SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Por alguns dias, no início deste ano, os portugueses acompanharam simultaneamente duas eleições presidenciais distintas.
Uma, que acaba de terminar, com a provável vitória do socialista António José Seguro. A outra, também vencida por um socialista, havia ocorrido 40 anos antes. As presidenciais de 1986, conquistadas em segundo turno ("segunda volta", em Portugal) por Mário Soares, foram tema do documentário em cinco episódios "A Duas Voltas".
A série angariou público amplo e se tornou um dos programas mais vistos no site da RTP, a TV pública portuguesa, nas últimas semanas.
Logo após o fim do primeiro turno, reportagem do Público observou que o documentário tinha sido "feito para pensar o presente". "É uma série-companheira das eleições de 2026", dizia o texto.
De fato, não são poucos os paralelos possíveis entre os dois pleitos, revelados pela obra. Também em 1986 se falava em "país dividido"; as duas disputas presidenciais foram as únicas a ir para o segundo turno; e nos dois casos o candidato vencedor, socialista, havia começado a campanha desacreditado, com menos de 10% das intenções de voto.
Os finais -ou melhor, o que vem depois do final de cada uma dessas eleições- é que são radicalmente diferentes, segundo Ivan Nunes e Paulo Pena, autores do documentário. As eleições presidenciais de 1986, eles dizem, ajudaram a sedimentar a normalidade democrática em Portugal. Agora, apesar da derrota da candidatura antissistema de André Ventura, "não tem mais normal para onde voltar", observa Nunes.
"A eleição presidencial de 1986 é o início de um período que vai durar mais de 30 anos em que você passa a ter a esquerda e a direita organizadas em torno de dois partidos principais, e esses dois partidos se alternam no governo", diz Nunes, em referência ao Partido Socialista (PS) e ao Partido Social Democrata (PSD).
Além de documentarista e pesquisador de cinema, Ivan Nunes, 52, tem experiência política: participou da equipe da campanha presidencial de Mário Soares em 2006 e foi assessor do ministro da Cultura português entre 2022 e 2024.
Depois da Revolução dos Cravos, "tivemos 10 governos em 10 anos, porque a situação era muito instável, o sistema não tinha ainda se organizado", ele diz. "A partir de 1986, você passa a ter governos que duram quatro anos. Não sempre, mas em regra." O documentarista, que morou no Brasil na década de 2010 -e gentilmente muda o sotaque quando o interlocutor é brasileiro-, compara a organização partidária portuguesa nesse período, do ponto de vista ideológico, à polaridade PT-PSDB, que também tendia ao centro.
A estabilidade política coincidiu com a ascensão econômica de Portugal, que entrou para a Comunidade Econômica Europeia em 1986. O país enriqueceu. No documentário, há cenas de pobreza mais comum em países da América Latina: famílias que moram em barracos de madeira e trabalho infantil. Paulo Pena diz ter ouvido comentários de espectadores "espantados com as imagens da pobreza em Portugal em 1985".
O crescimento econômico provocou mudanças profundas na sociedade portuguesa e atraiu imigrantes. O fim da estabilidade política tem a ver com a ascensão da ultradireita e de seu discurso conservador e xenófobo. "A centro-direita deixou de ser capaz de organizar o seu campo, de monopolizar o seu espaço", depois que o Chega, de André Ventura, se tornou o segundo maior partido no parlamento, observa Nunes.
"Mas, por outro lado, a centro-esquerda está muito pequena, desde 2024. Então, em vez de você ter um polo de centro-direita no poder e um polo de centro-esquerda na oposição, você tem três polos", uma situação política parecida com o que ocorre na França, ele diz, chamando a atenção para a instabilidade de governos daí decorrente.
"Você não tem um governo com uma base parlamentar estável, o governo tem uma base parlamentar de 30%. Por conta disso a gente está tendo eleição com muita frequência."
A vitória de Seguro, segundo Nunes um político inexpressivo, "baço", é de toda forma importante, afirma o documentarista. O regime em Portugal é semipresidencialista e, embora o primeiro-ministro conduza o governo, o presidente tem poderes de veto relevantes -como o de dissolver a Assembleia, vetar leis e fiscalizar a sua constitucionalidade- que podem servir de contrapeso a um governo da ultradireita. Um governo do Chega, que há pouco tempo seria inconcebível, se tornou plausível, diz Nunes.
O crescimento da extrema direita, avalia o documentarista, não é um fenômeno passageiro -em Portugal ou no resto do mundo. Ele cita o cientista político Vicente Valentim, autor de "O Fim da Vergonha" (Ed. Gradiva). Segundo Valentim, sempre houve demanda por ideias como as de Ventura, de Jair Bolsonaro ou de Donald Trump. Os políticos de extrema direita não criaram essa demanda, antes a atenderam.
"Essas pessoas estavam impedidas de se expressar por um sentimento de vergonha", sintetiza Nunes. Agora, a vergonha acabou "A gente achou que a política voltaria ao normal", observa o documentarista. "Mas não tem mais normal para onde voltar."