SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No comando de 5.177 ogivas nucleares, 1.770 delas prontas para uso, Donald Trump teria dificuldade de se vender como um pacifista. No entanto, foi essa a tônica empregada pelo presidente dos Estados Unidos desde sua volta à Casa Branca, que completa um ano nesta terça-feira (20).

Na prática, contudo, o que se viu em relação à maior potência militar da história foi um Trump disposto a empegar força bruta como instrumento de seu modus operandi negociador. O presidente que rejeitava o envolvimento dos EUA em "guerras inúteis" não poupou ameaças e ações para valer neste segundo mandato.

Criou uma Estratégia de Segurança Nacional para dar base teórica, por assim dizer, à sua contradição. Acenou com a paz aos chineses, sugeriu carta branca para Vladimir Putin e voltou a rejeitar ser o policial do mundo.

Mas a realidade foi outra. Sob suas ordens, rebeldes islâmicos seguiram sendo bombardeados, os EUA promoveram seu primeiro ataque direto ao Irã na história e parecem prontos para repetir a dose, o Caribe virou um cemitério de pequenos barcos e Nicolás Maduro foi arrancado de casa enquanto mísseis caíam em Caracas.

Cereja do bolo, para assombro de seus aliados europeus já escaldados pela russofilia de Trump, o americano agora exige a tomada "pelo bem ou pelo mal" da Groenlândia, território sob guarda da Otan liderada pelos EUA ?que já são a principal presença militar na ilha.

Tudo isso mudou a percepção global do elemento militar sob Trump. Os rivais estratégicos, China e Rússia à frente, buscam se aproveitar do presumido respeito que o americano tem por quem pode projetar poder, mas ninguém testou pisar em algum calo do presidente.

No caso chinês, a necessidade de uma acomodação econômica por ora fala mais alto, enquanto no russo o foco é uma solução para a Guerra da Ucrânia em termos favoráveis a Putin.

Já os adversários secundários têm menor sorte, como os exemplos iraniano e venezuelano explicitam. Aparentemente, Trump reserva a mesma avaliação para os aliados dinamarqueses e os atônitos membros europeus da aliança militar fundada em 1949.

Tal proatividade já começa a testar alguns limites práticos da máquina militar americana. No caso do Irã, nada impediria um ataque mais pontual agora, mas o fato é que ações do tipo funcionam melhor com grupos de porta-aviões em torno do país a ser agredido.

Quando usou bombardeiros furtivos ao radar B-2 para atacar o programa nuclear da teocracia em junho passado, havia três dessas potências militares sobre as ondas em águas do Oriente Médio e Mediterrâneo.

Na semana passada, quando parecia decidido a bombardear o regime de Teerã, não havia nenhum. Os EUA têm 11 desses supernavios e suas escoltas, mas eles nunca estão todos disponíveis: 4 estavam em manutenção, 2 fazendo a revisão após missão, 2 no porto e 3, em operação.

Com efeito, um dos porta-aviões que estava em ação no mar do Sul da China foi deslocado para o Oriente Médio, enquanto outro deixou a costa oeste dos EUA rumo ao Indo-Pacífico para cobrir o buraco. Já um segundo navio partiu da costa leste para o Mediterrâneo.

Nada disso constitui, claro, um grande problema caso Trump resolva atacar um país. Como se diz nos meios militares americanos, a Marinha dos EUA está em qualquer lugar do mundo em duas semanas. Mas indica que a abertura de muitas frentes concomitantes de atrito tem seu custo.

Por fim, há as sérias dúvidas acerca da capacidade de julgamento do presidente, que tomou gosto tanto de se dizer um fazedor de acordos de paz quanto por lustrar uma imagem bélica ?o Salão Oval está cheio de bandeiras de unidades armadas e até um desfile militar ocorreu por ocasião do seu aniversário, que coincidiu com os 250 anos do Exército.

Escrevendo no site de sua consultoria sobre a mais recente ameaça aos europeus, a imposição de tarifas se não lhe entregarem a Groenlândia, o usualmente paciente George Friedman, ícone da geopolítica americana, disse: "Confissão: Eu não consigo entender a última jogada de Trump".