BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, afirmou nesta terça-feira (31), que não está em discussão neste momento a participação de Teerã em negociações no Paquistão para o fim do conflito. Ele confirmou que o país persa trocou mensagens com Washington via Islamabad e disse que isso deve continuar.

"Diferentemente das ilusões do presidente dos EUA, nenhuma autoridade iraniana conversou com autoridade americana. Algumas mensagens foram enviadas, e nós respondemos", afirmou Nekounam durante entrevista coletiva.

O diplomata defendeu ainda que a opinião pública no Irã é contrária ao início de discussões diretas com o governo de Donald Trump.

"A visão da opinião pública é que nós negociamos duas vezes com inimigos e em ambas eles bombardearam a mesa de negociação. Desta vez, com o assassinato do líder supremo [Ali Khamenei], a opinião pública está contra qualquer normalidade com o outro lado e querem que sejam punidos na mesma medida", disse.

Nekounam afirmou ainda que seu país não vê limites para a reação aos ataques dos EUA e Israel e que cada alvo atingido terá resposta.

"Sofremos um ato de agressão e, conforme todo o direito internacional, temos como posição a autodefesa legítima e isso não tem limite para nós. Para cada ponto, cada região que nós fomos agredidos e invadidos, nós vamos retaliar da mesma forma", afirmou Nekounam durante entrevista coletiva a jornalistas.

O embaixador disse ainda que o país está pronto para um conflito prolongado e que os EUA são o grande perdedor do conflito em termos geopolíticos após mais de um mês desde o início da guerra.

Com retórica caótica sobre a guerra, o presidente americano, Donald Trump, diz buscar negociação enquanto ameaça ataques à infraestrutura energética do país persa, inclusive a tomada da ilha de Kharg no golfo Pérsico, por onde passa quase a totalidade da exportação de petróleo iraniano.

Nekounam reforçou também a posição iraniana de que o estreito de Hormuz, via marítima responsável pelo trânsito de 20% do mercado de petróleo global, está sendo bloqueado apenas para navios com relação aos EUA e Israel ?indicando ainda as propostas de Teerã sobre o conflito que envolvem o estreito.

"Com esses atos de agressão, é preciso um novo formato de gestão para esse estreito, que permanece aberto para nações amigas", afirmou ele, defendendo que o estreito está "sob gestão estratégica" iraniana.

O assunto tem sido um dos pontos principais das conversas de mediadores do conflito. Egito, Turquia e Arábia Saudita se reuniram no Paquistão no domingo (29).

Uma pessoa do lado paquistanês, ouvida pela agência Reuters, afirmou que as propostas dos mediadores foram enviadas aos EUA antes do encontro e envolviam ideias como a formação de um consórcio para gerir os fluxos de combustíveis na via marítima e uma estrutura de taxas semelhantes ao que ocorre com o Canal de Suez.

Hormuz tem sido a pedra no sapato de Trump. Com o bloqueio inicial, a minagem dos cerca de 30 km do estreito e restrições a navios destinados aos EUA e Israel ou que Teerã considera ligados a eles, a economia global rapidamente passou a sentir os efeitos da disrupção. Preços de combustíveis e fertilizantes crescem em todo o mundo e afetam níveis de abastecimento e inflação.

Nekounam disse ainda que conversou com exportadores iranianos de ureia, importante composto utilizado no mercado de fertilizantes, e que alguns navios carregados com o material saíram do Irã para o Brasil, segundo esses fornecedores, disse o embaixador.

O problema para o Brasil é que parte importante da exportação global de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz ?35% da ureia, por exemplo? e não vem necessariamente do Irã, mas de outros países do golfo Pérsico, atualmente sob ataque iraniano em represália pela presença de bases militares americanas nessas nações árabes.