SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O bilionário do Vale do Silício Peter Thiel levou às portas do Vaticano a série de conferências sobre o anticristo que tem feito pelo mundo e tem causado mal-estar em círculos católicos ligados à Santa Sé.

O ciclo de palestras, desta vez em Roma, se encerra nesta quarta-feira (18) e é fechado à imprensa. Mas, como já ficou claro em apresentações em outros países, as falas representam uma visão oposta à da Igreja quanto à regulação da inteligência artificial e das empresas de tecnologia.

E não se trata de uma visão secular. Thiel tenta desenvolver uma espécie de teologia política segundo a qual planos globais de regulação tecnológica estariam a serviço do anticristo e de um suposto plano para acelerar o Apocalipse bíblico.

O magnata da tecnologia, que é fundador de empresas como a Palantir e investidor de primeira hora do Facebook, acredita que o antagonista de Cristo pode se aproveitar do pavor que a humanidade tem da mudança climática, da guerra nuclear e da IA para criar um governo mundial totalitário. Trata-se de uma visão religiosa que se alinha a ideias da direita trumpista contra organismos multilaterais.

Um cartaz chegou a ser pendurado em uma passarela antes da chegada de Thiel à cidade, em apoio ao magnata, trazendo um versículo conhecido do Evangelho de Lucas: "Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Bem-vindo, Peter Thiel".

O papa Leão 14 tem sido uma das vozes mais influentes a denunciar o que vê como riscos da inteligência artificial. Desde que a fumaça branca saiu da Capela Sistina anunciando sua eleição, o sumo pontífice e instituições de lobby ligadas à Igreja têm apoiado diretrizes de regulação global da IA opostas ao que deseja Thiel.

Por isso, mal saiu a notícia de que o bilionário levaria as conferências à capital italiana, universidades católicas trataram de se distanciar das palestras, anunciando que não seriam elas a receber o evento. No começo, rumores chegaram a dizer que Thiel ia falar na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, onde o papa fez seu doutorado 40 anos atrás, mas a instituição se apressou em negar.

A imprensa católica ligada à Santa Sé é quem tem passado recibo do mal-estar. O frade franciscano e teólogo Paolo Benanti, conhecido por assessorar o papa sobre inteligência artificial, por exemplo, publicou um artigo em francês na revista Le Grand Continent com o título "Heresia Americana - Peter Thiel Deve Ir para a Fogueira?".

Apesar da provocação, o religioso fala em fogueira no sentido figurado, dizendo que toda ação de Thiel pode ser lida como "um ato prolongado de heresia" contra os valores liberais. Em tom combativo, Benanti diz que o conjunto de companhias que têm Thiel como investidor ?chamadas pelo religioso de "máfia do Paypal"? tornaram-se questões políticas.

Já o jornal Avvenire, ligado à Conferência Episcopal Italiana, também publicou uma série de artigos críticos ao bilionário. Um dos textos reforçava a visão do Vaticano sobre a regulação da IA, dizendo que os empresários de tecnologia não devem ter permissão para definir seus próprios limites éticos e que os governos devem garantir a fiscalização democrática das plataformas digitais.

Peter Thiel já levou suas conferências a universidades nos Estados Unidos e na Europa, mas é a primeira vez que gera esse tipo de reação ?e a proximidade com o Vaticano, que tem uma agenda própria sobre esse assunto, pode explicar as respostas.

O fundador da empresa de inteligência de dados Palantir parece desenvolver sua visão de mundo a partir de três fontes: a ideologia libertária; o jurista alemão Carl Schmitt, que se associou ao nazismo e é um dos mais influentes teóricos do poder político do século 20; e o antropólogo francês René Girard, famoso pela teoria do desejo mimético.

Girard, que desenvolveu a tese a partir da leitura de obras literárias e religiosas, é influente mesmo fora do campo conservador. Grosso modo, sua teoria sustenta que o desejo humano se forma pela imitação dos outros ?e que tal dinâmica geraria rivalidade e violência, contida pelas sociedades ao eleger bodes expiatórios.

Thiel é o principal representante do conservadorismo no Vale do Silício. Ele já se filiava à direita desde a juventude, como estudante na Universidade Stanford, onde foi aluno de Girard. O bilionário, aliás, apoia as traduções no Brasil da obra do pensador, por meio do Instituto Imitatio, dedicado a disseminar as ideias do antropólogo pelo mundo.

Apoiador de Donald Trump de primeira hora na campanha de 2016, Thiel tem ajudado a eleger políticos conservadores nos Estados Unidos. O principal deles é o vice-presidente americano J. D. Vance, que já declarou publicamente a admiração pelo bilionário e também pela obra de Girard (há diversos intelectuais girardianos, diga-se, que rejeitam a visão de mundo dos dois).

Para agravar a insatisfação de religiosos ligados a Leão 14 com a passagem do magnata por Roma, agências de notícias chegaram a anunciar que haveria uma missa em latim ligada à série de palestras. A missa tridentina tem sido alvo de conflitos entre a Santa Sé e setores da direita desde que o papa Francisco criou regras para dificultar a realização do rito tradicional, em 2021.

À agência Associated Press, um porta-voz disse que o Vaticano não recebeu nenhum pedido de autorização ?e que, caso isso acontecesse, o pedido seria negado.