BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - As Avós da Praça de Maio deixaram de ser apenas um movimento de mulheres em busca de seus netos, nascidos quando os pais foram mortos pela ditadura da Argentina ou estavam em cativeiro. Hoje, elas possuem uma estrutura particular, que combina militância, ciência e política pública.
Diante de um problema para o qual, durante os anos 1970, não havia método ?identificar crianças sequestradas sem a presença dos pais? elas foram buscar ajuda de cientistas nos Estados Unidos. Estes, comovidos com a causa, desenvolveram, inicialmente apenas para as Avós, uma técnica capaz de estabelecer vínculos biológicos a partir do DNA de outros tipos de parentes, como avós, tios e primos.
Dessa inovação nasceu o chamado índice de "abuelidad" e, mais tarde, o Banco Nacional de Dados Genéticos, uma instituição pioneira que permite identificar pessoas décadas depois a partir de material coletado e guardado com método.
Trata-se de um sistema que poderá continuar funcionando quando já não houver Avós vivas. Infelizmente, essa vem sendo uma realidade cada vez mais palpável: a maioria já morreu, ou está afastada por questões de saúde.
Hoje elas aparecem nos eventos, mas sua presença é praticamente simbólica. Quem administra o banco, os advogados e psicólogos da ONG são netos que decidiram ficar ali e, nas palavras de Manuel Gonçalves Granada, secretário-executivo da instituição, "de alguma forma, devolver a elas o favor que fizeram, procurando por mim por mais de duas décadas".
Essa engrenagem não opera de forma isolada. Ao longo dos anos, foram criadas estruturas complementares, como a Conadi (Comissão Nacional pelo Direito a Identidade), uma unidade especializada da Procuradoria-Geral da Argentina, e mecanismos judiciais específicos, todos impulsionados pela atuação das próprias Avós. De reivindicação moral, a causa virou política pública.
Granada nasceu em 27 de junho de 1976, em meio ao auge da repressão. Seu pai, Gastón Roberto José Gonçalves, havia sido sequestrado poucos meses antes, no próprio 24 de março, em Zárate, na província de Buenos Aires. Passou por centros de detenção como a Brigada de San Martín e a delegacia de Escobar. Em abril daquele ano, seu corpo foi encontrado à beira de uma estrada e enterrado como indigente. Só duas décadas depois, em 1996, foi identificado pela Equipe Argentina de Antropologia Forense.
Sua mãe, Ana María del Carmen Granada, grávida de cinco meses quando o companheiro foi sequestrado, entrou na clandestinidade. Meses depois do nascimento do filho, refugiou-se com ele em uma casa em San Nicolás. Em 19 de novembro de 1976, o local foi atacado por forças da ditadura em uma operação conhecida como "massacre da rua Juan B. Justo". Ana María e os demais moradores foram assassinados. Manuel, então com poucos meses de vida, sobreviveu porque a mãe o escondeu em um armário.
Levado ao hospital de San Nicolás com graves problemas respiratórios, permaneceu internado por cerca de três meses sob custódia policial. Em fevereiro de 1977, foi entregue para adoção a uma família vinculada ao juiz de menores, sem que fosse feita qualquer investigação sobre sua origem.
Granada cresceu sabendo que era adotado, mas interpretava isso como abandono. Não cogitava ser filho de desaparecidos. Em meados dos anos 1990, o caso começou a ser reconstituído. Em 1995, a Equipe Argentina de Antropologia Forense identificou os restos de sua mãe, localizados em uma vala comum no cemitério de San Nicolás, e chegou até ele. Dois anos depois, os exames genéticos confirmaram sua identidade. A revelação inverteu sua percepção de origem: aquilo que interpretava como rejeição era, na verdade, resultado de uma busca que se estendera por duas décadas.
O reencontro com a família, incluindo a avó paterna, Matilde, além de um irmão, sobrinhos e primos, foi apenas o início de um processo mais amplo. A restituição da identidade produziu também um deslocamento pessoal, levando-o a se perguntar qual poderia ser sua contribuição para a causa das Avós.
Ao longo do tempo, passou a atuar ativamente na instituição. Primeiro, dando visibilidade à própria história, visando estimular outros possíveis netos a se reconhecerem e procurarem ajuda. Depois, colaborando em campanhas de conscientização e participando de processos judiciais ligados aos assassinatos de seus pais.
Em 2011, foi o primeiro neto recuperado a ingressar na comissão diretiva das Avós. Hoje, como secretário-executivo, integra a geração responsável por garantir a continuidade do trabalho. A constatação que orienta essa transição é direta: as Avós são insubstituíveis, mas a causa não. Ainda falta localizar cerca de 300 netos e netas.
Enquanto as Mães da Praça de Maio mantiveram uma atuação baseada no ativismo, as Avós avançaram na construção de instrumentos técnicos que permitiram conferir materialidade à busca, convertendo memória em ferramenta científica de identificação.
Hoje, esse legado é colocado à prova em um contexto mais adverso. Sob o governo de Javier Milei, discursos negacionistas e críticas às políticas de memória ganharam espaço. Para Granada, trata-se de um momento sensível, em que conquistas acumuladas ao longo de décadas passam a ser questionadas.
A trajetória de Granada sintetiza esse movimento. Sua história individual se cruza com a de uma instituição que transformou dor em método, militância em política pública e memória em ferramenta de reparação. O desafio agora é garantir que esse sistema continue funcionando quando suas fundadoras já não estiverem mais presentes.