SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto o analista de mídias Sayed Hamed Nematollahi, 47, caminhava pelas ruas de Teerã ao lado de milhares de apoiadores da teocracia islâmica neste domingo (1º), a arquiteta Tannaz, 28, compartilhava mensagens de comemoração nas redes sociais. Os dois iranianos conversaram com a Folha de S.Paulo neste final de semana, por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp.
Eles representam dois polos opostos da sociedade do país persa, cujo futuro encontra-se em suspenso desde o início dos ataques de Estados Unidos e Israel neste sábado (28).
Nematollahi mora na capital e é um apoiador da teocracia islâmica que, até ontem, era comandada pelo aiatolá Ali Khamenei. Já Tannaz, que pediu para não ter o sobrenome divulgado por medo de retaliações a sua família, faz parte da diáspora iraniana e vem acompanhando ansiosa notícias sobre uma possível queda do regime. Ela deixou o país em 2022, logo após os protestos contra a morte da jovem Mahsa Amini por forças de segurança, e hoje vive em Dubai.
"Os sentimentos são mistos; não somos mais as mesmas pessoas depois de todas essas experiências de revoltas a cada dois anos e do número de pessoas mortas pelo regime cruel do Irã", afirmou ela à Folha neste sábado (28). "Hoje [sinto] empolgação, felicidade, vingança, enquanto me preocupo com meu povo."
Nas redes sociais, Tannaz compartilhou publicações comemorando a morte de Khamenei, o líder supremo da teocracia alvejado no sábado pelo bombardeio das forças americanas e israelenses. Em muitas outras fotos de seu perfil, aparece sem o uso do véu islâmico ?mesmo quando estava no Irã, em um gesto de protesto contra a obrigatoriedade imposta às mulheres.
Perguntada sobre seus parentes e amigos, ela afirmou que não conseguiu falar com eles por causa da queda de internet dentro do país. Afirmou, porém, que se enxerga com "90 milhões de irmãs e irmãos em casa".
Se a arquiteta viu motivos para celebrar, o analista de mídia Nematollahi se juntou àqueles que entraram em luto pela morte do líder supremo. "Ele representa uma crença de que devemos resistir ao imperialismo", afirmou.
Das ruas de Teerã, enviou um vídeo à Folha de S.Paulo que mostra uma multidão caminhando com bandeiras do país ?incluindo crianças de colo? cantando em homenagem ao aiatolá. "Ó líder da liberdade, nós seguimos seu caminho", traduziu ele.
"Para muitas pessoas comuns, é um momento profundamente chocante. Khamenei esteve no centro do sistema político do Irã por mais de três décadas, e sua morte repentina no contexto de ataques estrangeiros abalou tanto apoiadores quanto críticos", afirma Nematollahi.
O líder supremo foi, como o nome indica, a autoridade máxima nos últimos 37 anos ?o que significa que uma parte considerável da população iraniana, incluindo Tannaz, não sabe o que é o país sob outro comando.
Com a morte de Khamenei, os membros remanescentes do regime montaram uma junta para governar provisoriamente e manter a República Islâmica de pé. Enquanto isso, os EUA e Israel mantêm ataques ao Irã, e o presidente americano, Donald Trump, diz que a campanha militar durará quatro semanas.
Com o desfecho em suspenso no momento, os dois lados se agarram às suas esperanças de vitória. "Nós somos moralmente fortes, estamos continuando a atacar fortemente", diz Nematollahi. "Nós acreditamos que, como nós estamos em uma guerra aberta, não temos tempo para o luto; temos que transformar o pesar em energia para seguir lutando."
Do outro lado, Tannaz deseja ver uma mudança radical na forma como o país é governado. "Eu nunca me senti tão próxima do meu povo", afirma, mesmo a milhares de quilômetros de distância de casa.