BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os governos de Líbano e Israel concordaram em se reunir, na próxima terça-feira (14), para negociações sobre o fim do conflito entre Tel Aviv e o grupo extremista Hezbollah, apoiado pelo Irã, de acordo com o governo libanês. Israel, no entanto, recusa tratar de cessar-fogo com a facção.

Os dois países fizeram nesta sexta-feira (10) o primeiro contato diplomático desde o início da guerra, quando o Hezbollah se juntou ao Irã, seu patrono, e atacou Israel. O Estado judeu, em seguida, passou a bombardear o Líbano e voltou a ocupar o sul do vizinho ao norte.

A ligação ocorreu entre os embaixadores de Líbano e Israel em Washington, com a participação do embaixador dos Estados Unidos no Líbano. Em comunicado, o governo libanês afirmou que a negociação na terça ocorrerá no Departamento de Estado, na capital americana, com mediação dos EUA.

Israel, no entanto, pouco depois, diminuiu as expectativas. Segundo o embaixador israelense nos EUA, Tel Aviv rejeita debater um cessar-fogo com o Hezbollah e apenas concorda em tratar de negociações de paz com o Líbano.

A abertura para conversas ocorre em meio a pressão do governo de Donald Trump sobre o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. Israel aumentou a intensidade de ataques contra o Líbano pouco após o anúncio, na quarta-feira (8), de um cessar-fogo dos EUA contra o Irã, que por sua vez recusa avançar com as negociações enquanto o conflito não cessar também no Líbano.

Pouco depois do anúncio da trégua, Tel Aviv realizou seu ataque mais devastador contra o Líbano desde o início da guerra. Segundo o governo em Beirute, os bombardeios israelenses mataram 357 pessoas e feriram mais de mil, devastando bairros da capital ?Israel diz ter matado 180 combatentes do Hezbollah.

Nesta quinta-feira (9), Netanyahu já havia dito que instruiu seu gabinete a começar negociações diretas com o vizinho. No mesmo dia, o regime iraniano colocou em dúvida as conversas entre Teerã e Washington que ocorrem neste sábado no Paquistão enquanto o conflito no Líbano continuar.

O Estado judeu nega estar em guerra com a população libanesa e afirma que foi o Hezbollah quem arrastou o Líbano para o conflito ?bombardeios de Israel, no entanto, têm atingido áreas de alta densidade populacional em todo o país árabe, em particular no sul, a leste no vale do Beqaa, e em Beirute, áreas de maioria muçulmana xiita e centros de atuação do Hezbollah. Os mortos no Líbano já passam de 1.900. Há ainda mais de 6.300 feridos e um milhão de pessoas forçadas ao deslocamento.

Ao abrir espaço para negociar com o Líbano, mas se recusar a falar de um cessar-fogo com o Hezbollah, Israel pressiona o vizinho ao norte a tomar decisões para enfraquecer a facção xiita apoiada pelo Irã.

O governo libanês, porém, tem pouca margem de manobra. Se por um lado enfrenta um vizinho que é aliado da maior potência militar global e não limita ações para buscar o fim da facção xiita, por outro também precisa lidar o fato de que o Hezbollah é militarmente superior ao próprio Exército libanês ?além de ser importante força política e social em um país historicamente dividido em linhas sectárias e religiosas. Posições muito duras contra o grupo podem reacender as chamas da guerra civil que devastou o país de 1975 a 1990.

Já o Irã, fortalecido estrategicamente pelo controle do estreito de Hormuz no golfo Pérsico, voltou a dizer nesta sexta que poderia cancelar as conversas com os EUA caso o conflito no Líbano não parasse.

Trump afirmou na rede Truth Social que "os iranianos não parecem entender que eles não têm cartas além da extorsão no curto prazo do mundo pelo uso de rotas marítimas internacionais". "A única razão para eles estarem vivos hoje é para negociar!"

A reunião está sendo preparada para ocorrer no hotel Serena de Islamabad, a capital do Paquistão. Um forte esquema de segurança praticamente fechou a cidade, com bloqueios até nas famosas trilhas em seus arredores.

A delegação do Irã chegou a Islamabad com o chanceler Abbas Araghchi e o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf ?o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirmou que tanto iranianos quanto americanos estarão presentes para negociar.