SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Cidade Antiga de Jerusalém amanheceu com ruas vazias de fiéis nesta Sexta-Feira Santa em meio ao forte esquema de segurança e às restrições impostas por causa da guerra contra o Irã. O cenário reflete o impacto direto do conflito no Oriente Médio sobre as celebrações religiosas e o clima de tensão na Semana Santa.
O cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, chegou a ter sua entrada à Igreja do Santo Sepulcro negada pelas autoridades israelenses. A sua passagem foi posteriormente liberada pelo premiê Binyamin Netanyahu, que publicou um post nas redes sociais para anunciar que havia permitido a passagem de autoridades religiosas, citando Pizzaballa.
A igreja do Santo Sepulcro fica na Cidade Antiga de Jerusalém, bairro circunscrito às antigas muralhas da cidade, que é dividido em quatro seções sob bases religiosas e contém locais sagrados do cristianismo, do islã e do judaísmo. A igreja marca os lugares bíblicos onde teria ocorrido a crucificação de Jesus e onde ficaria o túmulo do qual ressuscitou, segundo a tradição cristã.
O papa Leão 14 se prepara, portanto, para celebrar a primeira Páscoa de seu pontificado neste cenário de guerra, um ano após a morte de seu antecessor, Francisco. O ex-líder da Igreja morreu um dia após o domingo de Páscoa em 2025, depois de um último encontro com fiéis na praça de São Pedro.
Neste ano, o discurso que antecede a tradicional bênção "Urbi et Orbi" ("à cidade [de Roma] e ao mundo", em latim) deve ganhar tom político e será observado à luz da guerra e de suas consequências humanas e econômicas.
Até agora, o papa Leão 14 tem adotado uma postura diplomática moderada, evitando condenar diretamente o papel dos Estados Unidos, seu país natal, no conflito. O governo de Donald Trump iniciou a guerra em 28 de fevereiro ao atacar Irã em conjunto com Israel.
Nesta sexta, o pontífica conversou conversou por telefone com o presidente de Israel, Isaac Herzog, e pediu que ele "reabra todos os caminhos de diálogo" para encerrar os ataques. A ligação foi confirmada pelo Vaticano.
No último domingo, durante a missa de Ramos, ele lamentou que "os cristãos sofram as consequências de um conflito atroz" e não consigam "viver plenamente os ritos dos dias santos".
Da Cidade Antiga de Jerusalém ao sul do Líbano, onde comunidades cristãs estão na linha de frente dos bombardeios israelenses, a guerra ofusca as celebrações da Páscoa e acelera a diminuição da presença cristã na região.
"Muitos têm medo de sair e não conseguir voltar para casa, diante da intenção declarada de Israel de ocupar a região", afirmou à AFP o monsenhor Hugues de Woillemont, da organização católica L?Oeuvre d?Orient.
Em Roma, o chamado tríduo pascal, que envolve a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, começa na quinta-feira, com a missa crismal na Basílica de São Pedro e outra celebração em São João de Latrão.
Leão 14 retomará a tradição do lava-pés com 12 padres romanos, gesto que simboliza o ato de Jesus com seus apóstolos ?em contraste com Francisco, que realizava a cerimônia com detentos, migrantes e pessoas em situação de rua.
Na Sexta-Feira Santa, o papa presidirá a missa da Paixão e participará da Via-Sacra no Coliseu, uma das cerimônias mais tradicionais, que reúne milhares de pessoas. Ele deverá carregar a cruz ao longo das 14 estações que representam o caminho de Jesus até o sepultamento ?gesto que foi realizado por João Paulo 2º e, por um período menor, por Bento 16, mas não por Francisco, principalmente por questões de saúde.
No Sábado Santo, será celebrada a Vigília Pascal na Basílica de São Pedro, com a bênção do círio pascal. Leão 14 inicia esse ciclo com as atenções também voltadas para sua primeira grande viagem internacional, prevista para 13 a 23 de abril, quando visitará Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
