SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente americano, Donald Trump, acumulou vitórias através de uma política externa calcada na imprevisibilidade e na impulsividade, que força aliados e adversários a se curvar às demandas americanas para evitar o pior.
Mas a estratégia de sobrevivência do Irã frente aos ataques dos Estados Unidos e de Israel impõe a primeira grande ameaça à versão trumpista da "doutrina do louco". Para o regime, a morte de seus líderes é um custo baixo para manter viva a revolução islâmica de 1979.
Embora seja aparentemente suicida, a única forma que os iranianos têm de forçar uma solução negociada é semear o caos, disse à reportagem uma autoridade estrangeira que acompanha o desenrolar da guerra. Ela se refere à estratégia iraniana de retaliar países do Golfo, mirando a infraestrutura de energia e interrompendo a circulação no estreito de Hormuz.
Esse plano pode sair pela culatra, levando para o lado americano e israelense países do golfo que tentavam manter neutralidade ou mediar o conflito.
Nações como Emirados Árabes, Qatar e Arábia Saudita se arriscam a perder o status de oásis de estabilidade no Oriente Médio, essencial para se manterem como paraíso de negócios e turismo. Para se defender, estão gastando mísseis de defesa Patriot de US$ 4 milhões para interceptar os drones Shahed iranianos de US$ 20 mil.
Mas o caos instalado também pode aumentar as pressões desses países sobre o governo americano para encerrar a guerra. Além disso, o conflito está gerando custos políticos domésticos para Trump: soldados americanos mortos e alta do petróleo turbinando a inflação em ano de eleições para o Congresso dos EUA.
Trump entrou na guerra sem um objetivo claramente definido. As justificativas variam a cada minuto, da extinção do programa nuclear iraniano à destruição de mísseis, do corte de financiamento para o Hezbollah e milícias iraquianas até a mudança de regime dentro do Irã.
Já a República Islâmica reagiu aos ataques com planejamento minucioso. Ali Larijani, o poderoso líder do Conselho de Segurança Nacional iraniano, afirmou em redes sociais na segunda-feira (2) que o país, "ao contrário dos Estados Unidos, preparou-se para uma guerra prolongada."
Segundo uma reportagem do jornal britânico Financial Times, o regime começou a elaborar um plano "detalhado" após os ataques de Israel contra instalações nucleares iranianas em junho do ano passado.
O plano incluía ataques a instalações de energia que levariam a interrupções no tráfego aéreo na região.
O aiatolá Alireza Arafi, um dos membros de um conselho de liderança interina de três pessoas anunciado horas após a morte de Khamenei, disse em uma mensagem de vídeo na segunda que "esta guerra está prosseguindo graciosamente com o planejamento [de Ali Khamenei]".
Desde junho, o regime iniciou um processo de descentralização da tomada de decisões militares para evitar que suas forças sejam incapacitadas por assassinatos de comandantes de alto escalão, segundo o Financial Times.
Em fevereiro deste ano, o regime anunciou que iria ressuscitar uma estratégia de defesa que permite aos comandantes emitir ordens de forma independente para seus subordinados. O governo iraniano também criou quatro camadas de substitutos para toda a sua liderança.
O ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi chegou a afirmar à TV Al Jazeera no domingo (1º): "Nossas unidades militares estão agora, de fato, independentes e um tanto isoladas, e estão agindo com base em instruções gerais dadas a elas antecipadamente."
Até a morte do aiatolá Ali Khamenei, 86, aparentemente em um descuido, pode ter sido parte do cálculo. Ele se reuniu com todo o seu gabinete de guerra em um complexo em Teerã em 28 de fevereiro, mesmo sabendo que seus passos estavam sendo acompanhados de perto pelos serviços de inteligência de Israel e dos EUA.
Segundo Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute, uma hipótese é que Khamenei tenha sido descuidado propositalmente para morrer como um mártir por sua causa. "Morrer como símbolo de resistência, em vez de negociar como o líder que trouxe a calamidade para casa, se encaixa em sua visão de mundo. O martírio oferecia uma fuga da responsabilização --e a chance de passar o bastão sem admitir o fracasso", diz.
Segundo Vatanka, os assessores de Khamenei falavam sobre a fixação do aiatolá pelo sacrifício do imã Hussein -que viveu no século 7 e é considerado um mártir por muçulmanos xiitas.
É claro que essa estratégia tem limite. Se os EUA e Israel continuarem alvejando as lideranças na medida em que elas vão sendo substituídas, haverá disrupção na cadeia de comando.
Mas, enquanto isso não acontece, não existe uma oposição organizada que possa assumir o comando do país. E o regime mantém a repressão violenta a protestos.
Em entrevista ao jornal The New York Times, Trump manifestou a esperança de ver no Irã uma solução semelhante à encontrada na Venezuela, onde a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu após a captura do ditador Nicolás Maduro e passou a seguir as demandas americanas. "O que fizemos na Venezuela, eu acho, é o cenário perfeito, o cenário perfeito", disse o americano no domingo (1).
Mas está cada vez mais claro que o Irã não é a Venezuela.
Trump admitiu nesta terça-feira (3) que muitas das lideranças que poderiam vir a substituir o aiatolá foram mortas. E que o novo líder supremo pode ser "ainda pior".
Os EUA já pensam em estratégias alternativas, diante da baixa do estoque de interceptores de mísseis e drones em países do Golfo e da alta nos preços do petróleo e do gás. Segundo relatos, Washington está instigando lideranças curdas no norte do Irã a se voltarem contra o regime.
Segundo uma outra autoridade estrangeira que está em Teerã, quanto mais se aprofundam a destruição das estruturas do governo iraniano e a perseguição das lideranças, mais diminui a possibilidade de uma transição pacífica. Por isso, essa pessoa afirma também que não haverá solução sem envolvimento dos setores que detêm a força política, econômica e militar -especialmente a Guarda Revolucionária.
Segundo essa autoridade, talvez o governo Trump não tenha previsto a reação de um governo que não tem nada a perder diante de uma ameaça existencial. Pela primeira vez, a doutrina do louco de Trump pode acabar neutralizada.