WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - As batidas, detenções e agressões conduzidas por agentes federais em Minneapolis estão fazendo com que imigrantes revivam traumas de seus países de origem, segundo Todd Barnette, comissário de Segurança Comunitária da cidade -cargo equivalente ao de secretário de Segurança Pública.

O posto ocupado por Barnette foi criado pela administração municipal em 2022 como parte de uma resposta estruturada após a morte de George Floyd, assassinado por um policial da cidade em 2020. O departamento liderado por Barnette unifica e coordena as funções de segurança pública, integrando, entre outras, as polícias civil e os serviços de bombeiros.

"Nossos vizinhos estão com medo, aterrorizados. Nossa comunidade imigrante, muitos vindos de países onde pessoas simplesmente desapareciam e nunca mais se ouvia falar delas, está revivendo em primeira mão situações que já enfrentaram em suas vidas. É muito aterrorizante para eles", diz Barnette em entrevista à Folha, referindo-se ao clima de medo na região após uma segunda morte envolvendo agentes federais em menos de um mês, parte de uma operação do governo de Donald Trump que motiva protestos e críticas em toda a cidade.

Apesar das autoridades locais de Minneapolis e Minnesota solicitarem a saída dos agentes da região, a Casa Branca condicionou a diminuição da presença de agentes se as autoridades locais cooperarem com as deportações em massa de imigrantes. Em entrevista a jornalistas, nesta segunda-feira, a porta-voz Karoline Leavitt voltou a culpar políticos democratas pela situação.

"Vamos ser claros sobre as circunstâncias ao redor do que aconteceu no sábado: a tragédia é um resultado da resistência deliberada dos líderes democratas de Minnesota", disse Leavitt.

Pela rede social, Trump havia dito que teve uma "conversa muito boa" com o governador de Minnesota, Tim Walz, e que os dois estavam "na mesma frequência". Anunciou ainda que vai enviar a Minneapolis o encarregado das fronteiras, Tom Homan, que deve assumir o comando do ICE na cidade -hoje, é a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, quem controla os agentes federais no local.

Todd Barnette descreve que a agência utiliza força excessiva e táticas de intimidação que contrastam com os esforços da polícia local em tentar desescalar conflitos.

Questiona, também, a justificativa da presença dos agentes na região. "Eles disseram que estavam vindo aqui por causa de fraude. O que está acontecendo não tem nada a ver com fraude", diz ele, que ressalta que "nenhuma das pessoas feridas tem qualquer relação com fraude" e que a medida afeta tanto a comunidade imigrante quanto cidadãos americanos.

O secretário afirma ainda que a presença das agências federais, como o ICE e a Patrulha de Fronteira, gerou um impacto financeiro para a cidade. Segundo ele, o medo generalizado fez com que os residentes parassem de sair para comprar alimentos ou frequentar lojas e, como resultado, houve perdas econômicas para os negócios locais.

O valor deste impacto ainda está em cálculo, mas a gestão afirma que, em apenas cinco dias, o custo de horas extras atingiu US$ 3 milhões, cerca de R$ 15 milhões, valor referente ao cancelamento de folgas e férias de todos os agentes locais para lidar com o tumulto gerado pelas operações federais.

Além disso, Barnette diz que a presença do ICE aumentou as mortes na cidade e que, em um mês, a metrópole registrou três homicídios, sendo que dois foram causados por agentes federais -os casos de Alex e Renee.

Ele ainda detalha a falta de comunicação entre as agências federais e a polícia local, que muitas vezes só descobre as operações através de chamadas para o 911 (serviço de emergência) ou redes sociais. Além disso, os agentes federais têm dificultado investigações independentes, chegando a impedir a entrada de autoridades estaduais em cenas de crime.

Barnette afirma categoricamente que a documentação visual existe graças à ação popular: "É por causa deles que conseguimos ter os vídeos que temos, a documentação que temos desses tiroteios. Se não fosse por esses membros da comunidade, não os teríamos".

Também explica que a presença da comunidade impede que a versão oficial dos fatos seja a única disponível: "Se eles não estivessem fazendo isso, a narrativa que está sendo apresentada pelo governo federal provavelmente dominaria os canais de comunicação". Com os registros dos moradores, as pessoas podem "ver essas coisas com seus próprios olhos" e tirar suas próprias conclusões.

As mortes pelos agentes federais entraram se tornaram centro do debate político, seis anos após a cidade ter vivido uma série de protestos em decorrência da morte de George Floyd. Segundo ele, uma das lições aprendidas desde a morte de Floyd é que, para construir e manter a confiança da comunidade é essencial realizar investigações independentes e minuciosas.

Por isso, critica o fato do governo federal não estar envolvendo as autoridades municipais e estaduais nas investigações sobre a morte de Alex e Renne, o que impede que a comunidade tenha segurança de que as evidências foram coletadas de forma imparcial.

Apesar do clima de protestos, que já acontecem há três semanas na região, ele faz uma distinção entre o clima atual e o que ocorreu em 2020 -ano da morte de Floyd. E, afirma que as manifestações estão acontecendo de forma pacíficas, observando que, ao contrário do passado, "ninguém está tentando incendiar a cidade".

Menciona, porém, que a administração local não pode garantir policiais para escoltar cidadãos e assegurar que os agentes federais não vão aparecer nesses locais. "Não conseguimos garantir à nossa comunidade que, quando forem à igreja, ao hospital ou à escola, que possamos assegurar sua segurança."