CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou nesta quinta-feira (19) que "não enganou ninguém" e que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não precisou de convencimento para entrar em guerra com o Irã.

Em entrevista coletiva, o premiê iniciou com uma fala em hebraico e, em seguida, falou em inglês para a imprensa internacional. Suas primeiras palavras foram "eu estou vivo, vocês são testemunhas", em referência a boatos de que ele teria morrido em ataque iraniano.

Netanyahu foi perguntado diversas vezes por jornalistas presentes sobre os objetivos da guerra e sobre a percepção de que Israel arrastou os EUA para o conflito, em meio à elevação dos preços de combustíveis com o bloqueio do estreito de Hormuz pelo Irã.

"Eu não enganei ninguém, e não tive que convencer o presidente Trump da necessidade de impedir que o Irã desenvolvesse seu progama nuclear, colocando ele debaixo da terra e possibilitando o lançamento de mísseis com ogivas nuclear nos EUA. Ele já entendia isso; ele me explicou, não eu para ele", afirmou Netanyahu. "Os EUA não lutam por Israel, mas com Israel", disse, em outro momento.

O governo e o Exército de Israel têm reforçado a profundidade da parceria entre os dois países, muito embora existam evidências de que tanto operações como objetivos de ambos no conflito não estão completamente alinhados.

O mais recente deles foi o ataque ao megacampo de gás Pars Sul, gerido parte pelo Irã, parte pelo Qatar. Perguntado sobre o assunto, Netanyahu afirmou que Israel agiu sozinho no ataque e que Trump pediu que Tel Aviv não realizasse novos ataques no local, algo que o premiê afirmou estar respeitando.

Há ainda divergências sobre os objetivos da guerra. Em meio a comunicação caótica e contraditória da Casa Branca, que tem mudado metas e avaliações sobre o andamento do conflito, o chefe do Pentágono afirmou nesta quinta que os objetivos americanos são a destruição da Marinha, dos mísseis balísticos e capacidades de produção desse arsenal do Irã, e impedir que Teerã desenvolva armas nucleares.

Isso condiz apenas em parte com o plano de Israel delineado por Netanyahu na entrevista coletiva. Embora tenha citado o fim do programa nuclear e de mísseis balísticos iranianos, o premiê reforçou que é parte da estratégia israelense a queda do regime e "tomada de controle" do país pela população local.

Isso era parte da retórica inicial de Trump, que chegou a aventar no início do conflito até o apoio logístico e operacional a rebeldes curdos no norte do Irã para incitar uma insurreição no país persa. No 20º dia de guerra, não se ouve mais sobre os curdos nos discursos do presidente e outras autoridades ?o próprio Hegseth já afirmou que "está não é uma guerra para mudança de regime".

O foco dado pelo Pentágono à destruião da Marinha iraniana também se destaca das metas israelenses, muito embora o Exército judeu tenha realizado ataques contra a frota persa localizada no mar Cáspio nesta quinta. Em entrevista a jornalistas, o porta-voz internacional do Exército, tenente-coronel Nadav Shoshani afirmou que foram atingidos dezenas de alvos, navios com capacidades de lançamento de mísseis, uma corveta e centros de comando e controle iranianos na região.

A Casa Branca, no entanto, mira o golfo Pérsico, prioridade em meio ao bloqueio iraniano do estreito de Hormuz e ataques dos dois lados da contenda na infraestrutura de gás e petróleo de vários países da região, que catapultaram os preços de combustíveis e já pressionam a inflação em todo o mundo.

Netanyahu aproveitou o ensejo para reforçar seus planos de redesenho do Oriente Médio, indicando que a crise no Golfo pode se transformar em vantagem a Israel no longo prazo.

"Acho que o que precisa ser feito é termos rotas alternativas, em vez de ser preciso passar por gargalos como o estrito de Hormuz e de Bab el-Mandeb [na costa do Iêmen]. Óleodutos, gasodutos para garantir o fluxo que vão em direção a oeste, pela península Arábica até Israel e direto para nossos portos no Mediterrâneo. Assim você elimina esses gargalos para sempre", afirmou o premiê israelense.