Caracas -algo que aconteceu poucos meses depois.

Nesse novo momento americano, mais belicoso e imprevisível, a diplomacia perdeu força. Diminuiu com isso a possibilidade de atores regionais, como o Brasil, atuarem na mediação. Abrams diz ter dúvidas sobre o papel brasileiro na Venezuela, por exemplo. Há, por um lado, o fato de que Brasília manteve uma relação próxima com Caracas nas últimas décadas. Esse histórico, porém, pode atrapalhar. "A oposição venezuelana talvez enxergue Lula como alguém próximo demais de Maduro", diz o americano.

O ex-assessor avalia que a impressionante transformação da política externa de Trump neste segundo mandato resulta de uma série de fatores. Em primeiro lugar, o presidente parece ter se arrependido de ter seguido os conselhos dos assessores mais experientes da Casa Branca, que eram mais cautelosos.

Um exemplo disso é o que está acontecendo no Irã. Durante os protestos de 2019, Trump evitou apoiar os manifestantes. Seu time dizia que isso acabaria prejudicando a oposição iraniana, que seria associada aos EUA. "Ele concluiu que estava errado e aprendeu a lição", afirma Abrams, sugerindo que os manifestantes buscam o apoio americano contra o regime. Trump agora não só apoia os protestos, mas também ameaça Teerã.

Abrams também associa a guinada militar de Trump ao fato de que, até agora, todas essas ações foram bem-sucedidas. Isso vale, em especial, para a operação em Caracas, considerada particularmente complicada, o que torna o sucesso um grande triunfo para a administração republicana. "O presidente tem cada vez mais confiança na capacidade militar de realizar essas ações e sabe que receberá um fantástico crédito por isso."

"Cada operação dessas encoraja Trump a usar a força militar", diz Abrams. Um fator importante é que essas intervenções ocorreram sem baixas, o que é relevante para sua base. Foram também movimentos rápidos e pontuais, anunciados depois de já terem sido concluídos -ou seja, não levaram a longas guerras como as do Iraque e do Afeganistão. "Seus eleitores não querem guerras, com milhares de americanos enviados para morrer", afirma o ex-assessor.

Se as apostas de Trump deram certo, o presidente agora tem de lidar com as repercussões de médio e de longo prazo. Ainda tem três anos de governo para garantir que o que fez na Venezuela e o que pode fazer no Irã não vão se voltar contra ele no fim.

No caso venezuelano, Abrams afirma que o plano do republicano ainda não está claro. Trump ainda não usou a palavra "democracia" em público, diz. O presidente tampouco explicitou o caminho para as próximas eleições em Caracas. Por enquanto, segundo Abrams, "é como se Maduro tivesse infartado". "Tudo está igual, com o regime no poder."

No Irã, a situação é mais complexa. A crise é interna e não foi iniciada pelos EUA, ao contrário do que ocorreu na Venezuela. Trump apoia os manifestantes, mas não está claro se Washington intervirá militarmente em Teerã, a despeito das ameaças do presidente e do envio de arsenal americano à região. "Alguns dias atrás, parecia certo que ele ia agir. Agora parece que não. Mas isso pode mudar", afirma.

Uma intervenção em Teerã seria bastante mais complexa do que em Caracas. Não só devido à capacidade militar iraniana, mas também porque os objetivos são mais incertos. "Sabemos o que queremos na Venezuela, que é o que havia antes de Hugo Chávez", diz Abrams. No Irã, antes dos aiatolás, havia a ditadura do xá. Os EUA precisam ter claro o que aconteceria, por exemplo, após a queda do líder supremo. Pode ser que o aiatolá seja sucedido por uma ditadura militar, diz o ex-assessor.

No ínterim, afirma Abrams, o que os EUA podem fazer é continuar a apoiar os protestos. Podem também endurecer sanções econômicas. Tudo isso enquanto refletem sobre o futuro do país e do Oriente Médio. "Se o regime iraniano mudar, o Iraque vai ser um novo país, assim como o Líbano e o Iêmen", afirma.