BRASÍLIA, DF E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Há um certo paradoxo na relação de Donald Trump com a imprensa, alvo constante de ataques do presidente dos Estados Unidos, mas também o meio ao qual ele recorre em momentos de estresse político. A guerra no Irã tem intensificado esse processo, com escalada de ataques e um ritmo frenético de entrevistas concedidas pelo republicano.
Ao mesmo tempo em que ameaça não renovar licenças públicas de emissoras com cobertura crítica do governo e que faz ofensas pessoais a repórteres mais incisivos, Trump já concedeu ao menos 25 entrevistas a veículos americanos e de países aliados em 20 dias de guerra ?sem contar entrevistas coletivas e interações com repórteres a bordo do avião presidencial.
Grande parte dessas entrevistas são telefonemas com poucos minutos de duração em que os jornalistas atendidos têm pouco tempo para contrapor afirmações do presidente e apontar inconsistências da comunicação da Casa Branca sobre a guerra.
Após a primeira semana do conflito, por exemplo, o correspondente da rede ABC em Washington, Jonathan Karl, escreveu em publicação nas redes sociais que Trump havia atendido três ligações suas desde o início da guerra.
Somente no dia 1º de março, dia seguinte ao início do conflito, Trump falou por telefone com profissionais da revista The Atlantic, do jornal The New York Times, da rede MS Now e da publicação britânica Daily Mail ?os três primeiros reconhecidamente críticos do governo do republicano.
Em todas essas entrevistas, Trump estipulou uma previsão de quatro semanas para o fim da guerra e discutiu novas lideranças para o Irã, que, segundo ele, queria fazer um acordo; o conflito, no entanto, entrou em sua terceira semana sem fim à vista e com Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo anterior, na liderança do país persa.
Apesar disso, o americano critica a imprensa e diz que os jornais são responsáveis por notícias falsas em relação ao conflito. "Nossas empresas de comunicação, que não têm credibilidade, estão publicando informações que sabem que são falsas", disse o presidente, no último dia 14, a bordo do Air Force One.
Em publicação na rede Truth Social, ele escreveu que reportagens críticas de jornais americanos são o oposto da realidade. "São pessoas doentes e com demência, que não têm a menor noção do dano que causam para os EUA."
"O que me chama a atenção é que em meio a todo esse barulho, não vi um momento em que Trump forneceu uma justificativa ponderada ou convincente para o porquê ele está fazendo o que está fazendo. Não há uma mensagem consistente", disse Allison Prasch, professora da Universidade de Wisconsin-Madison, especialista em retórica presidencial e comunicação política.
A falta de uma mensagem consistente, assim como o aumento de ataques à imprensa, estende-se para o restante da gestão republicana, em particular das autoridades diretamente envolvidas com o conflito.
Pete Hegseth, o chefe do Pentágono, disse na última quinta (19) que não há um calendário definido para o conflito e voltou a criticar a imprensa. "A imprensa precisa falar a verdade. Nós estamos vencendo", afirmou ele, antes de pedir que os americanos "orem de joelhos" pelas tropas ?ao menos 13 militares morreram desde o início da guerra.
Hegseth também criticou a rede CNN, chamando a cobertura do conflito de ridícula e dizendo não ver a hora de a emissora ser controlada por David Ellison, aliado de Trump e CEO da Paramount, que comprou a Warner, dona da CNN.
Durante o conflito no Oriente Médio, o Pentágono escalou a retórica contra a imprensa proibindo a entrada de fotojornalistas em ao menos duas entrevistas sob o argumento de que eles haviam publicado imagens consideradas desfavoráveis do secretário Hegseth.
"Um dos aspectos mais marcantes da retórica de Trump sobre a guerra, em comparação com outros presidentes, é o seu desrespeito pelos sacrifícios daqueles que estão em perigo e daqueles em casa afetados pela guerra", disse Ann Burnette, professora de comunicação da Universidade do Estado do Texas.
"Outros presidentes americanos têm sido cuidadosos ao argumentar que esses sacrifícios são trágicos, mas necessários e significativos. Trump não trata isso com a mesma seriedade", afirmou ela.
Antes do início da guerra, o Pentágono já havia exigido que jornalistas cobrindo a pasta assinassem termo se comprometendo a pedir autorização ao governo para publicar reportagens, o que foi rejeitado por grandes veículos.
Nas últimas semanas, a reação negativa contra a imprensa ganhou um capítulo ainda mais sério. O diretor da FCC (Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos), Brendan Carr, ameaçou a revogação de licenças de emissoras em razão da cobertura da guerra contra o Irã.
Na rede Truth Social, Carr publicou que "as emissoras devem operar no interesse público e perderão as suas licenças se não o fizerem". Ele ainda escreveu que as emissoras divulgam "boatos e distorções noticiosas" e alertou que elas deveriam "corrigir o rumo" antes da renovação de suas licenças.
Não foi a primeira vez que a FCC ameaçou a imprensa. No ano passado, por exemplo, o programa "Jimmy Kimmel Live!" foi retirado do ar temporariamente após o diretor criticar falas do apresentador. Outro programa, o "The View", também da ABC, foi colocado no centro dos debates após Carr sugerir que a FCC deveria investigá-lo pelo conteúdo político.
Neste ano, o apresentador Stephen Colbert usou seu programa para dizer que a emissora em que ele trabalha, a CBS, impediu-o de transmitir uma entrevista com o democrata James Talarico por supostas orientações da FCC sobre a obrigatoriedade de igualdade de tempo de transmissão para os candidatos.
"Isso deveria ser uma grande preocupação para qualquer pessoa que se importe com a liberdade de imprensa e a democracia", disse o analista de mídia Tom Jones, do Instituto Poynter, organização voltada à preservação da liberdade de imprensa nas democracias. Para ele, esse tipo de ameaça "é o tipo de coisa que se vê em regimes autoritários", mas "não o tipo de coisa que se espera ver nos Estados Unidos".
"O objetivo dessas ameaças é intimidar e amedrontar as emissoras. Talvez acreditem que isso fará com que as redes de notícias deixem de cobrir o governo de forma mais incisiva. Para o governo Trump, ameaçar e forçar as emissoras a se defenderem já é, por si só, o objetivo de tudo isso", disse Jones.
Para ele, este tipo de ameaça demonstra que "o governo prefere algo parecido com uma televisão estatal, ou seja, reportagens que mostrem apenas os aspectos positivos e deixem de lado os negativos".
Apesar das tentativas de usar a guerra como distração, Trump não conta com a popularidade a seu favor. Pesquisas recentes mostram que ele enfrenta a maior desaprovação desde o início do mandato, com 58% de avaliação negativa, segundo o Ipsos/Reuters.
Já 55% da população desaprovam os bombardeios no Irã, de acordo com a pesquisa da Reuters divulgada na semana passada ?desde o início do conflito, os americanos já demonstravam que esta não seria uma ofensiva popular.
Para Burnette, do Texas, há preocupações domésticas que Trump não gostaria que tivessem atenção, caso do agravamento da crise do custo de vida nos EUA, as revelações contínuas dos arquivos do caso de Jeffrey Epstein e as tensões políticas dentro do movimento Maga ("Make America Great Again" ou "Faça a América Grande Novamente", lema de Trump). "A guerra pode servir como uma distração retórica em relação a esses temas", afirmou ela.
No entanto, essa distração não deve ter efeitos longos porque os americanos já estão sentindo no bolso o aumento dos preços da gasolina como resultado da guerra. "Isso impactará o custo de vida de diversas formas. Será cada vez mais difícil para Trump desviar a atenção das questões de custo de vida à medida que o conflito continuar."