SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após mais um ataque com drones russo ter deixado Kiev no escuro durante um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos, o presidente Volodimir Zelenski fez um rara crítica ao trabalho das defesas aéreas da Ucrânia.
Usualmente, Zelenski apenas reclama mais apoio ocidental para alimentar seus sistemas antiaéreos. "O trabalho da Força Aérea em relação aos drones é insatisfatório: há interceptadores e muitas forças envolvidas, grupos de fogo móveis, caças F-16. A organização do trabalho deveria ser diferente", disse.
Ele disse que determinou que o Ministério da Defesa, pasta desde a semana passada liderada por Mihailo Fedorov, crie uma comissão para tratar do problema rapidamente. "Nesta noite usamos US$ 80 milhões (R$ 430 milhões) em mísseis de defesa aérea, difíceis de comprar", afirmou.
O ataque noturno foi brutal. Segundo Kiev, os russos lançaram 381 drones, dos quais 303 foram derrubados. Também foram empregados 21 mísseis de cruzeiro Iskander-K e 7 modelos Kh-59, cujos números de interceptação não foram confirmados.
O ucraniano está pressionado. Segundo ele, o ataque desta noite de segunda-feira (19) e madrugada de terça (20) deixou 1 milhão de endereços de consumidores sem eletricidade na cidade, que tem 3 milhões de habitantes. Mesmo incluindo prédios comerciais na conta, é muito.
Pela manhã, cerca de metade da cidade também estava sem aquecimento devido aos impactos. No começo da noite, ainda havia cerca de 4.000 edifícios com o problema, com a temperatura perto dos -10 graus Celsius.
Segundo autoridades e especialistas, este é o mais duro inverno para os ucranianos desde que Vladimir Putin invadiu o país, no dia 24 de fevereiro de 2022. A degradação do sistema energético é grande, e as cidades não dão conta de reparar rapidamente as redes -só na capital, há 1.200 abrigos aquecidos e 68 tendas de apoio aos moradores.
Os apagões atingiram também estações que alimentam as usinas nucleares ainda em controle de Kiev, mas as linhas foram reparadas rapidamente, com apoio da Agência Internacional de Energia Atômica.
Há outros temores, dado que o inverno forte dificulta as operações em solo. Segundo monitores ucranianos, há movimentação para o lançamento de até dois supermísseis russos Orechnik, que só foram usados duas vezes, no fim de 2024 e no começo deste mês.
As armas desenhadas para guerra nuclear são de defesa impossível para os ucranianos, e seu emprego é mais uma sinalização de força para os EUA e para a Europa --o francês Emmanuel Macron chegou a passar recibo do temor que ela causa, dizendo que "estamos na mira" e que era preciso desenvolver um míssil análogo.
A dificuldade casa com o momento político. Zelenski afirmou temer que a crise decorrente da investida de Donald Trump para tirar o controle da Groenlândia da Dinamarca, que abalou a relação EUA-Europa, tire o foco da guerra.
"Aqui há vítimas de verdade", disse. Na prática, contudo, o foco já está virado, como demonstrou o tsunami de declarações de ambos os lados da contenda nesta terça, com foco nas falas europeias no Fórum Econômico de Davos (Suíça).
Foi de lá, contudo, que veio uma rara novidade no encalacrado processo de paz que Trump comanda para tentar acabar com o conflito na Ucrânia. Os enviados da Rússia, Kirill Dmitriev, e dos EUA, Steve Witkoff, se encontraram naquilo que foi descrito pelo americano como "encontro positivo".
Resta saber para quem. Foi a dupla que desenhou a primeira proposta da Casa Branca na atual rodada, e o texto era uma cópia da lista de exigências públicas da Rússia para silenciar os canhões. O texto foi e voltou em duas etapas, e agora tem um formato mais palatável para Zelenski, que foi acusado por Trump de ser o principal óbice à paz.