SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O atual conflito no Oriente Médio, iniciado após ataques coordenados entre Estados Unidos e Israel ao Irã, reacendeu questionamentos sobre como era o país persa antes da Revolução Islâmica, que instaurou o atual regime teocrático no território.
Antes da revolução de 1979, o Irã era governado pela dinastia Pahlevi, que chegou ao poder após um golpe de Estado. Em 1926, o líder do golpe, Reza Khan, foi coroado Reza Xá Pahlevi. Dez anos depois, ele mudou o nome do país de "Pérsia" para "Irã". Seu filho, Mohamed Reza Pahlevi, foi proclamado príncipe herdeiro e viria a tornar-se o último xá do país em 1941.
Xá Pahlevi foi responsável pelo impulso de modernização que o Irã viveu na década de 1930, submetendo-se ao modelo ocidental. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Reza Xá teve seu país invadido por tropas britânicas e soviéticas, devido a sua simpatia pelo regime nazista alemão, e por isso abdicou do trono em nome de seu filho, Mohammad Reza Pahlevi.
O então herdeiro do trono e novo xá, Reza Pahlevi, manteve a política de aproximação e submissão do Irã ao ocidente, ao mesmo tempo em que cresciam movimentos nacionalistas, exigindo a independência econômica do Irã. Em 1949, surgiu a Frente Nacional do Irã, liderada pelo nacionalista Mohammed Mossadegh, preso durante o governo de Reza Xá por ser um grande critico da política pró-ocidente dos Pahlevi.
Contando com a simpatia popular, o líder opositor à monarquia foi eleito primeiro ministro em 1951. Mossadegh conseguiu nacionalizar o setor petroleiro em 1953, até então nas mãos dos britânicos. Logo depois, a Grã-Bretanha iniciou um bloqueio econômico ao Irã. Em plena Guerra Fria, a União Soviética, a fim de ampliar sua influência sobre a região, passou a comprar o petróleo iraniano, levando os Estados Unidos a apoiarem o bloqueio britânico.
Pressionado pelos opositores, Reza Pahlevi chegou a deixar o Irã, mas logo retornou. Por meio de um novo golpe de Estado conhecido por Operação TP-Ajax, arquitetado pelo serviço secreto britânico e pela CIA, Mossadegh foi deposto e o xá voltou a governar o Irã.
A partir de então, o governo de Pahlevi se tornou ditatorial. As reformas introduzidas, na chamada Revolução Branca, visavam principalmente: a modernização do Irã, ampliando as relações do Irã com os Estados Unidos, e a separação entre o Estado e o clero xiita. À época e ainda hoje, a maioria da população iraniana é xiita.
Qualquer oposição às medidas tomadas pelo xá era reprimida pela brutal Savak, como era chamada a polícia política iraniana. A censura agia de forma a proibir tanto as organizações trabalhistas quanto os nacionalismos -e até mesmo ideais religiosos islâmicos.
A monarquia persa mostrava ao mundo um Irã moderno, símbolo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, os governos ocidentais acreditavam que o Irã era a possibilidade de "evolução" dentro Oriente Médio, região considerada por muitos deles como pobre e retrógrada. O fato de o Irã possuir uma das maiores reservas de petróleo do mundo justificava o grande apoio militar e econômico recebido pelo xá, principalmente dos Estados Unidos.
A repressão passou a descontentar muitos setores da sociedade, que vivia em condição de pobreza, apesar da riqueza ostentada pela monarquia. Além disso, a rápida ocidentalização do país amedrontava o povo, que desde muito tempo lutava para manter sua cultura persa milenar.
O regime monarca também é lembrado como mais liberal, principalmente pela abertura ao Ocidente e pelos costumes mais flexíveis nas grandes cidades, onde mulheres podiam circular sem véu e usar roupas como minissaia. Essa política contrasta amplamente com a rígida polícia de costumes da atual república islâmica, cuja "polícia da moralidade" chegou a matar uma jovem de 22 anos presa por, em tese, usar o véu de forma inadequada, em relação à imposta pelo Estado.
No Irã, antes da Revolução Islâmica, não existia o rigoroso código de vestimenta que, até hoje, obriga as mulheres, por lei, a usar véu e vestimentas islâmicas. "O Irã era um país liberal. As mulheres podiam usar a roupa que quisessem", contou Rana Rahimpour, apresentadora iraniano-britânica em depoimento à BBC em 2022.
As roupas das mulheres foram incluídas na agenda da liderança do país no início do século 20, antes da revolução. "O véu só foi abolido oficialmente no Irã em 1936, na era do Reza Xá Pahlevi, o pai do Irã moderno", afirmou Haleh Esfandiari, autora do livro Reconstructed Lives: Women and Iran's Islamic Revolution ("Vidas reconstruídas: as mulheres e a Revolução Islâmica do Irã", em tradução livre). Anos antes, o líder havia incentivado as mulheres a não usar o véu em público ou "usar um cachecol no lugar do véu longo tradicional".
"Quando o véu foi finalmente abolido oficialmente, sem dúvida, foi uma vitória para as mulheres, mas também uma tragédia, pois foi extinto seu direito à escolha, como ocorreu quando o véu foi oficialmente reintroduzido em 1979, durante a República Islâmica", analisou Esfandiari. Com isso, "muitas mulheres se viram obrigadas a abandonar o véu e sair à rua sentindo-se humilhadas e expostas", ainda segundo a autora.
Durante o governo do xá Reza Pahlevi, mulheres também chegaram a ocupar posições de poder. "Tivemos mulheres ministras e juízas", relembra Rahimpour. Mas, mesmo com as promessas da Revolução Branca, "as mulheres ainda estavam confinadas aos papéis tradicionais", segundo Amidi. Embora "houvesse mulheres no Parlamento", ela considera que elas não tinham grande participação na esfera política. "Mas precisamos levar em conta que isso foi há quase meio século e as mulheres de todo o mundo, naquele período, não tinham muito poder político", ponderou.
Em 1971, Mohamed Reza Pahlevi, não só era um dos homens mais ricos do mundo, como o líder absoluto do Irã. Seu regime era cada vez mais repressivo contra os dissidentes políticos.
Entre o final de 1978 e inicio de 1979, manifestações contra Reza Pahlevi tomaram várias cidades do Irã. Grande parte da população aclamava o clérigo xiita Ruhollah Khomeine com um "imã", o líder supremo -político e religioso- dos iranianos. Ele, que estava fora do Irã desde 1964, devido sua oposição ao governo dos Pahlevi, tinha recebido nos anos 50 o título de aitolá, ou seja, o "maior conhecedor da lei islâmica", responsável por ocupar o mais importante cargo da hierarquia do clero xiita.
Como a facção xiita dentro do islamismo sempre acreditou que o Estado deve ser controlado por um líder religioso, o aitolá Khomeine passou a ser visto como o representante dos iranianos contra Reza Pahlevi. Isso ocorreu ao passo em que as manifestações populares cresciam vertiginosamente.
Como o exército e a Savak não conseguiam conter a população, em 16 de janeiro de 1979 Reza Pahlevi deixou o país. Os Estados Unidos, porém, ainda tentaram manter o 1º Ministro Chapour Bakhtiar.
Entre 10 e 12 de fevereiro daquele ano, uma insurreição popular armada tomou conta das principais cidades do Irã. Quando o exército iraniano passou a defender a revolução, Bakhtiar também teve que deixar o país.
Nesse processo, a Guarda da Revolução Islâmica (PASDARAM), milícia religiosa ligada ao clero xiita, tomou o controle da insurreição. Iniciou-se então, quase que imediatamente, a repressão aos líderes não religiosos do movimento (trabalhadores, intelectuais, políticos), instaurando no Irã um Estado teocrático que perdura até os dias de hoje, sob o nome de República Islâmica do Irã. Desde então, o governo rompeu relações diplomáticas e comerciais com vários países ocidentais, acusados de tentar explorar a economia iraniana e desbancar seu regime.