SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Peter Mandelson, 72, ex-embaixador britânico nos Estados Unidos, foi preso nesta segunda-feira (23) em Londres sob suspeita de má conduta no exercício de cargo público devido aos seus vínculos com Jeffrey Epstein.
A detenção ocorre dias após o ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsorter, irmão mais novo do rei Charles 3º, ter sido levado e interrogado pela polícia britânica por acusação semelhante.
Escolhido por Starmer como embaixador em dezembro de 2024, Mandelson foi demitido em setembro do ano passado depois que parte dos documentos do caso Esptein veio à tona e mostrou que o diplomata manteve sua amizade com o abusador mesmo depois da condenação por prostituição de menores, em 2008.
O caso, entretanto, ganhou novas proporções depois da publicação de mais documentos publicados pelo Departamento de Justiça dos EUA em janeiro. Neles, ficou comprovado que Mandelson compartilhou informações sigilosas do governo britânico com Epstein na época em que era secretário para Negócios e Comércio do governo do trabalhista Gordon Brown (2007-2010).
Os arquivos também revelaram que o marido de Mandelson, o brasileiro Reinaldo Ávila da Silva, recebeu £ 10 mil (R$ 71 mil) do bilionário americano.
Após o escândalo, o ex-embaixador britânico anunciou sua aposentaria da Câmara dos Lordes. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, disse que Mandelson "decepcionou seu país" com a relação com Epstein. O premiê afirmou ao seu gabinete que estava horrorizado com as revelações.
Emails revelaram que o marido do ex-embaixador recebeu várias transferências de Epstein em 2009 e 2010, com o objetivo de ajudá-lo a seguir o sonho de se tornar osteopata. Não foi detalhado o montante total nem o período exato em que os pagamentos ocorreram.
Em setembro de 2009, Silva enviou um email a Epstein pedindo £10 mil. "Transferirei o valor do seu empréstimo imediatamente", respondeu o financista.
Em abril de 2010, o brasileiro enviou uma nova mensagem com seus dados bancários, e Epstein encaminhou o email ao seu contador solicitando o envio de US$ 13 mil (cerca de R$ 74 mil).
Antes desse pedido, o bilionário americano já havia solicitado que o contador depositasse mensalmente US$ 2.000 (cerca de R$ 11,4 mil) para Silva. Quando questionado se esse valor seria além dos US$ 13 mil, ele respondeu: "Depois de repensar, envie apenas US$ 4.000 [R$ 22,8 mil]."
Na época da troca de emails, durante o governo do então primeiro-ministro Gordon Brown (2007-2010), Mandelson foi nomeado para a Câmara dos Lordes ?cujas cadeiras não são distribuídas por votação. Ele também ocupou os cargos de secretário de negócios e vice-primeiro-ministro.
Registros bancários divulgados pelas autoridades dos EUA sugeriram que em 2009, Mandelson, como secretário de negócios, encaminhou um briefing econômico para Epstein destinado ao então líder Gordon Brown, com a legenda: "Nota interessante que foi enviada ao PM".
Mandelson foi um dos arquitetos do renascimento do Partido Trabalhista como força eleitoral nos anos 1990, sob Tony Blair. Ele se desfiliou do partido no domingo.
Uma condenação por má conduta em cargo público pode resultar em pena máxima de prisão perpétua e deve ser julgada em um Crown Court, tribunal que trata crimes mais graves.
A relação de Mandelson com Epstein é mais um capítulo do escândalo envolvendo figuras de alto escalão do governo no Reino Unido. Morgan McSweeney, chefe de gabinete de Starmer, renunciou neste mês.