SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Guerra da Ucrânia, que completa quatro anos na terça-feira (24), está longe de ter uma solução clara à vista. Mas a possibilidade de uma trégua mediada por Donald Trump tornou a Rússia uma espécie de Eldorado para todo tipo de interesse dos Estados Unidos.

A Folha ouviu pessoas em Moscou com conhecimento dessas tratativas, que vão do factível, como devolução de ativos confiscados de petroleiras americanas, até a construção de um delirante túnel ligando a Rússia ao Alasca.

"Parece que estamos em 1992", diz Dmitri, um funcionário do governo ligado à oferta de negócios aos americanos que, por razões óbvias, não pode revelar seu sobrenome. Ele alude ao vale-tudo que marcou o período da entrada no capitalismo no país, após o ocaso da União Soviética no fim de 1991.

"Eu já recebi propostas de todo o tipo. O que fazemos é organizar e enviar para as autoridades competentes", diz ele, dando um verniz tecnocrático a seu trabalho. Mas a referência aos anos 1990, quando Dmitri tinha na casa dos 20 anos, é cautelar: a farra acabou na quebra da Rússia e a volta de um Estado forte sob Vladimir Putin.

No centro de todas as conversas está o nome de Jared Kushner, o genro de Trump que tornou-se figura carimbada das negociações visando alguma trégua no conflito iniciado por Putin em 2022.

Kushner sempre acompanha Steve Witkoff, um lobista do mercado imobiliário que virou o negociador-chefe de Trump para todos os conflitos que o americano diz trabalhar para acabar. Da dupla saíram aberrações como o projeto da "Riviera de Gaza", com arranha-céus platinados sobre as ruínas do território obliterado na guerra com Israel.

No ano passado, ambos estabeleceram contato com Kirill Dmitriev, o americanófilo chefe do fundo soberano russo, dono de US$ 40 bilhões (R$ 207 bilhões) em investimentos antes da guerra.

A trinca elaborou, no fim de 2025, o plano pró-Kremlin para o fim do conflito que, apesar de rejeitado por Kiev, abriu a atual rodada de negociações tripartites sobre a crise.

Esse viés negocial, tão ao gosto de Trump, é visto no Departamento de Estado americano como uma fragilidade política, Um funcionário do órgão disse temer que a dupla Kushner-Witkoff, que opera à parte da diplomacia, esteja sendo engambelada.

É uma possibilidade, afirma Dmitri, que diz não ter controle sobre a natureza dos contatos que se multiplicam por restaurantes chiques da capital russa e, principalmente, em campos neutros como Dubai.

Ele ressalta, contudo, considerar os dois americanos amadores em suas conversas, com pouca ou nenhuma noção de geopolítica ?aliás, visão compartilhada por interlocutores ucranianos da dupla, segundo a mídia em Kiev.

Na quarta-feira passada (18), Dmitriev disse que a Rússia estava oferecendo US$ 14 trilhões (R$ 72 trilhões), ou seis vezes o PIB do Brasil, em oportunidades de negócios.

"É um exagero", diz Ivan, executivo de uma grande empresa de energia russa. Segundo ele, há de fato muito terreno na Lua sendo debatido nas conversas, mas os projetos de fato consistentes existem e não chegam nem perto dessas cifras.

Ele cita a ainda incipiente exploração de terras raras no Círculo Ártico do país, estimadas por consultorias em 29 milhões de toneladas, ou 74 vezes a demanda anual atual pelos elementos vitais para produzir chips e outras parafernálias eletrônicas estratégicas.

Ivan conta, porém, que há um aspecto mirabolante nas discussões. Em um aprazível restaurante de comida siberiana no elegante bulevar Gogol, no começo do ano, houve um encontro entre lobistas russos e americanos que discutiram em tese a sério o tal túnel do Alasca.

Chamado por Dmitriev de "Túnel Putin-Trump", ele já foi propagandeado pelo czar dos investimentos russos em rede social. Objetivamente, observadores consideram apenas uma espécie de aperitivo fictício para aguçar o interesse americano.

Na visão do Kremlin, diz uma pessoa próxima do governo, a ideia de projetos grandiosos é um passaporte para que Trump concorde com uma paz em termos favoráveis a Putin na Ucrânia. Até aqui, tem dado certo sucesso nas negociações.

Concorre em favor dos EUA o vácuo ocidental decorrente das sanções impostas após a invasão da Ucrânia. Em 2021, os americanos importavam apenas o equivalente a 6% de produtos russo em comparação aos países da União Europeia.

O comércio exterior russo mudou totalmente de face. A China, que naquele ano tinha uma corrente total de US$ 147 bilhões (R$ 760 bilhões) com Moscou, hoje bate os US$ 250 bilhões (R$ 1,3 trilhão), enquanto os europeus viram sua fatia cair de US$ 300 bilhões (R$ 1,5 trilhão) para US$ 80 bilhões (R$ 415 bilhões).

Ou seja, ainda há lugar na festa para os americanos, embora a visão de ambos os lados é de que Pequim está numa posição mais vantajosa, tendo já ocupado o lugar da Europa no fornecimento de quase todos os bens de consumo da classe média russa, de carros a celulares.

No campo mais realista, um dos focos da brigada trumpista em Moscou é o setor de energia. Ivan cita que a petroleira Exxon, que teve US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões) em ativos tomados pelo Estado russo após as sanções, pode facilmente ter isso de volta.

Resta saber se lhe interessa. Como relatou na semana passada a revista britânica Economist, há diversos empecilhos a toda essa movimentação, a começar pelos objetivos de Putin com a guerra, chegando à conhecida corrupção local.

Isso dito, só o projeto Vostok da petroleira sancionada estatal Rosneft no Ártico prevê até 2 milhões de barris de petróleo anuais, ou 2% do total mundial, caso os US$ 160 bilhões (R$ 830 bilhões) previstos de investimento ocorram.

Nada indica que quaisquer dessas promessas levarão à paz, mas, se ela chegar, Trump e os seus parecem dispostos a garantir um pedaço delas.