SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O quarto aniversário da Guerra da Ucrânia, conflito mais violento em solo europeu desde 1945, foi marcado pela apatia e a exaustão. Negociações travadas, evento esvaziado em Kiev, a manutenção da disposição russa e até o foco global na crise do Irã reduziram a intensidade dos holofotes sobre a data.

Em 2023, às vésperas do primeiro ano da guerra, um desafiador Joe Biden desembarcava em Kiev para renovar seu apoio ao presidente Volodimir Zelenski. Três anos depois, o ucraniano fez um apelo para que Donald Trump visitasse a sua capital.

"Eu realmente queria vir aqui com o presidente dos Estados Unidos um dia. Eu tenho certeza: só vindo à Ucrânia e vendo com seus próprios olhos nossa vida e luta uma pessoa pode entender esta guerra", disse o ucraniano em um pronunciamento de 18 minutos coalhado de imagens de políticos importantes visitando memoriais na cidade com ele.

O espírito era refletido no evento principal de lembrança das vítimas da guerra, no centro da cidade. A líder mais relevante presente era a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e mesmo vizinhos como a Polônia só enviaram representantes secundários.

Zelenski afirmou esperar que as negociações mediadas pelos EUA sejam retomadas ainda nesta semana em Genebra, após três rodadas que apenas evidenciaram o fosso entre os rivais em temas como cessões territoriais ou garantias de segurança contra uma nova ação de Vladimir Putin.

Do lado russo, a data passou quase batida. Os ataques com drones seguiram contra o vizinho, mas sem nenhuma intensidade especial, como ocorrera por exemplo no ano passado.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, apenas disse que os objetivos da guerra de proteger os russos étnicos do leste ucraniano seguem os mesmos e que, apesar de defender a diplomacia, Moscou seguirá o que chama de Operação Militar Especial.

Ele também repetiu a ideia de que a intervenção de aliados em favor de Kiev ao longo do conflito o tornou uma guerra não contra a Ucrânia apenas, mas contra o Ocidente.

Tais sensações interessam ao Kremlin, em particular porque o momento positivo para Putin registrado no ano passado, com algumas vitórias importantes a altíssimo custo humano no leste ucraniano, não se transformaram em grandes avanços definitivos.

Kiev conseguiu reorganizar parte de suas defesas e, com o apagão provocado por Elon Musk nos terminais de internet de satélite Starlink que os russos usavam ilegalmente na Ucrânia, houve até alguma retomada de territórios nas duas últimas semanas.

Nada que por ora mude o rumo do conflito, mas que evidencia seu caráter de atrito. O bombardeio do sistema energético ucraniano desde o fim do ano passado é o pior do conflito, também, numa aposta de Putin que a exaustão possa abater seus rivais primeiro.

Até aqui, tal crença não se materializou, apesar do blecautes diários impostos aos ucranianos em seu pior inverno em décadas.

Para agravar a situação, as preocupações globais estão direcionadas para a ameaça de Trump de atacar o Irã, um aliado russo. A tensão no Oriente Médio, com navios de guerra e aviões de combate americanos se deslocando em grandes números, terá um novo ápice com a nova rodada de conversas indiretas entre os rivais na quinta-feira (26).