SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando a história se repete, ou parece se repetir, costuma ser por causa da geografia.
O estreito de Hormuz, por exemplo, ponto estratégico da guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, por onde se escoava um quinto do petróleo mundial antes do atual conflito no Oriente Médio, já esteve no centro dos interesses econômicos de outra potência militar global: Portugal, no século 16.
Depois de conseguir a façanha de chegar por via marítima à Ásia, os navegadores portugueses descobriram que havia um negócio tão bom ou melhor do que trazer pimenta e outros produtos das Índias de volta para a Europa. Rotas marítimas locais, ligando a extensa costa que vai da península Arábica até o Japão, também ofereciam oportunidades de comércio aos súditos de d. Manoel 1º.
"Os portugueses, apesar de terem ido para a Índia pensando sobretudo em controlar a rota euroasiática das especiarias, perceberam que também podiam participar em grandes negócios interasiáticos", explicou o historiador João Paulo Oliveira e Costa, especialista no processo de expansão portuguesa e professor da Universidade Nova de Lisboa.
O comércio local já funcionava muito bem sem os europeus, mas, como tinham canhões, os portugueses decidiram vender segurança. "Os portugueses introduzem uma novidade no oceano Índico, que é a batalha naval com tiro à distância", disse Costa. "Mesmo sendo poucos, vão conseguir anular as armadas dos muçulmanos, porque conseguem combater à distância e vão afundando navios inimigos."
Rapidamente os portugueses controlaram três pontos estratégicos: a cidade de Goa, na costa ocidental de onde hoje é a Índia; o estreito de Malaca, que é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico; e o estreito de Hormuz, passagem entre o golfo Pérsico e o Índico.
Quem quisesse passar de um lado ao outro e fazer comércio tinha que pagar tarifas alfandegárias aos portugueses. "O Estado da Índia português acaba sendo economicamente autossuficiente. O vice-reino gerava rendas suficientes para controlar um conjunto de portos que na fase mais extensa ia desde Moçambique até o Japão."
Boa parte dessas rendas vinha da cobrança de tarifas alfandegárias na ilha de Hormuz, onde já funcionava uma espécie de pedágio, cobrado antes da chegada dos portugueses por um monarca local. Pequenos reinos do golfo Pérsico vendiam sobretudo cavalos -a rigor, uma arma de guerra- para uso "nas disputas permanentes que os Estados indianos tinham uns contra os outros", disse João Paulo Costa.
"Goa era um porto de entrada na Índia dos cavalos de guerra", explicou o historiador. "Cavalos que vinham de Hormuz. Os cavalos estavam sempre a chegar. Era um negócio que se fazia a troco de ouro. E, portanto, controlar Goa e Hormuz significou para os portugueses controlar esse negócio -que era um grande negócio."
Por cerca de cem anos os portugueses se beneficiaram dessa e de outras rotas de comércio asiáticas. No século 17, os holandeses passaram a disputar com Portugal entrepostos na Ásia e colônias nas Américas e na África. O resultado do conflito foi a perda, pelos portugueses, de pontos estratégicos na Ásia, mas a manutenção do Brasil e de Angola.
Ainda no início desse conflito global entre portugueses e holandeses, a Coroa lusa perdeu a ilha de Hormuz e o acesso às tarifas alfandegárias cobradas ali. Os recursos iriam fazer falta. "O Estado da Índia começa a ter orçamentos deficitários quando perde Hormuz, em 1622", disse Costa. "Até esse momento, mesmo com a pressão dos holandeses e dos ingleses, os orçamentos pelo menos continuavam a ter superávit. Mas quando Hormuz cai, perde-se 20%, 30% da receita fiscal de todo o Estado da Índia, e as coisas ficam mais complicadas."
Hormuz, contudo, não foi perdida em batalha direta contra os holandeses. Embora europeus tenham participado dos combates no golfo Pérsico, foi na verdade uma potência local que impôs a derrota aos portugueses. Depois de séculos sob o controle de turcos e mongóis, o planalto iraniano voltou, justo no século 16, a ser o centro de um império independente, que impôs a vertente xiita do islamismo ao conjunto da população.
Foi esse Estado xiita, controlado pela dinastia Safávida, que venceu os europeus e retomou o controle do estreito de Hormuz.
