BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está consultando outros países chamados para participar do Conselho de Paz antes de decidir se o Brasil vai aderir ao órgão e avalia uma resposta coordenada ao convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo pessoas a par da discussão, ouvidas pela reportagem sob condição de anonimato, a lista de países convidados e a reação de cada um têm sido fatores relevantes para deliberar sobre a participação do Brasil na nova organização.
O conselho faz parte da segunda fase do plano dos EUA para o fim do conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, mas também deve deliberar sobre outras questões relacionadas a conflitos internacionais.
O ministro Mauro Vieira (Itamaraty) conversou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, no sábado (17), sobre o assunto.
Diplomatas dizem que tanto Vieira quanto Lula vão procurar outros países para saber quais informações eles têm a respeito do conselho e qual a posição deles a respeito do colegiado.
O ideal, afirmou um diplomata que participa das discussões, é haver uma coordenação com a comunidade internacional sobre a resposta a ser dada a Trump. Uma das razões é evitar que as nações se exponham desnecessariamente e fiquem sujeitas a retaliações dos EUA. Há também a expectativa de que se possa negociar os termos do conselho para que ele atenda às demandas de demais países.
Esse integrante do Itamaraty cita o caso da França. Na segunda (19), o governo francês disse que o país não pretende aceitar o convite para integrar o conselho. No mesmo dia, Trump ameaçou impor tarifas de 200% aos vinhos e champanhes franceses.
Integrantes do governo minimizam o potencial de piorar as relações com o presidente americano diante de uma eventual recusa de fazer parte do colegiado, dizendo que o americano vai precisar separar assuntos bilaterais de globais.
No entorno de Lula, o conselho é visto por ora com desconfiança. Mas a decisão do presidente brasileiro ainda depende da conclusão de análises políticas e jurídicas sobre a proposta, e o governo usará os próximos dias para avaliar impactos na esfera internacional antes de fechar seu posicionamento. O convite chegou à mesa do petista na última sexta-feira (18).
Além de Lula, Trump também convidou Javier Milei, da Argentina, Vladimir Putin, da Rússia, e líderes de países como Uzbequistão, Cazaquistão, Belarus, Alemanha, França, Turquia, Egito, Polônia, entre outros.
Ao todo, cerca de 60 países foram convidados para participar do grupo. Um auxiliar do governo sinaliza que o número corresponde a menos de um terço do total de países-membros da ONU (Organização das Nações Unidas).
No governo brasileiro, há preocupação que o Conselho da Paz, de Trump, se sobreponha ao trabalho realizado pelo Conselhos de Segurança da ONU, o que acabaria por enfraquecer a organização.
Segundo dois integrantes do Itamaraty, é pouco provável que haja recusa sem uma manifestação formal. Já outros dois diplomatas veem como possibilidade deixar o convite sem resposta, o que poderia evitar desconforto com Trump. Em caso de resposta, o retorno deverá ser feito diretamente entre os presidentes, uma vez que o convite foi feito por meio de carta direta enviada ao Brasil.
O presidente dos EUA ameaçou impor tarifas de 200% aos vinhos e champanhes franceses na tentativa de convencer o presidente da França, Emmanuel Macron, a aderir à sua iniciativa do Conselho de Paz.
Como mostrou a Folha, o estatuto do Conselho da Paz prevê que cada Estado-membro cumpra um mandato de três anos, sujeito à renovação. A ideia é que a organização opere com base em contribuições voluntárias. Quem contribuir com pelo menos US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões na cotação atual) garantirá um mandato permanente.
Os detalhes sobre o funcionamento do grupo ainda não estão claros. O plano atraiu críticas do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, que disse que o anúncio não foi coordenado com Tel Aviv e que a iniciativa vai na direção oposta à política adotada por seu país.
No início desta semana, nações declararam o recebimento do convite para integrar o conselho, como é o caso de Netanyahu, segundo o jornal Times of Israel. O gabinete de Netanyahu ainda não se pronunciou publicamente sobre o assunto.
Na sexta (16), Trump anunciou primeiro nomes que vão compor o grupo: Marco Rubio; o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair; os enviados de Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff e Jared Kushner (genro de Trump); o bilionário americano Marc Rowan; o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga; e Robert Gabriel, assessor de Trump.