SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto o foco da guerra no Oriente Médio se desloca para o adiamento do ultimato de Donald Trump ao Irã, em outra frente Israel anunciou que irá ocupar militarmente o sul do Líbano mais uma vez, algo que fez de 1982 a 2000.

"As Forças de Defesa de Israel irão controlar as pontes remanescentes e a zona de segurança até o rio Litani", disse o ministro Israel Katz (Defesa) nesta terça-feira (24), colocando em palavras o que a prática no campo de batalha já desenhava.

"As cinco pontes usadas pelo Hezbollah foram destruídas" sobre o Litani, disse Katz. O rio marca o limite da zona de exclusão que havia sido consagrada pela resolução 1701 da ONU, que tratou do cessar-fogo da guerra de 2006 entre o grupo pró-Irã libanês e o Estado judeu.

Isso gera temores no Líbano de uma anexação definitiva por parte do vizinho, como defendem abertamente os partidos de direita religiosa que integram a coalizão de Binyamin Netanyahu, advogados da ideia de um Grande Israel.

O território tem 850 km² e, no ponto mais ao norte, fica a 30 km de Israel. Na trégua estabelecida em 2024 entre os rivais após o Hezbollah atacar Israel em apoio ao Hamas na guerra pela Faixa de Gaza disparada pelos terroristas palestinos um ano antes, a área deveria ficar sob controle do Líbano.

Na prática, isso nunca aconteceu plenamente. O governo libanês quer retirar o controle militar histórico que o Hezbollah tem na região, mas não dispõe de força suficiente. E Israel, que deveria ter se retirado, manteve cinco pontos de controle e inúmeros ataques a posições rivais desde o cessar-fogo.

Com a guerra declarada pelo Estado judeu e os Estados Unidos contra o Irã, no dia 28 de fevereiro, a situação desandou. Após titubear, o Hezbollah passou a lançar foguetes e drones contra os israelenses.

As forças de Tel Aviv, que já haviam dizimado a liderança do grupo em 2024, voltaram à carga com pesados bombardeios que já deixaram mais de mil mortos no Líbano. Impotente, o governo local protestou, mas os soldados israelenses voltaram a operar no solo na zona tampão. No país todo, mais de 800 mil foram deslocados.

Katz agora afirma que a região será controlada militarmente, ainda que não dê um prazo exato. Acerca dos 200 mil moradores da região, boa parte dos quais deixou suas casas rumo ao norte, ele voltou a dizer que eles só serão autorizados a voltar quando "a segurança do norte de Israel esteja garantida".

Ele não falou nada sobre a Unifil, a desdentada missão da ONU que em tese deveria ser a principal força no sul, ao lado do Exército libanês.

Enquanto o Hezbollah tiver capacidades, por mais degradadas que estejam, isso parece improvável. Na atual guerra, o grupo tem sido responsável por barragens diárias crescentes: no dia 22, o mais recente da contabilidade da Universidade de Tel Aviv, foram 85, ante 8 vindas do Irã.

A diferença é que a teocracia é mais precisa e perigosa, lançando mísseis balísticos que têm causado muitos estragos. A grande maioria dos lançamentos vindos do Líbano é de drones e foguetes sem guiagem, usualmente abatidos.

Não se viu desta vez o grande deslocamento de 2023, na esteira do ataque terrorista do Hamas, quando 65 mil habitantes do norte de Israel deixaram suas casas na faixa fronteiriça. Locais expostos como Kiryat Shmona seguem sua rotina, sob fogo diário.

Tudo isso soa como um filme repetido, e é, mas desta vez alguns analistas creem que o Hezbollah sairá derrotado de vez do conflito. O problema maior está no risco da fragmentação ainda maior da política libanesa, onde os xiitas que integram o grupo são uma força importante e a organização também é um partido.

As sombras do passado não vêm apenas da ocupação, mas também da guerra civil entre as diversas facções que destruiu o país de 1975 a 1990, com forte impacto da invasão israelense, que chegou às portas de Beirute. Na capital libanesa, os ataques prosseguiram nesta terça, onde ao menos duas pessoas morreram.