SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro dia do cessar-fogo na guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã foi marcado por ataques, ameaças de suspensão da trégua de duas semanas e confusão acerca da volta do trânsito de petroleiros e outros navios pelo estreito de Hormuz.
Já no começo desta quarta-feira (8), o Estado judeu lançou o maior ataque contra o libanês Hezbollah desde o início do confronto, há cinco semanas. O premiê Binyamin Netanyahu disse, com apoio dos EUA, que o grupo apoiado por Teerã não está incluído na trégua anunciada na véspera por Donald Trump.
Com isso, a agência iraniana Fars anunciou que petroleiros que haviam começado a transitar pela via por onde passavam 20% do óleo e gás do mundo foram parados, algo que virou "fechamento" segundo a também estatal Press TV. Depois, a mídia estatal disse que o tráfego será "orientado pela Guarda Revolucionária" para evitar trechos minados do estreito, sugerindo alguma reabertura.
Já a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, apontou um aumento no tráfego ?que, segundo monitores, era mínimo de todo modo. "Os relatos públicos são falsos", disse, afirmando que a realidade era outra.
A confusão não demoveu Leavitt de anunciar que o vice-presidente J. D. Vance vai liderar a comitiva americana numa primeira negociação no sábado (11) em Islamabad, capital do Paquistão, país que tem mediado o conflito. O Irã não comentou.
De seu lado, a teocracia também se manteve na ofensiva. Além de dizer que deixaria a trégua e que iria retaliar caso Israel mantivesse os ataques ao Hezbollah, o regime islâmico atacou vizinhos árabes no golfo Pérsico após o cessar-fogo fechado horas antes de o prazo dado por Trump para a reabertura de Hormuz expirar na terça (7).
Houve lançamentos contra o Kuwait, considerados pelo governo como violentos, o Qatar, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, que registraram 17 mísseis e 35 drones contra seu território ?o país foi o mais atingido pela retaliação iraniana no conflito, recebendo 37% dos 6.562 projéteis e aviões-robôs lançados por Teerã contra o golfo e Israel.
Na Arábia Saudita, o jornal britânico Financial Times disse que os iranianos atingiram uma estação de bombeamento do oleoduto usado para driblar o bloqueio de Hormuz, enviando petróleo para exportação pelo mar Vermelho. Riad apenas disse que derrubou nove drones.
A justificativa dada pelo presidente Masoud Pezeshkian foi a explosão em uma refinaria iraniana na ilha de Lavan, que não teve autoria atribuída.
Forças do país também disseram ter abatido um drone israelense. No começo da noite, defesas aéreas foram acionadas em Teerã e outras cidades, e explosões foram relatadas em Isfahan, sem contudo haver confirmação do que ocorreu.
Tudo isso mostra a precariedade do arranjo anunciado por Trump poucas horas após dizer que "uma civilização inteira irá morrer nesta noite". O próprio Vance disse, em Budapeste, que é uma "trégua frágil" que depende "da boa vontade do Irã".
"Vamos ser claros, o cessar-fogo é uma pausa, e as forças permanecem de prontidão", disse o chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general da Força Aérea Dan Caine.
Apesar de não chegar a dizer o fatídico "missão cumprida" que assombrou George W. Bush após a invasão do Iraque em 2003, Caine e secretário Pete Hegseth (Defesa) pintaram um quadro de supremacia militar. O general disse que boa parte da capacidade de lançamento de mísseis iraniana foi atingida, algo impossível de saber agora, e que 90% da sua indústria militar foi destruída.
Em Teerã, a Guarda, principal ente político e militar do país hoje, emitiu um comunicado segundo o qual "não confia nos americanos e irá negociar com o dedo no gatilho". Netanyahu, ao falar que estava pronto para voltar aos combates com o Irã, usou o mesmo termo.
Na mesma linha foi o embaixador iraniano junto à ONU em Genebra, Ali Bahreni. "Nós não temos nenhuma confiança no outro lado. Nossas forças militares mantêm sua prontidão. Enquanto isso, vamos para as negociações para ver o quão sério o outro lado é", disse à Reuters.
As negociações em si, que devem ocorrer no mediador Paquistão, apresentam uma série de entraves, a começar pela disputa narrativa em curso.
Trump havia dito que o plano de dez pontos apresentado na segunda (6) pelo Irã seria a base para as conversas, mas o documento traz itens inaceitáveis até aqui aos EUA, como a manutenção da capacidade de enriquecimento de urânio para o programa nuclear dos aiatolás.
Depois, autoridades da Casa Branca afirmaram que os termos veiculados pelo Irã não correspondiam ao combinado, a começar pela questão do Hezbollah e os itens nucleares. A chancelaria em Teerã reafirmou sua versão.
EUA e Israel são peremptórios acerca de acabar com as chances de o Irã ter a bomba atômica há anos, e Trump insistiu em uma postagem nesta quarta no veto ao enriquecimento e na entrega do urânio já enriquecido em mãos de Teerã.
Em relação à mudança de regime em Teerã, que não ocorreu apesar de suas lideranças terem sido dizimadas, Trump manteve seu discurso pronto, dizendo que ela aconteceu na prática.
Hoje o Irã está mais para um governo militar que teocrático puro, mas o forte componente ideológico da Guarda, seu centro nervoso, garante que está longe de ser uma amigável Venezuela pós-captura de Nicolás Maduro.
