PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) - O Irã parece disposto a priorizar a sobrevivência do regime acima das perdas econômicas decorrentes da interrupção do fluxo de petróleo, mantendo o Estreito de Hormuz fechado pelo tempo que o conflito armado durar.
Analistas ouvidos pela Folha afirmam que a morte do aiatolá Ali Khamenei empurra a liderança iraniana a demonstrar coesão e resistência frente às pressões externas, uma prioridade que pode se sobrepor à necessidade de receita.
Philip Andrews-Speed, pesquisador sênior no Instituto de Energia da Universidade de Oxford (Reino Unido), afirma que a perda de receita não será uma preocupação central no curto prazo.
"A elite do regime se preocupa apenas com a sobrevivência do próprio regime. É provável que esteja disposta a manter o Estreito de Hormuz fechado enquanto o conflito armado continuar", diz.
A Guarda Revolucionária do Irã anunciou o fechamento nesta segunda-feira (2), ameaçando incendiar qualquer navio que tentasse cruzar a região.
O fechamento de Hormuz já se refletiu nos preços do petróleo, que começaram a subir desde o ataque e tiveram nova alta na manhã desta terça-feira (3). O preço do barril do Brent, referência global da commodity, era negociado acima de US$ 84,33, configurando alta. Na sexta-feira (27), às vésperas do ataque, o custo era de US$ 72,48.
Zha Daojiong, professor de política econômica internacional na Universidade de Pequim (China), pondera que os mercados de combustíveis fósseis já haviam precificado a possibilidade de interrupções deliberadas mesmo antes da rodada atual de conflitos ?o que pode segurar disparadas ainda mais acentuadas.
"Com os EUA declarando interesse em mudança de regime, mas não em reconstrução nacional do Irã, e, mais profundamente, com o Irã já seriamente enfraquecido antes da recente rodada de ataques, as perspectivas de interrupções significativas nos fluxos comerciais que entram e saem dessas águas são baixas."
Entre os principais países afetados está a China, destino de 5,4 milhões de barris que atravessam o estreito por dia, segundo dados do primeiro trimestre de 2025 reunidos pela EIA (Administração de Informação de Energia dos EUA).
O movimento cria risco, ainda que distante neste momento, ao abastecimento energético chinês, uma vez que o bloqueio pode impactar diretamente o fornecimento. Pequim mantém hoje estoques da commodity em quantidade suficiente, segundo Andrews-Speed, para que não haja preocupação com o suprimento por "muitas semanas".
De forma geral, os países asiáticos serão os mais prejudicados, uma vez que o trecho integra a rota do petróleo proveniente do Irã, dos Emirados Árabes, da Arábia Saudita e do Iraque.
Analistas, porém, preveem cautela na ação de qualquer um desses atores, uma vez que ainda não é possível prever a duração da guerra ou mesmo qual será o impacto real no fluxo comercial na região.
Agora, as perdas econômicas pelo fechamento do trecho se somam à bagagem de Teerã, marcada por sanções financeiras severas, alta inflação e preços proibitivos, além dos cofres drenados para responder, no ano passado, à ofensiva de Israel e ao ataque americano ao seu programa nuclear ?episódio batizado de Guerra dos 12 Dias.
Para Michal Meidan, chefe do programa de pesquisa em energia chinesa do Instituto de Estudos de Energia da Universidade de Oxford, não será fácil manter o estreito fechado.
"É certamente desafiador, mas este é um regime que agora quer infligir o máximo de sofrimento aos seus vizinhos e aos Estados Unidos, e isso se dá por meio dos preços do petróleo."