BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O presidente Javier Milei chegou empoderado para abrir as sessões ordinárias do Congresso da Argentina neste domingo (1º). Comemorou a aprovação da reforma trabalhista, agradeceu pela redução da idade de responsabilidade penal e só interrompeu seu discurso, ao menos dez vezes, para bater boca com parlamentares da oposição.

"Olhem-se no espelho, vocês são os bandidos", gritou Milei aos peronistas, rebatendo acusações de corrupção e de que seu programa econômico tem punido as parcelas mais pobres da população. "Que interessante que um fracassado tenha chegado à Presidência."

"Sou o presidente de vocês também, ainda que não gostem", disse aos parlamentares de oposição. "Vocês não podem me aplaudir porque estão com as mãos enfiadas nos bolsos alheios", provocou.

"Aprovamos o primeiro orçamento sem déficit fiscal e livre de calote em cem anos, acabou o endividamento moral que deixava a conta para as gerações futuras e a emissão de moeda que golpeava os mais vulneráveis com inflação", gabou-se o presidente, que era aplaudido pelos apoiadores a cada pausa.

Ele chamou os peronistas de "bando de ladrões", disse que a justiça social era um roubo e que por isso a ex-presidente Cristina Kirchner está em prisão domiciliar. Também rebateu as acusações dos áudios que sugerem que sua irmã, Karina Milei, participou do recebimento de propinas. "Depois, passaremos a versão desenhada [do discurso] para que vocês entendam."

Sem se conter aos gritos e contestações dos peronistas, o presidente parou diversas vezes e salpicou todo o seu discurso com provocações aos opositores, repetindo o comportamento agressivo que tinha antes de ser eleito, quando participava de programas de TV.

"Fiquem com suas novelas, as pessoas sabem que é tudo falso. Continuem mentindo para as pessoas. Por isso sua líder está e continuará presa: pelo caso Cuadernos, pelo caso Vialidad, pelo memorando com o Irã, porque foram os mais mesquinhos da história", gritou.

"Não podemos aceitar que Brasil triplique a sua produção de soja com sementes de origem argentina, feitas por empresas argentinas e que não se pode vender na Argentina", disse, ao enumerar incentivos a pequenos e médios investimentos no agronegócio.

Ele também alfinetou a vice-presidente, Victoria Villarruel, ao dizer que "alguns próximos" se aproveitaram de acusações para tentar se aproximar da cadeira de Rivadavia (o cargo de presidente da Argentina).

No discurso, Milei comemorou a aprovação da regra que permite a declaração de capitais sem dizer a origem e a redução da idade para responsabilização criminal, de 16 para 14 anos.

"Muito obrigado ao melhor ministro da Economia, por duas vezes, [Luis] Toto Caputo", disse o presidente, ao mencionar dados de queda de gastos públicos e de redução da emissão de pesos argentinos. "Obviamente, empresários não podem comprar privilégios que políticos corruptos não colocam à venda. Ambos são cúmplices da corrupção e a maior responsabilidade recai sobre os políticos."

Milei mencionou o apoio do Tesouro dos Estados Unidos em evitar uma crise cambial pouco antes das eleições de outubro passado. "No contexto de um golpe, tínhamos, graças ao nosso grande sucesso em política externa, um aliado. Pela primeira vez na história e como resultado da relação especial entre os Estados Unidos e a Argentina, o governo de Donald Trump veio em auxílio do nosso país."

Também afirmou que a economia está "saindo do fundo do poço" sem custos para a atividade, mas sem mencionar a perda de empregos e fechamentos de empresas. Desde a posse do presidente até novembro de 2025, o número de empregadores com trabalhadores registrados caiu de 512.357 para 490.419, segundo dados da SRT (Superintendência de Riscos Ocupacionais).

"Avançamos com as primeiras privatizações previstas na Lei de Bases. Graças ao trabalho de todo o governo, mas em particular do ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger. Graças ao seu trabalho ciclópico, realizamos mais de 14 mil desregulamentações que explicam o grau de cooptação corporativa que o Estado tinha."

Após a aprovação da reforma trabalhista, o governo de Javier Milei planeja implementar também mudanças nas áreas tributária e previdenciária.

A reforma é vista como um sinal positivo pelos mercados, mostrando que o partido A Liberdade Avança pode formar maiorias no Congresso embora enfrente protestos e tenha que fazer concessões.

Milei considera essenciais as reformas trabalhistas e tributárias para organizar o mercado de trabalho e o sistema de impostos. Ele disse acreditar que essas mudanças devem acontecer antes de qualquer alteração no sistema previdenciário, que pode ser abordado em um possível segundo mandato em 2028.

O presidente pediu dias antes do discurso ao chefe de Gabinete que solicite a todos os ministros a preparação de pacotes de reforma para o restante de seu mandato, com algumas mudanças já podendo ser anunciadas em seu discurso ao Congresso.

"Temos de reformar nosso sistema impositivo, necessitamos um número menor de impostos", disse. Um dos projetos em discussão é uma reforma tributária para reduzir impostos e aumentar a formalização do mercado de trabalho, incluindo cortes no Imposto de Renda para empresas.

No que diz respeito à previdência, uma proposta em análise sugere aumentar a idade de aposentadoria para 70 anos para homens e 65 para mulheres, com incrementos anuais. A idade atual é de 65 anos para homens e 60 para mulheres. Milei, no entanto, não mencionou a reforma em seu discurso, o que pode sinalizar que não pretende mexer nas aposentadorias antes de tentar a reeleição em 2027.