WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - No segundo mandato de Donald Trump, as mulheres no governo dos Estados Unidos são leais ao presidente, polêmicas e ainda uma minoria. Das 24 posições do gabinete, 7 são ocupadas por mulheres.
O número supera o primeiro mandato de Trump, quando foram apenas 5 entre 41 nomes, mas fica aquém do governo de Joe Biden, visto como o mais diverso da história americana. O cenário sofreu ainda uma mudança recente: Trump demitiu Kristi Noem, agora ex-secretária de Segurança Interna, em meio à crise envolvendo o ICE e as políticas migratórias, e escolheu o senador Markwayne Mullin para o cargo.
Entre as que permanecem, nenhuma ocupa posição de maior importância do que Susie Wiles. Chefe de gabinete da Casa Branca e primeira mulher a exercer a função, ela é descrita como a pessoa mais poderosa do governo depois do próprio presidente.
Chamada de "dama de gelo", Wiles cultiva um perfil deliberadamente discreto: evita exposição pública, raramente concede entrevistas e prefere atuar nos bastidores. Ainda assim, está presente nos momentos decisivos -imagens recentes a mostram ao lado de Trump em Mar-a-Lago durante o monitoramento dos ataques no Irã.
Nas redes, mantém atividade esparsa. Sua última postagem no X é de dezembro, em resposta a uma entrevista concedida ao jornalista Chris Whipple, publicada na Vanity Fair, na qual descrevia Trump como alguém com "personalidade de alcoólatra" -referindo-se à sua convicção de que nada está fora de seu alcance. Wiles classificou o texto como "difamatório" e "desonesto", afirmando que a publicação não contextualizou suas falas.
Se Wiles opera pela discrição, Pam Bondi segue o caminho oposto. À frente do Departamento de Justiça -pasta que, por tradição, mantém certa independência em relação ao Executivo-, a secretária não poupa elogios a Trump, a quem chama de "melhor presidente da história deste país". Em audiência no Congresso, reagiu a críticas parlamentares: "Você fica aqui atacando o presidente e eu não vou aceitar isso. Não vou tolerar."
Bondi acumula polêmicas no caso Jeffrey Epstein, criminoso sexual morto em 2019. Ela foi criticada pelo atraso na divulgação dos arquivos relacionados ao abusador e por reter documentos com menções a Trump. Chegou a ser apontada pela imprensa americana como secretária em vias de ser escanteada, mas segue no cargo.
Tulsi Gabbard é uma das figuras mais atípicas -e menos populares- do entorno de Trump. Diretora de Inteligência Nacional, ela é ex-deputada pelo Partido Democrata e ganhou projeção ao disputar as primárias de 2020 com um discurso crítico às intervenções militares americanas. Em meio à guerra no Irã, vídeos antigos em que ela se posicionava contra intervenções voltaram a circular. Nas redes, não publica desde 25 de fevereiro.
Na administração, ela acumula controvérsias. Uma delas foi a demissão de mais de cem funcionários após a descoberta de chats com conteúdo sexual explícito. Aliados do governo afirmaram que a medida era parte do combate ao ativismo político no órgão; críticos viram nela um sinal de politização das instituições de inteligência.
Fora do gabinete formal, mas ainda entre os rostos mais visíveis do governo, Karoline Leavitt ocupa a ponta mais exposta da gestão de Trump. Secretária de imprensa da Casa Branca, assumiu o cargo aos 27 anos, a mais jovem da história. Conhecida por confrontar jornalistas nos briefings e por caracterizar a imprensa como propagadora de fake news, já declarou que Trump "fez com que conservadores e republicanos se tornassem 'cool' novamente".
Os sete cargos de gabinete não contam toda a história. Uma análise dos primeiros 300 dias do governo, conduzida pela pesquisadora Kathryn Dunn Tenpas, do Brookings Institute, revela que entre as 216 pessoas confirmadas pelo Senado para cargos seniores, apenas 16% eram mulheres. É o menor percentual dos últimos quatro mandatos, incluindo o primeiro governo Trump, quando a proporção chegava a 23%.
A disparidade se aprofunda por pasta. No Departamento de Transportes, nenhuma das dez confirmações foi feminina. Na Defesa, apenas uma mulher integrou o alto escalão. Na Energia, 3 entre 16. Na Justiça, mesmo com Bondi no comando, só 3 das 14 confirmações foram de mulheres.
Para Tenpas, a queda de 50% -a proporção atingida no governo Biden- para 16% não é acidental. "É tudo uma reação à oposição deles aos esforços de DEI [diversidade, igualdade e inclusão]", afirma. Segundo ela, a orientação de recursos humanos do governo foi explícita: ignorar critérios de diversidade.
Além do impacto imediato, a pesquisadora alerta para consequências de longo prazo. Sem passagem pelo alto escalão federal, falta às mulheres o currículo, os contatos e a rede necessários para ascender. "Se as mulheres não têm algo em seus currículos para mostrar que trabalharam no governo, fica mais difícil depois conseguirem cargos mais seniores. Você precisa da experiência", explica.
O recado já está sendo lido pelas novas gerações. "Para as mulheres jovens que estão entrando no mercado de trabalho, elas pensam: esta não é uma gestão que está aberta a ter muitas mulheres nela." Se essa filosofia se consolidar em todo o governo, afirma Tenpas, as consequências serão duradouras e difíceis de reverter.