SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto Donald Trump se digladia com líderes europeus devido à sua investida para tentar tomar a Groenlândia da Dinamarca, suas Forças Armadas enviarão caças, provavelmente modelos avançados F-35, para a base que mantêm no norte da ilha ártica.

A movimentação ocorre ao mesmo tempo em que países europeus aliados de Washington na Otan enviaram soldados e equipamento militar para um exercício organizado na última hora, visando mostrar ao presidente americano que o continente tem capacidade de defender o território autônomo da Rússia.

O envio dos caças dos EUA foi anunciado pelo Norad (Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte, no acrônimo em inglês) nesta segunda-feira (19). A entidade reúne o país e o Canadá na defesa do flanco norte das Américas, basicamente rastreando eventuais ataques nucleares e intrusões de aeronaves rivais.

O Norad fez questão de ressaltar que tal operação é rotineira e está sendo feita em colaboração com as forças de Copenhague, citando que o governo da Groenlândia também foi avisado. De fato, de tempos em tempos tais manobras ocorrem, usualmente para treinar interceptação de aviões hostis no Ártico.

Isso dito, o "timing" da medida chama a atenção. Não foram divulgados números de caças e pessoal envolvidos na missão, mas ela vai ocorrer justamente quando a Europa se digladia para dizer a Trump que não aceita a ideia da tomada da Groenlândia.

Observadores mais sóbrios não esperam nenhum tipo de embate entre aliados da Otan, até porque isso acabaria com a aliança fundada em 1949 sob o preceito de defesa mútua contra Moscou na Europa. Mas o momento é delicado.

Para o moinho de rumores da internet, é um prato cheio: a tomada parcial da região em torno da base americana de Pituffik já é dada como certa, segundo os cenários mais amenos. Nada disso, contudo, está amparado na realidade agora.

Desde a semana passada, quando Trump subiu o tom e disse que sua decisão de tomar a Groenlândia é final, diversos países enviaram pequenos contingentes à ilha: França, Alemanha, Noruega, Suécia, Finlândia, Holanda e Reino Unido se uniram à Dinamarca, que tem o maior efetivo, de cerca de 120 militares.

Os 13 que haviam sido despachados por Berlim voltaram misteriosamente no fim de semana, contudo. Segundo a Defesa alemã, eles só haviam ido checar as condições do local, pensando em uma futura presença permanente, mas ninguém explicou por que eles não participarão da manobra militar.

Uma resposta óbvia foi a ameaça, feita no sábado (17) por Trump, de aplicar 10% de sobretaxas de importação de produtos dos países que ajudarem o pleito dinamarquês. Isso dá a medida da desconfiança que as ações do americano geraram na relação entre os aliados europeus.

Os números, de todo modo, são modestos, ainda que a Dinamarca esteja se esforçando em divulgar fotografias de soldados treinando na ilha -o fato de que eles estão sem camuflagem para neve sugere a correria para montar a operação.

Isso tem impactos diversos, a começar pela já claudicante negociação liderada por Trump para tentar acabar com a principal guerra em solo europeu desde 1945, a invasão russa da Ucrânia. Nesta terça (20), o premiê belga, Bart de Wever, foi explícito e disse que as forças continentais foram "lenientes" com Trump, pensando que ele apoiaria Kiev.

Na Groenlândia, de todo modo, os EUA já têm desde 1951 a presença militar mais robusta entre as de países da Otan. A base de Pituffik, antes chamada de Thule em homenagem à mítica terra mais setentrional da Europa, é vital para a defesa americana.

Ela controla satélites e radares que identificam a chegada de mísseis com ogivas nucleares de silos terrestres da Rússia ou da China, que usariam o Ártico como atalho mais curto num ataque aos EUA.

Além disso, há uma extensa rede de sensores acústicos na região para monitorar a passagem de submarinos e navios russos vindos da Frota do Norte, baseada em torno de Murmansk. Recentemente, a Otan fez um raro exercício de tiro real para afundar uma fragata na região, mais perto da Noruega.