SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro tira-teima da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã acontece nesta segunda-feira (23), quando vence o ultimato dado por Donald Trump para a reabertura do estreito de Hormuz pela teocracia.
Ambos os lados só fizeram subir o tom até aqui, o que promete garantir mais um dia de nervosismo no mercado global.
Neste domingo (22), diversas autoridades iranianas foram a público para reiterar e ampliar as ameaças retaliatórias caso o americano cumpra a promessa de bombardear centrais energéticas do país persa, na provável hipótese de ele não liberar a via marítima de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.
O prazo dado por Trump no sábado (21) acaba às 20h13 (horário de Brasília) desta segunda.
O presidente Masoud Pezeshkian disse no X que "ameaças e terror só reforçam nossa unidade". "O estreito de Hormuz está aberto para todos exceto quem viola nosso solo. Nós confrontamos ameaças delirantes com firmeza no campo de batalha", completou.
O poderoso presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, foi à mesma rede dizer que se houver o ataque, "infraestruturas críticas, de energia e instalações de petróleo na região serão consideradas alvos legítimos e serão destruídas de uma forma irreversível". O preço da commodity então "vai ficar alto por um longo tempo".
Depois, ainda ameaçou instituições bancárias que negociam títulos do Tesouro americano, "que estão ensopados com sangue iraniano". Aqui a empolgação de Ghalibaf parece ter sido exagerada: o terceiro maior detentor desses títulos no mundo é sua aliada China, com cerca de US$ 700 bilhões em "treasuries" em seu poder.
A Guarda Revolucionária disse que o estreito será fechado em caso de ataque ao sistema energético, e que todas as empresas com ações americanas no golfo Pérsico serão alvejadas.
Um porta-voz militar não identificado falou até em agir contra usinas de dessalinização de água, essenciais para os desérticos países da região.
Essas são ameaças mais tangíveis, dada a vulnerabilidade dessas nações a drones e mísseis de curto alcance iranianos.
Teerã tem permitido a passagem de algumas embarcações por uma rota que passa por suas águas territoriais, o que aumenta a suspeita de que o curso principal por onde passavam os navios, com 3 km de largura em cada faixa, possa estar minado. Mas, na prática, o comércio está paralisado.
O ultimato de Trump é o primeiro do tipo no conflito iniciado há três semanas. Usualmente, como ocorreu nas negociações para tentar fazer a paz entre a Rússia e Ucrânia ao longo de 2025, sua palavra não pode ser levada a sério. Mas ele nunca riscou uma linha no chão com suas forças em ação.
Questionado se o desafio não contrastava com a digressão feita em rede social pelo presidente na sexta (20), quando escreveu que poderia "desacelerar" os ataques porque considerava a guerra ganha, o secretário Scott Bessent (Tesouro) fez um malabarismo retórico.
"Às vezes você precisa escalar para desescalar", disse neste domingo à rede NBC. Na sequência, sugeriu que pode haver a especulada ação terrestre contra a ilha de Kharg, centro de exportação de 90% do petróleo do Irã.
"Vamos ver o que acontece lá", disse. Há cerca de 5.000 fuzileiros navais se dirigindo para o Oriente Médio em dois grupos expedicionários, e especialistas creem que um quinto deles daria conta de tomar Kharg. O desafio viria depois: junto à costa iraniana, a ilha ficaria exposta a bombardeio contínuo.
Bessent também defendeu uma das medidas mais polêmicas da guerra, a de autorizar a venda de petróleo iraniano sob sanção para tentar aliviar a crise no preço do barril, que chegou a quase US$ 120 na semana passada. Ante a ironia de custear o adversário, ele disse que é algo temporário.
O gás natural disparou ainda mais na semana passada, quando Israel atacou a porção do Irã do maior campo da commodity no mundo, e Teerã retaliou destruindo quase 20% da capacidade de processamento do Qatar, líder de mercado.
Apesar da retórica iraniana de que Hormuz está aberto a neutros como Índia e amigos como a China, o perigo segue em alta. Neste domingo, um petroleiro foi atingido perto da costa dos Emirados Árabes Unidos e pegou fogo.
Enquanto o ultimato não expira, a violência seguiu seu curso no domingo. Israel e EUA mantiveram seus bombardeios, enquanto o Irã seguiu lançando mísseis e drones contra o Estado judeu e países aliados de Washington.
O Irã disse ter derrubado um caça F-15E dos EUA em Hormuz, mas as forças americanas negaram a informação.