SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um arranjo para fazer avançar as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã, a teocracia e o presidente Donald Trump disseram nesta sexta-feira (17) que o trânsito de embarcações pelo estreito de Hormuz está liberado.
O anúncio foi feito inicialmente no X pelo chanceler Abbas Araghchi, antes da provável nova rodada de negociações entre os rivais no Paquistão. Só que a postagem inclui um detalhe não trivial: o ministro afirma que o tráfego é livre pelas rotas estabelecidas pelo Irã, algo que os Estados Unidos não aceitam.
Trump, ávido para deixar o terreno pantanoso em que se colocou com a guerra, imediatamente postou na rede Truth Social uma comemoração e agradeceu o Irã. Ele disse, contudo, que o bloqueio naval americano continuará valendo para navios com petróleo do país persa enquanto um acordo não estiver fechado.
Logo depois, completou dizendo que o Irã se comprometeu a não mais fechar Hormuz e que "a situação acabou". Segundo Trump, as minas colocadas pela teocracia no estreito "foram removidas ou estão sendo removidas" de forma conjunta pelos dois países, algo que Teerã não comentou.
O mercado de petróleo se animou: os preços do barril referencial Brent caíram 10%, para em torno de US$ 90, o menor valor em um mês.
O bom-humor veio também com outra frente de tensão. Comentando o cessar-fogo iniciado na quinta-feira (16) entre Israel e o Líbano, que na prática é entre o Estado judeu e o grupo pró-Irã Hezbollah, o presidente americano disse que Tel Aviv "não vai mais bombardear" o vizinho.
"Eles estão PROIBIDOS de fazê-lo pelos EUA. Já chega!!! Obrigado", escreveu com as usuais maiúsculas e com um tom que não deverá agradar seu único aliado na guerra lançada no fim de fevereiro contra Teerã.
A Europa, que foi acusada de covardia por não se envolver no conflito ao lado dos EUA por Trump, decidiu tomar uma iniciativa nesta sexta, ao anunciar em uma conferência virtual comandada por França e Reino Unido um plano para a criação de uma missão naval de patrulha em Hormuz.
Novamente, o diabo está nos detalhes: a proposta só será implementada quando houver um acordo de paz na região. Segundo o premiê britânico, Keir Starmer, "mais de uma dúzia" dos 42 países presentes ao encontro aceitaram participar.
Trump deu de ombros, afirmando que a aliança militar Otan o procurou oferecendo ajuda, mas deve "ficar longe" do golfo Pérsico. Ele já havia criticado o clube e considerado retirar os EUA dele, 77 anos após Washington o fundar para conter Moscou na Europa.
PETROLEIROS DO IRÃ FURAM BLOQUEIO
Ainda nesta sexta, a consultoria Kpler, referência no monitoramento de tráfego marítimo, disse à agência France Presse que três petroleiros iranianos conseguiram furar o bloqueio naval, levando 5 milhões de barris de óleo para fora do golfo Pérsico na quarta-feira (15).
Até a quinta (16), a Marinha dos EUA dizia que nenhum navio sob as restrições do bloqueio havia passado por suas forças no golfo de Omã, e que 13 haviam dado meia-volta.
O embargo começou na segunda (13), após ordem do presidente Donald Trump para pressionar a posição do Irã nas travadas negociações de paz entre os dois países ?EUA e Israel travaram uma guerra de cinco semanas com a teocracia que desde o dia 7 está em cessar-fogo, que expira na próxima terça (21).
Pela medida, quaisquer embarcações indo ou vindo de portos iranianos não poderiam deixar o golfo. Os navios que a Kpler conseguiu localizar deixando a área são petroleiros de grande capacidade e que já estavam sob embargo dos EUA.
Não se sabe o destino do Deep Sea, do Sonia 1 e do Diona, embora provavelmente eles se dirijam à China, que em 2025 teve no Irã o seu terceiro maior fornecedor de petróleo. Os navios estão com seus sistemas de posicionamento por satélite desligados, o que torna sua localização difícil.
A Kpler não disse como os identificou, mas provavelmente contou com alguma triangulação ou informação no mar, por rádio por exemplo. A empresa opera o site MarineTraffic, que mostra mapas com todos os navios no mundo, e lá a última posição dos três navios está desatualizada.
Segundo a empresa, seis navios transitaram por Hormuz na quinta, todos com autorização americana. Nesta sexta, há ao menos três deixando a área, inclusive um petroleiro do Paquistão, país que está mediando os esforços de paz entre EUA e Irã.
A questão do trânsito por Hormuz é uma das mais sensíveis do conflito. O Irã usou o controle militar que tem sobre a via, por onde passava antes da guerra um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, para pressionar economicamente Trump.
Ao restringir o tráfego a 10% do usual, Teerã viu os preços do petróleo e gás explodirem, flutuando na casa dos US$ 100 o barril antes da queda desta sexta. Sem o conflito, a previsão do Banco Mundial era de que 2026 tivesse os menores valores da commodity da história recente, abaixo dos US$ 60 o barril.
Com isso, ao lado de objetivos difusos divulgados ao longo do conflito, como a questão central do programa nuclear dos aiatolás, a reabertura de Hormuz entrou na agenda. Nesse contexto, o Irã dobrou a aposta e anunciou ter minado a rota usual do estreito, por entre suas águas territoriais e as de Omã.
Com isso, o Irã forçou um novo caminho passando por sua área de controle e passou a exigir pedágio dos navios com carga. Não se sabe se a medida chegou a ser implementada, pois a reação americana foi impor o bloqueio a seus portos.
Agora, com as postagens de Araghchi e de Trump, uma porta de saída para o impasse pode ter sido encontrada, ainda que a realidade nas águas do golfo seja turva.
O assunto deve marcar a nova rodada de negociações entre os rivais, que pode ocorrer neste fim de semana no Paquistão. Alternativamente, a trégua poderá ser estendida, mas nenhum dos lados confirma isso ainda.
