SÃO PAULO, SP (UOI/ FOLHAPRESS) - Jornalistas de ao menos seis veículos de comunicação foram banidos de entrar na Casa Rosada nesta segunda-feira (6), dias após a divulgação de um escândalo envolvendo uma suposta campanha de difamação contra o governo de Milei.

Repórteres barrados descobriram sobre "bloqueio" ao tentar acompanhar uma coletiva de imprensa ontem no prédio do governo. Um policial federal e um guarda da Casa Militar conferiam os nomes dos repórteres em uma espécie de "lista de chamada" na entrada do prédio, segundo os jornais argentinos.

O banimento acontece dias após um consórcio de jornais estrangeiros divulgar que a Rússia investiu milhões para divulgar notícias falsas sobre o governo Milei na Argentina. As reportagens foram divulgadas em 2024, durante campanha para eleições parlamentares no país, e espalhavam desinformações e críticas à economia, segundo a reportagem.

Em nota à imprensa argentina, o governo Milei confirmou que barrou os veículos de comunicação e chamou o caso de "medida preventiva". Nenhuma lista com os nomes dos jornais proibidos pelo governo foi divulgada, mas o governo falou que "todos os envolvidos" no escândalo foram banidos. O governo não deu um prazo para que as credenciais sejam devolvidas.

O jornal La Nación divulgou o nome de cinco dos veículos barrados da Casa Rosada. São eles: El Destape, FM La Patriada, Tiempo Argentino, A24 e Ámbito Financier.

Governo Milei informou, ainda, que considera a possibilidade de convocar os responsáveis pelos jornais para dar esclarecimentos. "Pode haver casos de traição. Houve interferência de um país estrangeiro na Argentina", afirmou, em entrevista ao jornal La Nación, uma fonte ligada à Casa Rosada.

Câmara dos Deputados, presidida por Martín Menem, um aliado do presidente, também barrou os jornalistas. De acordo com o Círculo de Jornalistas Parlamentares, credenciais de ao menos quatro veículos foram suspensas. O Senado, por sua vez, declarou que não concorda com a medida de Milei.

Os jornais envolvidos no escândalo negaram que tenham recebido dinheiro russo para veicular as notícias. Eles informaram, ainda, que a maioria das reportagens contra o governo veio de agências internacionais. Veja mais sobre o assunto abaixo.

BOICOTE RUSSO CONTRA MILEI

Uma rede associada aos serviços de inteligência da Rússia impulsionou uma campanha contra o governo Milei em 2024. As informações, divulgadas na quinta-feira (2), são baseadas em documentos vazados obtidos por um consórcio internacional de veículos.

A rede de espionagem russa que teria feito o boicote é conhecida como "A Companhia". Segundo as publicações, ela instalou um sistema de distribuição de conteúdos em meios digitais e redes sociais da Argentina para amplificar desinformação e críticas sobre a situação econômica. Os conteúdos incluíam exageros e notícias falsas, entre junho e outubro de 2024, antes das eleições parlamentares de meio de mandato.

A investigação detectou ao menos 250 notícias, análises e artigos de opinião em mais de 20 veículos digitais. Segundo os documentos, as publicações foram orçadas em US$ 283.000 (R$ 1,5 milhão, na cotação da época).

Milei falou que os meios de comunicação envolvidos no caso são "apenas a ponta do iceberg de algo muito maior". Ele usou o X para se manifestar sobre o assunto.

"A espionagem que veio à tona é de uma gravidade institucional poucas vezes vista na história. Vamos levar isso até as últimas consequências para identificar todos os atores diretos e indiretos que participaram desta rede de espionagem ilegal", disse Milei.

Os 15 meios de comunicação envolvidos que foram consultados pelo consórcio negaram qualquer ligação com dinheiro da Rússia. Eles explicaram que os artigos foram oferecidos por agências de notícias, consultorias ou intermediários, embora duas fontes tenham admitido que receberam pagamentos para publicar alguns deles, provenientes de empresários que diziam estar preocupados com as políticas de Milei.

Muitos artigos não tinham autor e, quando apareciam assinaturas, tratavam-se de nomes inventados. Em alguns casos, as fotos das assinaturas eram criadas por meio de um software.

Os documentos também revelam uma tentativa de provocar uma crise diplomática entre Argentina e Chile. A origem da "crise" em questão seria uma notícia falsa que atribuía a Milei o envio de um "grupo de sabotagem" para atacar o gasoduto transandino.

A informação resulta de 76 documentos obtidos pelo veículo africano The Continent. Os documentos foram verificados por um consórcio jornalístico que inclui o Dossier Center e o iStories (Rússia), All Eyes on Wagner e Forbidden Stories (França), dois jornalistas de língua russa e o openDemocracy (Grã-Bretanha).

A secretaria de Inteligência local afirmou tratar-se de um caso que "já havia sido investigado" e encaminhado à Justiça em 2025.. O Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea) já havia publicado em janeiro uma investigação sobre os mecanismos da desinformação russa na Argentina.