SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Reza a lenda que Henry Kissinger (1923-2023), o poderoso secretário de Estado americano conhecido, entre outras coisas, por sua relação dura com a imprensa, certa vez deu início a uma entrevista coletiva dizendo aos jornalistas ali reunidos: "Alguém aqui tem perguntas para minhas respostas?".
Desde que voltou ao poder em 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, eliminou a necessidade de fazer esse questionamento a alguns dos presentes no Salão Oval e na sala de imprensa da Casa Branca.
Ao dar acesso nesses locais a jornalistas de veículos simpáticos ou abertamente trumpistas, além de influencers e blogueiros conservadores, o republicano garantiu que, cada vez mais, sejam ouvidas nas entrevistas coletivas perguntas como "o senhor acha que Deus está orgulhoso do seu trabalho?".
Essa pergunta, feita a Trump no dia 20 de janeiro, quando Trump completava um ano de seu segundo mandato, partiu do jornalista Jake Turx, da emissora Newsmax. Sem surpreender ninguém, o republicano respondeu que sim. A Newsmax ficou conhecida por apoiar as afirmações falsas do republicano de que as eleições de 2020, quando o vencedor foi o democrata Joe Biden, foram fraudadas.
Cenas assim passaram a acontecer com mais frequência depois que o governo Trump anunciou, em fevereiro de 2025, que a Casa Branca ficaria responsável por selecionar quais veículos podem acompanhar o presidente em eventos em que não há espaço para mais do que alguns poucos jornalistas ?como a bordo do Air Force One, o avião presidencial, ou no Salão Oval.
A mudança quebrou uma tradição de décadas. Até então, os principais veículos de mídia que cobrem a Presidência ?agências como a Associated Press e a Bloomberg; jornais como o The New York Times e o The Washington Post; TVs como a ABC e a CBS? estabeleciam um rodízio para que, a cada dia, um grupo diferente de jornalistas, o chamado "pool", pudesse estar com o chefe do Executivo americano.
Essa autorregulação acabou. Em nota emitida após a decisão de Trump, a Associação de Correspondentes da Casa Branca, entidade que reunia esses veículos e organizava o rodízio, disse que "a medida ataca a independência da imprensa livre nos EUA". "Em um país livre, líderes não podem ter permissão de escolher quem serão os jornalistas que os acompanharão", afirmou.
Os efeitos são visíveis. No dia 15 de dezembro, o repórter Javier Negre, do canal em língua espanhola da emissora trumpista Real America's Voice, perguntou ao presidente no Salão Oval: "O candidato pró-Trump, José Antonio Kast, venceu as eleições presidenciais do Chile. O senhor acha que essa vitória é graças à influência do senhor?". O republicano respondeu que sim.
A dinâmica nas entrevistas coletivas da Casa Branca também mudou. A secretária de Imprensa, Karoline Leavitt, agora começa esses eventos sempre da mesma forma ?dando a primeira pergunta a quem estiver na chamada "cadeira da nova mídia", onde, invariavelmente, há algum jornalista, influenciador ou blogueiro pró-Trump.
No dia 15 de janeiro, por exemplo, a pessoa que fez a primeira pergunta da entrevista coletiva foi a influencer trumpista e ex-nadadora universitária Riley Gaines. Estrela da nova mídia de direita nos EUA, Gaines ficou famosa depois de empatar em quinto lugar com uma mulher trans em uma competição em 2022.
A partir desse episódio, Gaines se tornou figura frequente em entrevistas e podcasts conservadores, dizendo ter sido vítima de injustiça e fazendo campanha pela proibição de mulheres trans em esportes na categoria feminina.
Na entrevista coletiva do dia 15, Leavitt fez propaganda do novo podcast de Gaines antes de lhe passar a palavra. A pergunta que a influenciadora fez foi: "O que o governo Trump pretende fazer para garantir que estados democratas que não protegem as mulheres [o façam]?", referindo-se a medidas que proíbem mulheres trans em esportes na modalidade feminina.
Já em 26 de janeiro, dois dias depois de agentes federais de imigração matarem o enfermeiro americano Alex Pretti em Minneapolis, Leavitt começou a entrevista coletiva dando a palavra ao jornalista Jordan Conradson, do site Gateway Pundit, descrito na mídia tradicional americana como um veículo de extrema direita e propagador de teorias da conspiração.
Naquele dia em que o governo estava pressionado pelas ações violentas dos agentes, que acabavam de matar um segundo cidadão americano em menos de um mês, Conradson perguntou a Leavitt: "Por que não houve revolta semelhante no caso de Ashli Babbit, morta durante protesto pacífico no Capitólio?"
Ele se referia à trumpista morta pela polícia enquanto tentava invadir o Congresso americano durante o ataque de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores do presidente buscaram impedir a certificação da vitória de Joe Biden nas eleições do ano anterior. A pergunta deu a Leavitt a oportunidade de dizer que a mídia pratica "revolta seletiva".
"Essas pessoas não estão operando nas tradições de uma imprensa livre", disse à Folha o jornalista americano Jonathan Alter, ex-editor da revista Newsweek. "Elas fazem propaganda e servem de fantoches."
"Por mais de cem anos, pelo menos desde o governo Woodrow Wilson [1913-1921], existiu uma certa relação entre o presidente e a imprensa", afirma Alter. "Agora, as entrevistas coletivas não são realizadas entre o presidente e jornalistas, mas sim entre o presidente e jornalistas de araque. Eles são jornalistas falsos, e acho que a história não terá problema em perceber a diferença."