FOLHAPRESS - O pesquisador Siddharth Kara investiga há 21 anos o trabalho escravo e infantil ao redor do mundo. Segundo ele, entre várias histórias publicadas, nenhuma o aterrorizou tanto quanto a de adultos e crianças que arriscam suas vidas para extrair cobalto na República Democrática do Congo em troca de mísero US$ 1 dólar por dia.
O pavor, conta à reportagem, não é apenas pelas condições predatórias a quais esses garimpeiros são submetidos, mas principalmente pelo fato de bilhões de pessoas dependerem desses mineradores para seguir com seus padrões de vida. O cobalto está em quase todos os tipos de bateria, como as de celulares, notebooks e veículos elétricos, e se tornou indispensável para o progresso tecnológico.
Hoje, cerca de 70% do mineral extraído no mundo vem da RDC. A maior parte desse montante é produzida por grandes mineradoras, sobretudo chinesas, mas ao menos um terço é extraído pelos chamados mineradores artesanais ?garimpeiros, na linguagem brasileira.
Na prática, esse minério extraído de forma ilegal, e sob muito sangue derramado, mistura-se à cadeia legal, a ponto de tornar impossível a distinção entre as origens do cobalto.
No livro "Cobalto de Sangue", lançado em março pela editora Rocco, Siddharth explora a maneira como essa mistura é feita por grandes mineradoras, algumas inclusive com atuação no Brasil. O autor viajou ao país por três anos (2018, 2019 e 2021) e acompanhou a vida diária desses garimpeiros, situados no sul da RDC, próximo à Zâmbia.
A obra detalha casos de homens, mulheres grávidas, crianças e adolescentes que trabalham na mineração, assim como episódios de mortes ou mutilações causadas por desmoronamentos de túneis.
Há relatos como o de crianças obrigadas a ficar em túneis de um metro de diâmetro por 12 horas seguidas em busca de rochas com cobalto. Mulheres carregando nas costas bebês frutos de estupro cavam a terra à procura do elemento, que mais tarde é vendido a atrevessadores até chegar a grandes mineradoras da China e da Suíça. Estas, por sua vez, comercializam o produto refinado com fabricantes de baterias.
Além de detalhar os sofrimentos desses garimpeiros, "Cobalto de Sangue" explica com teor de reportagem jornalística as cadeias de poder nas regiões extrativistas da RDC. São muito claras, por exemplo, as divisões de funções na cadeia de exploração entre garimpeiros, negociadores, militares, mineradoras e políticos.
Além disso, relações políticas e econômicas entre China e RDC são esmiuçadas na obra, tanto por meio de contratos assinados entre estatais chinesas e o governo congolês, quanto pela rotina de chineses que migraram para o país africano em busca de lucros. A China é hoje responsável por 80% da capacidade de refino do cobalto, o que a coloca na linha de frente dessa indústria.
Durante a leitura, é quase impossível não se sentir em contradição. Afinal, as mesmas mãos que seguram o sufocante livro de Siddharth são também as que seguram um celular feito com o cobalto da RDC. É difícil também não se comparar ao europeu do século 18, que frequentava igrejas feitas com ouro extraído por escravizados no Brasil e adoçava seus chás com o açúcar colhido por esses mesmos escravizados.
À reportagem, Siddharth Kara diz que o que separa a sociedade atual da sociedade europeia da era colonial é a consciência. Para ele, é difícil dizer que a grande maioria de portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e italianos sabiam o que se passava no outro lado do oceano Atlântico, mas hoje há vários relatos do que se passa na RDC, inclusive em reportagens, documentários, fotos e livros.
"O que nos faz ser mais ou menos maldosos do que nossos predecessores é acreditar ou não nas empresas que vendem esses aparelhos", diz. "Se escolhermos o caminho mais fácil e resolvemos acreditar na equipe de marketing das empresas de tecnologia, porque precisamos atualizar o celular com a consciência limpa, então acho que cada um de nós tem que conviver com essa decisão."
Segundo ele, o momento é crucial para o seguimento dessa indústria. Por estar presente em algumas baterias de carros elétricos, principal alternativa aos veículos movidos a combustíveis fósseis, o setor de cobalto espera um crescimento exponencial na demanda pelo mineral nas próximas décadas, o que pode aumentar ainda mais o número de garimpeiros na RDC e os desgastes ambientais causados por essa extração predatória.
"Estamos na encruzilhada agora. Vamos seguir o exemplo corajoso de nossos predecessores e dizer não a essas condições ao descobrir o horror ou vamos dizer que está tudo bem, assim como os barões do açúcar no passado?", questiona o autor. "Claro que não podemos parar de usar esses equipamentos, porque eles foram tornados indispensáveis, mas não precisamos trocá-los a cada um ou dois anos."
De todas as passagens devastadoras do livro, uma específica chama a atenção. Após um dia de cenas desesperadoras de maus-tratos, tragédias e mortes, um dos tradutores de Siddharth diz a ele: "Por favor, diga às pessoas no seu país que no Congo todo dia morre uma criança para que elas possam conectar seus telefones."
COBALTO DE SANGUE: COMO AS VIDAS NO CONGO MOVEM O MUNDO CONECTADO
- Avaliação Ótimo
- Preço R$ 89,90 (livro) e R$ 44,90 (Kindle)
- Autoria Siddharth Kara
- Editora Rocco
