SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 4,5 milhões de pessoas deixaram suas casas no último mês para tentar escapar de ataques da guerra no Oriente Médio. Contando Líbano e Irã, são ao menos 3.235 mortos e 28.735 feridos. O conflito iniciado por Estados Unidos e Israel suscita uma crise humanitária que, em pouco mais de 30 dias, se agrava com a crise econômica causada por anos de sanções ocidentais.
De um lado, o regime iraniano bloqueia o estreito de Hormuz como retaliação aos embargos americanos e em tentativa de usar, na guerra, a força de que dispõe; de outro, Washington e Tel Aviv buscam derrubar a teocracia e acabar com seu programa nuclear -embora os objetivos dos dois países não estejam totalmente evidentes e sejam, por vezes, conflitantes.
"No fim das contas, a ideia é pressionar, com as sanções, a mudança de governo. Só que isso nunca aconteceu", diz a professora e pesquisadora de conflitos internacionais Isabela Agostinelli, que recapitula os meses que antecederam a incursão contra o Irã.
Antes mesmo do primeiro míssil ser disparado, a coalizão israelense-americana já pressionava o regime teocrático de Ali Khamenei em níveis crescentes desde o início do segundo mandato de Trump. Os pedidos do republicano para que a população civil do Irã derrubasse o regime antecederam a empreitada militar que, junto de Binyamin Netanyahu, o presidente lançaria no último 28 de fevereiro.
Os iranianos, no entanto, entendem que a solução para o país não é externa porque "sabem que essas sanções vêm de fora e acabam atingindo a população civil e fomentando ainda mais o poderio militar, econômico e financeiro das elites", diz Agostinelli, professora no curso de relações internacionais da Fecap.
Se antes da incursão militar as preocupações dos iranianos geraram protestos contra a crise econômica e os altos preços, agora deram lugar aos deslocamentos forçados que buscam, antes de tudo, segurança.
"Quando vemos prédios desabando por toda parte, pessoas perdendo suas casas, seus meios de subsistência e tudo o que possuem, então, para onde quer que se mudem, elas perdem coisas básicas de que precisamos em nossas vidas", diz Babar Baloch, porta-voz do Acnur (agência de refugiados da ONU), à Folha.
Após o início da guerra, conta Baloch, a equipe do órgão, já presente há anos nos países da região, teve de adaptar sua forma de atuar porque os próprios trabalhadores precisaram se deslocar. "Eles também têm famílias e precisam buscar segurança", conta. "Quando todos os outros vão embora por causa da insegurança, do conflito, do deslocamento, nós temos que nos apresentar para apoiar essas populações."
Países vizinhos a leste e oeste, já assolados por instabilidades próprias e conflitos anteriores, sentem impactos da guerra ao receber um retorno de refugiados. Já no Golfo, as nações próximas do Irã se veem sob consequências mais diretas.
Várias das monarquias árabes -entre elas Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Omã, Qatar e Kuwait- se tornaram alvo dos ataques iranianos pelo fato de abrigarem bases militares americanas em seus territórios.
O regime iraniano, segundo Agostinelli, aprendeu com a guerra dos 12 dias (em junho de 2025) "e está mostrando para as monarquias árabes que elas não vão receber a proteção que esperam dos Estados Unidos". Em paralelo, analisa, "esses países do Golfo começaram a perceber que, na verdade, a grande ameaça regional não é o Irã, e sim Israel, porque muitos desses ataques começam com as iniciativas israelenses".
A pressão sobre os vizinhos aliados dos EUA explica em parte o estrangulamento comercial de petróleo que o Irã tem realizado em Hormuz. Com intervenções em todos os lados do conflito, não é só a economia global que está sob risco.
"Esse conflito está gerando um efeito cascata que vai além do Oriente Médio e afeta adultos e crianças vulneráveis em outras partes do mundo", diz o porta-voz do Unicef, Ricardo Pires, à reportagem.
Para além do risco causado diretamente pelas centenas de drones e mísseis, a guerra causa complicações humanitárias que se alastram por países da África, Américas e Ásia. O Unicef, fundo da ONU para a infância, atua com centros logísticos de distribuição e armazenamento de insumos espalhados pelo mundo --o principal fica em Dubai, alvo frequente de mísseis iranianos.
O Unicef afirma que as demais instalações seguem tensionadas pelo desabastecimento que, em pouco mais de um mês de conflito, já pode resultar em até um semestre de atrasos em operações da agência pelo globo.
"Crianças muitas vezes não podem esperar suprimentos críticos de nutrição ou de saúde. Isso pode causar sua morte", alerta o porta-voz. "Está virando realmente um efeito borboleta caótico que, se continuar dessa maneira, vai ter um impacto muito, muito pesado para milhões de crianças ao redor do mundo."
Enquanto isso, no epicentro do conflito, a deterioração humanitária acelera. O número de mortos no Líbano chegou a 1.318, e no Irã, a 1.937. Mesmo que o deslocamento forçado não seja uma novidade no território iraniano, o cenário atual é ainda pior -o último pico havia sido em 2019, com 520 mil pessoas deslocadas, uma fração dos 3,2 milhões de deslocados somente nas últimas semanas.
Durante um pronunciamento à nação nesta quarta, Trump voltou a afirmar que os objetivos militares do país na guerra do Irã estão "quase completos", mas evitou esclarecê-los ou dar uma previsão para o fim do conflito.
O americano afirmou que a guerra continua até que todos os objetivos sejam "totalmente terminados". "Nós vamos levá-los de novo para a Idade da Pedra, aonde eles pertencem", disse, afirmando novamente que isso deve acontecer "rapidamente" e que o Irã está "completamente derrotado".
Ele ainda minimizou o impacto do fechamento do estreito de Hormuz para o mercado energético global. "Nós não precisamos do Oriente Médio, não precisamos do petróleo deles", disse.
Segundo Ricardo Pires, o porta-voz do Unicef, "as medidas de mitigação [adotadas com o bloqueio da rota] por enquanto estão funcionando, mas não é algo que vai continuar a longo prazo. Então, a gente precisa que a solução venha o mais rápido possível". Para o Acnur, afirma Baloch, a necessidade é a mesma: "A esperança é que a paz retorne para as pessoas afetadas. Por isso, pedimos diálogo para a paz, para que os civis tenham um alívio."
VEJA O NÚMERO DE MORTOS E FERIDOS DESTA GUERRA
_Dados dos governos locais divulgados até 2.abr_
- Irã - 1.937 mortos | 24.800 feridos
- Líbano - 1.318 mortos | 3.935 feridos
- Iraque - 108 mortos | dezenas de feridos
- Israel - 24 mortos | 6.239 feridos
- Forças Armadas dos EUA - 13 mortos | 200 feridos
- Emirados Árabes Unidos - 12 mortos | 190 feridos
- Kuwait - 7 mortos
- Síria - 4 mortos
- Território palestinos - 4 mortos
- Bahrein - 3 mortos | dezenas de feridos
- Omã - 3 mortos | 15 feridos
- Arábia Saudita - 2 mortos | 22 feridos
- Jordânia - 29 feridos
- Qatar - 16 feridos
