BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Tropas dinamarquesas estavam prontas para destruir pistas de pouso na Groenlândia caso os Estados Unidos invadissem a ilha em janeiro. A revelação dramática, feita em reportagem da emissora pública DR, ilustra o tamanho da preocupação do país com os desatinos de Donald Trump. E surgiu às vésperas das eleições parlamentares, nesta terça-feira (24).
Não é segredo que Mette Frederiksen, 48, primeira-ministra da Dinamarca desde 2019, chamou o pleito em um momento conveniente para si e para o partido social-democrata. Por lei, deveria convocá-lo até outubro, mas o que parecia problema há alguns meses tornou-se oportunidade: o efeito Trump.
Em janeiro, o presidente americano chegava ao clímax de seu desentendimento com a Europa, exigindo a anexação do território autônomo, há mais de três séculos parte do Reino da Dinamarca, "pelo caminho fácil" ou "pelo caminho difícil". Trump recuou, mas deixou um saldo de reações defensivas na Europa.
Considerando apenas o norte do continente, o presidente americano ressuscitou a ideia de adesão à União Europeia na Islândia e na Noruega, a adoção do euro pela Suécia e as perspectivas políticas de Frederiksen na Dinamarca. Elevada a modelo por pares europeus devido a uma agressiva política anti-imigratória, a despeito de suas raízes na centro-esquerda, Frederiksen afundava nas pesquisas nos últimos meses.
A fadiga da população com seu partido ficou evidente em novembro, quando os sociais-democratas perderam a Prefeitura de Copenhague pela primeira vez desde 1903. "Já esperávamos baixas, mas a queda parece ser maior do que a projetada", disse a primeira-ministra após as eleições municipais, assumindo a responsabilidade pelo fracasso.
Os socialistas assumiram a capital dinamarquesa após uma campanha pautada pelo custo da habitação, que apenas em 2025 teve um aumento de 20%. A própria primeira-ministra reconheceu que o resultado transcendia as questões locais, ou seja, a conta de adotar posições estranhas à social-democracia, como no caso da imigração, havia finalmente chegado.
Então veio Trump. No fim de janeiro, dias depois de a Europa abraçar a Groenlândia e colocar a ilha no mesmo escaninho da invadida Ucrânia -o de questões existenciais para o continente-, o gabinete de Frederiksen alcançou 40,9% de aprovação em pesquisa do Instituto Voxmeter, o resultado mais alto em dois anos.
Chamar as eleições foi natural. "Esta será uma eleição decisiva, pois será nos próximos quatro anos que nós, como dinamarqueses e europeus, teremos realmente de nós virar sozinhos", disse a primeira-ministra ao contar que havia solicitado ao rei Frederico 10° a antecipação da eleição. "Precisamos definir nossa relação com os EUA e devemos nos rearmar para garantir a paz em nosso continente."
Na campanha, porém, a preocupação de Frederiksen, uma política de carreira, tem sido resgatar bandeiras ligadas à centro-esquerda ou "voltar a pintar os sociais-democratas de vermelho", como afirmou, recentemente, Lawand Hiwa Namo, analista do jornal Politiken.
Em 2022, ao ser reeleita, a primeira-ministra formou uma coalizão centrista, com liberais e moderados, quebrando a tradição política do país e frustrando parte de sua base eleitoral. Agora, apesar das projeções ainda apontarem os sociais-democratas com a maior bancada, a guinada de Frederiksen antecipa uma coalizão menos conservadora e suscita forte debate entre eleitores e imprensa.
No Folketinget, o Parlamento dinamarquês, Frederiksen anunciou a intenção de taxar em 0,5% patrimônios privados superiores a R$ 20 milhões. Entre outras medidas, a arrecadação extra serviria para diminuir o tamanho das salas do ensino fundamental de 26 para 14 crianças. A proposta foi criticada por líderes de grandes empresas do país, como Maersk e Lego.
Também no pacote está a criação de mecanismos para antecipar a aposentadoria, cuja idade obrigatória foi atualizada recentemente para 70 anos, uma das mais altas da Europa.
Frederiksen, no entanto, não abriu do rigor com imigrantes, bandeira que tomou dos populistas, estratégia que muitos políticos moderados da Europa buscam emular. Na última quinta-feira (19), em encontro do Conselho Europeu, apresentou junto com a colega italiana, Giorgia Meloni, uma carta exigindo da UE fronteiras fechadas.
As duas líderes, de matizes políticas opostas, mas parceiras frequente no assunto, antecipam o mais novo efeito colateral da administração Trump: um novo afluxo de refugiados ao continente após os ataques de Israel e EUA ao Irã e a renovação da crise humanitária no Oriente Médio.