BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - O Partido Social-Democrata de Mette Frederiksen venceu de forma apertada a eleição parlamentar na Dinamarca, nesta terça-feira (24). Tão apertada que ainda não está claro se o desempenho será suficiente para manter no cargo a primeira-ministra, uma das figuras mais importantes do atual cenário político europeu.
Como 100% das urnas apuradas, a sigla de Frederiksen tinha 21,9% dos votos, o pior resultado do partido de raízes trabalhistas desde 1901. A vitória amarga deixa o futuro de Frederiksen na mão dos Moderados, legenda do ministro de Relações Exteriores, Lars Løkke Rasmussen, que alcançou 7,7% dos votos.
Um dos principais políticos do país, premiê por dois períodos, Rasmussen declarou na véspera do pleito que não almeja o cargo, mas que trabalhará pela melhor coalizão de governo.
Pelas projeções, o bloco que reúne os partidos de esquerda e centro-esquerda, sociais-democratas incluídos, alcançaram 84 das 179 cadeiras no Folketing, o Parlamento dinamarquês. Tampouco o bloco à direita, com 77 cadeiras, chegou perto da maioria (90).
Em qualquer situação, as 14 cadeiras previstas para os Moderados tornam Rasmussen peça fundamental em qualquer negociação de coalizão. "É ele quem ditará o ritmo agora. Ainda acho que Frederiksen continuará apoiando a primeira-ministra, mas sem dúvida ela estará enfraquecida no cargo", afirma à Folha Lykke Friis, diretora do think tank dinamarquês Europa.
"Não será um problema para ela compor com os Moderados, já fez isso em 2022", diz a cientista política. "Mas tudo vai depender dos resultados finais e das negociações."
Segundo Friis, o fato de Frederiksen ter chamado eleições após um pico de popularidade proporcionado pelas ameaças de Donald Trump sobre a Groenlândia não foi um movimento especulativo. "Ela teria que fazê-lo até outubro e sabe-se lá o que poderia acontecer nesse meio tempo."
Apesar de ser o principal assunto a atrair atenção internacional ao país europeu de 6 milhões de habitantes, a Groenlândia foi superada largamente por questões domésticas durante a campanha. O bem-estar animal na criação de suínos e a contaminação da água potável por fertilizantes deixaram as bravatas de Trump e a guerra da Ucrânia para trás.
Cenário bem diferente do visto em Nuuk. "Penso que é a eleição dinamarquesa mais importante da história da Groenlândia", declarou à agência AFP Jens-Frederik Nielsen, primeiro-ministro da ilha, território autônomo que pertence ao Reino da Dinamarca.
Dos 179 assentos do Parlamento em Copenhague, dois são decididos pelos groenlandeses e dois pelos habitantes das Ilhas Faroe. Para Nielsen, a situação do território "ainda é muito séria".
Em aceno aos eleitores de esquerda, frustrados com a última coalizão que montou, com Moderados e também o Partido Liberal, Frederiksen atrelou sua campanha à taxação de 0,5% do patrimônio privado acima de R$ 20 milhões para bancar reformas sociais, irritando parceiros de coalizão. Prometeu ainda estudar a flexibilização da idade de aposentadoria, 70 anos a partir de 2040, uma das mais altas entre os países da União Europeia.
Bradando promessas bem mais populistas, como impedir asilo de muçulmanos e zerar impostos sobre combustíveis, o Partido Popular, de ultradireita, alcançou 16 cadeiras, recuperando-se do tombo sofrido nas eleições de 2022. "Os dinamarqueses estão fartos", afirmou o líder da sigla, Morten Messerschmidt.
Com 12 legendas e uma cláusula de barreira de 2%, obter maioria não é tarefa fácil no sistema político dinamarquês. Desde a reforma política de 1973, apenas 2 dos 23 governos formados não foram conduzidos por coalizões minoritárias, algo que, ao contrário do que ocorre com frequência em outros países europeus, não prejudica a governabilidade.
Apesar do histórico, Friis não se mostra muito otimista. "Está cada vez mais difícil montar governos. A ver o que como Frederiksen e Rasmussen se sairão desta vez."
As negociações para a montagem do novo gabinete devem consumir semanas.