BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja viajar ao Chile para participar da posse de José Antonio Kast. Sua presença seria uma nova sinalização de que a relação com o líder da direita chilena deve ser pragmática e contrastar com os atritos com Javier Milei, da Argentina.
Kast inicia seu governo no dia 11 de março, encerrando o período de quatro anos em que o Chile foi liderado pelo esquerdista Gabriel Boric, aliado de Lula na região.
De acordo com diferentes integrantes do governo ouvidos pela Folha, a intenção de Lula é comparecer à cerimônia de transmissão de cargo, e os preparativos estão em andamento.
Embora Kast seja visto como o político mais à direita a comandar o Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-90), o receio no Palácio do Planalto e no Itamaraty de que a relação bilateral reeditaria o permanente clima de desconfiança e confrontação com a Argentina de Milei se dissipou após a reunião entre o chileno e Lula no Panamá, no fim de janeiro.
Foi nessa ocasião que Kast insistiu que seria importante a presença de Lula na sua posse.
De acordo com pessoas com conhecimento do discutido, Lula saiu satisfeito do encontro, no qual ambos os líderes reconheceram representar correntes ideológicas distintas, mas defenderam que o relacionamento bilateral seja marcado por pragmatismo.
Os interesses comuns entre os países passam pelos investimentos diretos do Chile no Brasil, o alto fluxo de turistas brasileiros que vão ao país andino, a rota bioceânica e o setor aéreo, entre outros.
A reunião entre Lula e Kast no Panamá se estendeu por mais de uma hora, seguida de uma conversa informal e da troca de broches com as bandeiras do Brasil e do Chile.
Um dos pontos que impressionou Lula, segundo os relatos à reportagem, é que Kast disse que seu partido, individualmente, é minoritário no Congresso e que, portanto, ele precisa ampliar sua coalizão. Kast também destacou que tem, entre seus ministros indicados, pessoas que trabalharam na gestão de Michelle Bachelet.
É o caso de Ximena Rincón, que assumirá a pasta de Energia. Ela comandou os ministérios do Trabalho e da Secretaria-Geral da Presidência no governo Bachelet. Outro caso é o de Jaime Campos, futuro ministro da Agricultura, que já fez parte dos gabinetes tanto de Ricardo Lagos quando de Bachelet.
A candidatura da ex-presidente chilena à Secretaria-Geral da ONU, segundo interlocutores, foi o principal tema levantado por Lula. O brasileiro disse que Bachelet, cuja candidatura foi lançada pelo governo Boric e apoiada por Brasil e México, tem o melhor currículo para suceder o português António Guterres no comando das Nações Unidas.
Lula afirmou a Kast que considerava Bachelet também uma candidata do Brasil e que seu governo se engajará totalmente na campanha. O objetivo de Lula era sondar o que Kast pretendia fazer em relação à candidatura ?especula-se que ele, por ser um líder da direita, possa retirar o apoio do Chile ao nome da ex-presidente.
Ainda de acordo com pessoas a par da conversa, Lula não recebeu uma resposta clara. O chileno limitou-se a dizer que analisaria o assunto com atenção uma vez empossado.
Lula não compareceu à posse de Javier Milei na Argentina, em dezembro de 2023. A relação entre os dois líderes é marcada por atritos, ataques e provocações do argentino durante a campanha.
Em relação a outras cerimônias na América do Sul, Lula compareceu a Assunção (Paraguai) para a posse de Santiago Peña, presidente de direita. Também foi ao Uruguai para prestigiar seu aliado, o esquerdista Yamandú Orsi.
O presidente brasileiro não foi aos atos em La Paz (Bolívia) pelo início do mandato de Rodrigo Paz, que marcou o fim do domínio da esquerda no país vizinho. Aliados de Lula dizem que a ausência se justifica porque ele esteve, no dia seguinte, em Santa Marta (Colômbia), para participar da cúpula União Europeia-Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) ?havia risco de esvaziamento da reunião, com poucos líderes presentes. O Brasil foi representado em La Paz pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.