SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O segundo dia da guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã começou com a intensificação da resposta de Teerã pelo ataque que matou seu líder supremo, Ali Khamenei, no sábado (28). O Estado judeu, por sua vez, atacou com força a capital iraniana e o que chamou de dezenas de centros de comandao do rival.
O espraiamento da violência eleva temores de que o conflito se amplie, tragando as monarquias árabes do golfo Pérsico que estão sendo submetidas a um inédito regime de apreensão com drones e mísseis iranianos caindo sobre suas prósperas cidades.
Após a confirmação da morte de Khamenei, no meio da madrugada deste domingo (1º) no Irã, o país promete a maior ação militar de represália dos 47 anos da República Islâmica, uma forma de sinalizar a continuidade do regime ?restando saber há fôlego para tal.
Forças do país voltaram a atacar diversas posições dos EUA e aliados no Oriente Médio, além de lançar mísseis contra Israel.
Em Sharjah, pacata cidade dos Emirados conhecida pela preservação de arquitetura e cultura tradicionais, um mercado foi atingido por destroços de drones e há o temor de que muitas pessoas estejam sob os escombros. No país, houve ataques em Dubai e Doha, e na vizinhança, em Manama (Bahrein). O porto de Abu Dhabi ficou em chamas.
Houve 1 morto e 32 feridos no Kuwait, e 3 mortos e 58 feridos nos Emirados Árabes. Até aqui, segundo o Comando Central dos EUA, três soldados americanos foram mortos e cinco ficaram gravemente feridos. No Irã, a única contagem foi do Crescente Vermelho, de 201 mortos e 747 feridos no sábado.
Teerã tem apostado no simbolismo de sua ação, principalmente contra Dubai, que é a joia da coroa no imaginário ocidental da opulência dos regimes autoritários árabes da região, com seus arranha-céus e arquitetura arrojada ?e em paz com Israel.
O aeroporto da cidade, assim como em Abu Dhabi e no Qatar, foi fechado, interrompendo o fluxo de turistas e a chegada de empresários.
Os dois prédios mais conhecidos da cidade foram alvejados: o hotel em forma de vela Burj Al-Arab foi atingido por um drone, e o maior edifício do mundo, o Burj Khalifa, quase recebeu impactos. "Está todo mundo assustado, não achávamos que ia continuar", disse o consultor paulista Mauro Araújo, que tinha passagem de volta para esta segunda (2). "Não sei como vai ser."
Os iranianos também alvejaram uma base americana em Erbil, no Iraque. Na província de Diyala, no mesmo país, quatro membros das Unidades de Mobilização Popular, um grupo armado xiita, foram mortos em ataques com drones.
Houve ainda uma grande explosão em Riad, capital saudita. Os sauditas são os maiores adversários de Teerã no mundo árabe, mas têm exercido cautela até aqui, até pela presença de Israel na coalizão de Trump.
A chancelaria dos Emirados, por sua vez, voltou a pedir que o Irã pare os ataques, dizendo que "esta guerra não é contra seus vizinhos". Os países já se enfrentaram indiretamente na guerra civil do Iêmen, onde apoiavam lados opostos. Em comum, todos esses países árabes têm bases ou permitem o uso de instalações por americanos.
No Estado judeu, as sirenes de alerta soaram de forma quase ininterrupta. "Foi uma noite infernal, todo mundo em abrigos", disse Yonatan Chaim, tradutor que mora em Jerusalém.
Neste domingo, nove pessoas morreram após um ataque com mísseis na cidade israelense de Beit Shemesh, informou o serviço de ambulâncias do país.
A retaliação também chegou até Omã, o sultanato que desde 2025 servia de mediador nas conversas indiretas entre EUA e Irã acerca do programa nuclear da teocracia, que estavam em curso quando Trump resolveu atacar.
Dois drones atingiram o porto comercial de Duqm, que fica distante dos alvos iranianos no vizinho Emirados, ferindo uma pessoa. Um petroleiro de bandeira de Palau que estava perto da costa do país também foi atacado, com quatro feridos, na primeira ação confirmada no estreito de Hormuz.
O gargalo marítimo, por onde passa um quinto da produção petrolífera do mundo, é objeto de ameaças de fechamento por parte do Irã. Até aqui, houve relatos de navios sendo alertados para não passar por lá, mas não uma ação maciça a partir das bases de mísseis iranianos da região.
O Reino Unido, que não participou do ataque ao Irã ao lado dos EUA e Israel, quase foi atingido pelos iranianos em Bahrein e no Chipre. Neste domingo, um caça Typhoon derrubou um drone iraniano perto de Doha, onde a aeronave está baseada.
Londres, que apoiou a Guerra do Iraque em 2003, se recusou a permitir o uso de suas bases por bombardeiros americanos na atual operação.
No lado dos agressores, a guerra continuou com intensidade neste domingo. Caças israelenses voltaram a bombardear Teerã, com a mídia local divulgando imagens de grossas colunas de fumaça. Segundo Tel Aviv, o alvo foi o quartel-general da Forças Armadas iranianas.
Depois, ao longo do dia, as forças israelenses atingiram o que qualificaram de dezenas de centros de comando, a maioria ligada à Guarda Revolucionária, elite militar iraniana. No ataque de sábado, a cúpula militar do país foi morta durante uma reunião presencial em Teerã.
Morreram no bombardeio o chefe da Guarda, Mohammad Pakpour, o poderoso conselheiro de Defesa Ali Shamkhani, o ministro Aziz Nasirzadeh e o chefe do Estado-Maior, Abdolrahim Mousavi, além de outros oficiais. Israel diz que o número de mortos chegou a 40 pessoas, incluindo cientistas do programa nuclear do país.
Não está claro o papel americano na ação neste domingo. No sábado, foram divulgadas imagens de lançamento de mísseis de cruzeiro Tomahawk e decolagens de caças F-35 e F-18 do porta-aviões Abraham Lincoln, mas publicamente o grosso do ataque parece ter sido feito pelas 200 aeronaves de Israel envolvidas.
Aos poucos, outros detalhes vão surgindo. O Centcom confirmou que quatro bombardeiros furtivos ao radar B-2, que como não podiam usar bases britânicas a distância segura devem ter voado diretamente dos EUA, participaram dos ataques.
Segundo os relatos, os americanos focaram em instalações fortificadas e na infraestrutura militar do país persa, enquanto os israelenses miraram as lideranças e as defesas aéreas. O B-2 ganhou fama no ataque do ano passado a centrais nucleares do Irã, também voando dos EUA.