SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como um proverbial guitarrista de blues dos anos 1920, a Guerra da Ucrânia se encontra numa encruzilhada encarando o Diabo.
Nem russos, nem seus vizinhos invadidos há quatro anos, têm opções fáceis enquanto Donald Trump os pressiona a fazer a paz em nome de um trunfo para a eleição congressual de novembro. Enquanto isso, o conflito já dura mais do que a Segunda Guerra Mundial tomou de russos e ucranianos, então todos soviéticos.
Completando 1.461 dias nesta terça (24), o conflito que mudou a arquitetura da segurança mundial e matou talvez 500 mil soldados dos dois lados e 15 mil civis, paradoxalmente nunca esteve tão perto e tão longe de sua conclusão.
A atual rodada de negociações promovida por Trump é a mais séria desde março de 2022, quando os rivais quase chegaram a termos desfavoráveis a Kiev em Istambul. Com apoio ocidental, o governo de Volodimir Zelenski, já consagrado por ter resistido ao fracassado assalto inicial de Moscou, desistiu da oferta.
Com o peso dos Estados Unidos à mesa, três rodadas de negociações diretas parecem encaminhar algum tipo de acerto. Ou não, dada a inflexibilidade de ambos os lados em questões cruciais enquanto a guerra atinge níveis inauditos de violência, segundo dados da referencial ONG americana Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos).
Putin precisa de uma vitória para chamar de sua. Como falhou em tomar Kiev em três dias, como os próprios americanos previam, o enorme custo humano do conflito precisa de compensação territorial e política.
O russo quer as quatro regiões que anexou ilegalmente e que não ocupa totalmente no vizinho. Zelenski não aceita isso, e no máximo topa uma zona desmilitarizada na crucial área de Donetsk, da qual só controla menos de 20% hoje. Ao todo, Putin hoje ocupa cerca de um quinto da Ucrânia, contando aí a Crimeia anexada em 2014.
O ucraniano, por sua vez, quer deixar todas as discussões sérias para depois de um cessar-fogo e demanda garantias de que não será atacado de novo com presença de tropas estrangeiras em seu solo, um anátema para o Kremlin.
Há um rosário de outros itens na agenda, menos importantes para quem está de fora, mas existenciais para ambos os lados. "Não quero saber de voltar a ser obrigado a ver meus dois filhos estudarem russo na escola", disse à reportagem o soldado Valeri, de folga em Kiev, por mensagem.
A restauração do ensino e outros quesitos culturais, como o fim do banimento da Igreja Ortodoxa Russa na Ucrânia, são pontos menos falados na lista de desejos de Putin, mas não menos importantes. "Ele quer anular a noção de Estado ucraniano", escreveu a analista russa Tatiana Stanovaia, do Centro Carnegie (Berlim).
Valeri se queixa do ritmo das negociações. "Aqui, falta luz dia sim, dia não, devido aos ataques russos. As pessoas não aguentam mais", afirmou. Neste ano, os bombardeios ao sistema energético ucraniano foram escalados por Putin, confiante no impacto disso na moral civil em meio ao mais rigoroso inverno em décadas.
Em Donetsk, capital da vital província disputada sob controle de separatistas pró-Rússia, o funcionário público Mikhail, que lutou na frente, também acha que a paz está atrasada. "Aqui falta água todos os dias por seis, às vezes oito horas. Queremos uma vida mais normal", afirmou, reiterando que prefere seu passaporte russo ao antigo ucraniano.
Do micro ao macrocosmo, são disparidades de visões que se completam, mas o peso mais imediato recai sobre os ombros de Zelenski, que voltou a ser pressionado pelo usualmente russófilo Trump a ceder na questão territorial. Para piorar, a normalização do conflito na paisagem geopolítica, com preocupações reemergentes em torno do Irã, tiram urgência de suas demandas.
A Folha ouviu dois embaixadores ocidentais em Moscou e duas pessoas próximas do Kremlin acerca do futuro imediato. O quadro pintado foi semelhante: Putin está convencido de que a mão superior na atual rodada de cartas bélicas irá fazer Zelenski se dobrar, ao menos em relação às quatro províncias que quer para si.
Um dos observadores russo diz que isso é ilusório, curiosamente repetindo o mantra ucraniano: Putin na realidade busca o controle total da Ucrânia e a destituição de Zelenski. Isso dito, a movimentação de lobistas americanos buscando posições favoráveis na economia russa do pós-guerra sugere que talvez o Kremlin se contente com menos.
Seja como for, a tragédia da guerra não permite acreditar numa reconciliação dos povos que o Império Russo e a União Soviética colocaram sob o mesmo teto. Para complicar, há o Diabo figurado, no caso Trump.
O americano precisa de um trunfo para tentar evitar a perda de controle da Câmara dos Representantes, e uma trégua na Ucrânia já estaria de bom tamanho. O problema disso é óbvio: a repetição de algum acordo que, ao fim, não seja respeitado por um dos lados.
Quando negociaram sob os auspícios ocidentais uma tentativa de paz na guerra civil iniciada após Kiev ver derrubado o presidente pró-Putin em 2014, tudo parecia conspirar para o fracasso. Assim foi: as elites ucranianas não aceitaram os termos mais favoráveis aos russos, levando ao embate que desaguou em 2022.
Do ponto de vista de Kiev, os termos eram tão inaceitáveis quanto os sugeridos por Trump agora. Já visto de Moscou, um arranjo não pode anular o "casus belli" da invasão, que era a presença da aliança militar Otan na sua mais sensível fronteira.
Isso tudo leva à encruzilhada. A Europa foi colocada em campo para pagar a conta ucraniana da guerra por Trump, o que tem prazo de duração limitado ?usualmente, ciclos eleitorais. Mas com o empréstimo de R$ 550 bilhões aprovado pela União Europeia, haverá oxigênio em Kiev para mais um tempo.
O torniquete no pescoço da economia russa segue rígido, mas enquanto Putin tiver capacidade de manter um nível ofensivo na guerra, tudo indica que nada mudará. A paz, no momento e de duração incerta, depende de um pacto com o Diabo na encruzilhada.