BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Em uma significativa mudança de atitude, a União Europeia decidiu pedir explicações à Hungria sobre o vazamento de informações do bloco para a Rússia. "Isso é extremamente preocupante, e cabe ao governo em questão prestar esclarecimentos com urgência", declarou uma porta-voz da Comissão Europeia, nesta quinta-feira (9).
A Hungria promove eleição parlamentar no domingo (12) que, segundo pesquisas de opinião, tem potencial para tirar Viktor Orbán do poder após 16 anos. Até aqui, Bruxelas vinha economizando nos comentários, para não alimentar a retórica da campanha eleitoral do primeiro-ministro, que procura transformar a UE e a Ucrânia em inimigos públicos.
Segundo a narrativa, Bruxelas e Kiev conspiram contra a Hungria, que não quer se envolver na guerra do país vizinho e depende do gás russo.
"As supostas revelações [...] destacam a possibilidade alarmante de o governo de um Estado-Membro estar coordenado com a Rússia, atuando ativamente contra a segurança e os interesses da UE e de todos os seus cidadãos", afirmou a porta-voz.
Os vazamentos são notícia desde o mês passado, quando o jornal americano The Washington Post mostrou que Péter Szijjártó, ministro de Relações Exteriores da Hungria, há anos abastece seu par russo, Sergei Lavrov, com informações retiradas de reuniões do Conselho Europeu.
De acordo com integrante de um serviço de inteligência, não identificado no relato, Szijjártó era tão frequente no contato que ligava para Lavrov até mesmo durante intervalos dos encontros, que reúnem representantes dos 27 países-membros do bloco.
Nesta semana, a Bloomberg trouxe a transcrição de um telefonema entre o próprio Orban e Vladimir Putin no qual o premiê húngaro se coloca "à disposição" do presidente russo. A intimidade entre os dois países também aparece em gravações divulgadas por um consórcio de sites investigativos.
Em uma das conversas, Szijjártó se compromete a enviar um documento interno da UE para Lavrov. O governo húngaro não comentou o diálogo, mas Szijjártó, na semana passada, classificou de "escândalo" os vazamentos há poucos dias da eleição.
Não está certo se a nova atitude europeia é fruto do conjunto de denúncias ou se a Comissão responde tardiamente à alegação de J.D. Vance de que "burocratas de Bruxelas" estão interferindo no pleito húngaro para se livrar de Orbán, o líder do bloco mais pró-Rússia. Na terça-feira (7), o vice-presidente americano, em visita oficial a Budapeste, fez uma declaração de amor ao primeiro-ministro e participou de um comício.
No dia seguinte, foi a vez de o Kremlin corroborar a tese de interferência externa, afirmando que "algumas forças" da UE trabalham para impedir a permanência de Orbán no cargo. Denúncias anteriores indicam que Moscou participa ativamente da campanha do premiê, a exemplo que fez no ano passado na Moldova e na Geórgia, em busca da manutenção de sua esfera de poder no leste europeu.
Segundo os últimos levantamentos, o opositor Péter Magyar, um ex-aliado de Orbán, lidera as intenções de voto com uma vantagem, a depender do instituto de pesquisa, que varia de 7 a 9 pontos percentuais. Segundo especialistas, o Tisza, partido de Magyar, precisa alcançar a maioria do Parlamento com uma folga de 3 a 6 pontos percentuais em relação ao Fidesz, de Orbán, devido ao intrincado sistema eleitoral do país.
Entre as diversas mudanças institucionais que promoveu na Hungria, tornando o governo na prática uma autocracia, o Fidesz também patrocinou uma reforma eleitoral que dificulta a alternância de poder.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que aparece caracterizada como manipuladora de fantoches em cartazes de campanha de Orbán, deve levar o assunto para o próximo encontro de líderes da UE.
