SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Burkina Fasso deve "esquecer" a democracia, disse o líder militar Ibrahim Traore em entrevista à televisão estatal.
Traore afirmou que o modelo democrático não serve para o país e pediu que o tema saia do centro do debate. "As pessoas precisam esquecer a questão da democracia", disse, em entrevista exibida na TV estatal, e repercutida pela Al Jazeera e pela BBC.
O militar, que tomou o poder em um golpe de Estado há três anos, sugeriu que Burkina Faso tem "sua própria abordagem alternativa". Sem dar detalhes, ele afirmou que a democracia "traria consequências negativas" e associou o sistema a interferência externa. "Temos que dizer a verdade: a democracia não é para nós", afirmou, justificando que
Traore citou a Líbia como exemplo e disse que tentativas de "impor" democracia terminam em violência. "Olhem para a Líbia, é um exemplo bem aqui ao nosso lado! Em todo lugar em que tentam estabelecer democracia no mundo, isso é feito com derramamento de sangue. Democracia é escravidão.", declarou.
O discurso ocorre meses depois de o governo militar dissolver partidos e restringir a atividade política no país. Em janeiro, a junta anunciou o fim de mais de cem partidos e a apreensão de seus bens, como parte do plano de "reconstruir o Estado".
Na entrevista, Traore disse que pretende substituir a política partidária por outro modelo, sem detalhar como funcionaria. "Temos nossa própria abordagem. Nem estamos tentando copiar mais ninguém. Estamos aqui para mudar completamente a forma como as coisas são feitas", afirmou.
Militar chegou ao poder em setembro de 2022, após um golpe, e havia prometido eleições em 2024, mas recuou. A junta disse que a votação só ocorrerá quando todo o território estiver seguro para votar.
PRESSÃO INTERNA E GUERRA CONTRA GRUPOS ARMADOS
Críticos do governo militar relatam aumento da repressão a opositores, jornalistas e integrantes do sistema de Justiça. Analistas e entidades apontam que pessoas críticas à junta foram forçadas a se alistar e enviadas para a linha de frente nos últimos meses, segundo Al Jazeera e BBC.
Burkina Fasso enfrenta uma escalada de violência ligada a grupos armados associados à al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Mesmo com a promessa de combater esses grupos, o país segue sob ataques e tem centenas de milhares de deslocados internos.
Relatórios e levantamentos citados pelas duas publicações indicam alta no número de mortos desde a chegada de Traore ao poder. Análise do Africa Center for Strategic Studies, com base em dados até maio do ano passado, aponta 17.775 mortes em três anos, com maioria de civis, muitos atribuídos a forças do governo e milícias aliadas.
ALIANÇA COM JUNTAS VIZINHAS E AFASTAMENTO DO OCIDENTE
Burkina Fasso se aproximou de Mali e Níger, países também governados por militares, e os três deixaram a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). Os governos formaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES) após pressão regional para a realização de eleições.
O governo de Traore tem reforçado um discurso antiocidental e mudou parcerias de segurança na região. Burkina Faso e os vizinhos expulsaram a França e passaram a buscar apoio de combatentes paramilitares russos, mas a violência continuou, segundo Al Jazeera e BBC.
