SÃO PAULO, SP E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo brasileiro não teme que a nomeação de um ativista de ultradireita dos EUA ao cargo de assessor para relações com o Brasil possa atrapalhar o planejamento da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a seu homólogo americano Donald Trump. Mas ainda não há data fechada para viagem, embora a ideia inicial fosse realizar o encontro em março.

Darren Beattie, crítico contumaz do governo Lula e do ministro do STF Alexandre de Moraes, assumiu o cargo de assessor sênior encarregado de Brasil no Departamento de Estado, equivalente ao Ministério das Relações Exteriores nos EUA. A informação foi revelada pela agência de notícias Reuters e confirmada pela Folha por um alto funcionário da pasta.

Beattie já chamou Moraes de "principal arquiteto do complexo de censura e perseguição contra o (ex-presidente brasileiro Jair) Bolsonaro". Após a imposição de sanções da Lei Magnitsky sobre Moraes, Eduardo Bolsonaro agradeceu a Beattie por seus esforços em uma publicação no X. O americano também é secretário assistente interino para assuntos culturais no departamento.

A percepção no governo brasileiro é que Beattie não terá uma boa interlocução com autoridades no Brasil, mas que isso não atrapalhará as relações bilaterais.

A nomeação ocorre em meio à indefinição da data para a visita de Lula a Trump. Um alto funcionário do governo brasileiro afirma que a expectativa ainda é que a visita saia em março, na segunda quinzena. Mas funcionários americanos afirmam que não há nada confirmado.

A discussão sobre a visita de Lula a Trump surgiu no final do ano passado a partir de um convite do mandatário americano e seria uma maneira de selar a trégua entre os dois países após a retirada de parte das tarifas comerciais e sanções motivadas pelo processo contra Bolsonaro.

A pauta do encontro foi parcialmente esvaziada, uma vez que a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou parte das tarifas impostas por Trump invocando a Lei de Emergência Internacional de Poderes Econômicos. Com a retirada, os EUA mantiveram uma tarifa global de 10% para todos os países, que é comparativamente vantajosa para o Brasil, que era alvo de taxas maiores.

Com isso, o protagonismo deve ficar com a cooperação em combate ao crime organizado internacional e em minerais críticos. O governo americano vem negociando acordos de fornecimento preferencial com diversos países. O Brasil, que tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, recusa-se a firmar pactos de exclusividade e quer contrapartidas em investimento em processamento local dos minérios.

Já a cooperação em crime organizado, do ponto de vista do governo brasileiro, seria centrada no combate a lavagem de dinheiro e tráfico de armas, e colaboração para prender foragidos brasileiros que vivem nos EUA.

Venezuela e o Conselho da Paz criado por Trump, para o qual o Brasil foi convidado a participar mas deve declinar, também devem ser temas discutidos.

O governo brasileiro nega que a dificuldade de se chegar a acordos esteja emperrando a marcação da data da visita.

Segundo o UOL, para assinar o acordo de cooperação em segurança, os americanos cobram mais acesso a investigações e dados do Brasil e propõem outros cursos de ação para além da asfixia financeira ou prisão de alvos supostamente ligados ao crime organizado radicados em território norte-americano, como proposto anteriormente pelo governo brasileiro.

ESCUDO DAS AMÉRICAS

Um funcionário do governo brasileiro afirmou que não há preocupação com a reunião de presidentes de direita da América Latina que Trump vai realizar em Miami, em 7 de março, para a qual o Brasil e outras nações governadas por líderes de esquerda não foram convidados.

A expectativa do Planalto é que a reunião seja focada em inibir a influência da China na região, seguindo os princípios da Estratégia de Segurança Nacional de Trump, de manter o hemisfério ocidental sob domínio dos EUA.

A cúpula foi batizada de Escudo das Américas e reunirá aliados de direita de Trump, como os líderes de Argentina, Paraguai, Bolívia, El Salvador, Equador e Honduras, para debater segurança, combate ao crime organizado, terrorismo e imigração ilegal.

O alto funcionário disse não esperar que haja discussão ou mobilização para interferir na eleição de mandatários de esquerda na região. O Brasil e a Colômbia realizam eleições presidenciais neste ano.