HANNOVER, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Lembrando seu passado sindicalista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou à Alemanha, na manhã deste domingo (19), como convidado principal da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, que neste ano tem o Brasil como país homenageado.

Acompanhado de seis ministros, empresários e líderes sindicais, Lula foi recebido pelo primeiro-ministro Friedrich Merz com honras militares no Palácio Herrenhausen, sob uma chuva leve e intermitente. Após duas reuniões bilaterais, os dois líderes discursaram na abertura oficial do evento, no começo da noite europeia.

Em seu discurso, Lula lembrou que em 1980, quando o Brasil foi o primeiro país a ser homenageado pela Feira de Hannover, ele foi preso pela ditadura militar por liderar as greves no ABC que o projetaram politicamente. "Exatamente em 19 de abril", declarou o presidente, citando a data deste domingo.

Como havia feito na Espanha, primeira etapa desta viagem à Europa, Lula voltou a defender a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a criticar severamente o presidente americano, Donald Trump. "O Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice que está sendo feita no Irã", disse o presidente, ressaltando a expertise brasileira em biocombustíveis.

"Em 1980, nesta mesma feira, nesta mesma cidade, Volkswagen e Mercedes apresentarem motores movidos a etanol", lembrou. A referência às montadoras alemãs foram recebidas com aplausos.

A fala do petista foi precedida por uma apresentação de fotos da Amazônia de Sebastião Salgado, embalada pelas "Bachianas", de Heitor Villa-Lobos. Antes, uma apresentação com música eletrônica martelava aspectos da economia verde defendida pelo Brasil, com destaque para a palavra "minerais críticos", uma das maiores preocupações da economia alemã neste momento.

"Não estou aqui em uma relação ideológica com o primeiro-ministro Merz, mas de Estado", declarou Lula, aplaudido então de pé pela plateia, composta majoritariamente por empresários e executivos.

Ao abrir sua fala, Merz agradeceu o "excelente discurso" do colega brasileiro, enfatizando a relação histórica entre os dois países, a importância do acordo União Europeia-Mercosul e o momento crítico do mercado de energia provocado pela ofensiva de EUA e Israel sobre o Irã.

Primeiro a discursar, o prefeito de Hannover, Belit Onay, do Partido Verde, declarou que "Donald Trump desestabiliza os mercados mundiais" e que a Alemanha "está ficando para trás" em relação à Europa.

"Senhor Merz, agradecemos os seus esforços, mas encorajo o senhor a fazer mais, a fazer o que é necessário para o país", declarou o prefeito, arrancando novos aplausos da plateia. "Precisamos de um Estado viabilizador, não obstaculizador", afirmou.

"Vale a pena olhar para o Brasil, líder em energias renováveis", disse Onay, reiterando que a saída para a crise energética mundial, provocada pela guerra no Irã, não está nos combustíveis fósseis.

Também festjou os biocombustíveis Gunther Kegel, presidente da Associação da Indústria Eletrônica e Digital da Alemanha. "O Brasil é exemplo, um país em ascensão, de um lado, e dedicado à proteção ambiental, do outro. A COP30 aconteceu no lugar certo", declarou o industrial, no que poderia ser interpretado como uma indireta ao premiê, que viralizou com comentário depreciativo sobre Belém, sede da conferência climática, no ano passado.

Na segunda-feira (20), além de cumprir o tour inicial da exposição ao lado de Merz, uma tradição em Hannover, Lula abrirá a 42ª edição do Encontro Econômico Brasil-Alemanha, que reúne empresários dos dois países, e, na sequência, a terceira reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível.

Esse mecanismo, que prevê encontros de ministros e assessores dos dois governos em diversas áreas, é mantido pela Alemanha com menos de dez países. O Brasil, inclusive, é a única nação latino-americana a dispor dele.

A expectativa é de anúncio de acordos em áreas como energia, serviços digitais, meio ambiente e recursos naturais. Ambientalistas esperam que Lula peça que a Alemanha triplique sua contribuição de ? 1 bilhão no Fundo Florestas para Sempre (TFFF), e entidades industriais aguardam entendimentos estratégicos em áreas mais sensíveis, como armamentos e minerais críticos.

Em Barcelona, na sexta (17), Brasil e Espanha assinaram 15 acordos de cooperação, incluindo minerais críticos, gargalo mundial, mas sobretudo na indústria europeia. Empresários com trânsito entre os dois países esperam que a posição política cada vez mais independente da Alemanha em relação aos EUA contribua para uma aproximação ainda mais intensa com o Brasil.

A Alemanha é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, com US$ 20,9 bilhões de comércio corrente no ano passado. A entrada em vigor do acordo União Europeia-Mercosul também é vista como um catalisador de negócios pelas duas nações, as maiores economias e principais defensores do tratado nos respectivos blocos.

"Finalmente vai começar a funcionar", disse Merz, uma das vozes mais ativas durante a reta final do pacto, que ainda é contestado por setores do Parlamento Europeu e por países como a França.

Na Hannover Messe, o Brasil tem seis pavilhões, ocupados por mais de 140 empresas e startups do país. Ao menos 800 executivos brasileiros comparecem ao evento, que exibe de caminhões movidos a biocombustível a pequenas empresas de serviços digitais.

Também na segunda, Lula fará uma visita à sede da Volkswagen, em Wolfsburg, acompanhado de líderes sindicais do ABC, Taubaté e Curitiba, locais das fábricas da empresa alemã no Brasil. Nos anos 1970, então principal dirigente sindical do país, Lula liderou diversas greves e negociações salariais na sede brasileira da Volkswagen, em São Bernardo.

No dia seguinte, o presidente faz uma escala em Lisboa, antes de regressar ao Brasil. Na capital portuguesa, se encontrará com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, e o novo presidente do país, António José Seguro.

A imprensa alemã destaca a importância da visita para a economia alemã, voltada para exportação e que vive uma crise sem precedentes com o tarifaço de Donald Trump e a concorrência comercial e tecnológica com a China.

Destacam também o desejo expresso por Lula de comer um sanduíche de Wurst, o típico salsichão alemão, em um quiosque de rua. Foi assim que o presidente brasileiro explicou em entrevista à revista Der Spiegel seu convite para Merz comer em botecos de Belém.

No ano passado, o premiê viralizou ao fazer comentário depreciativo sobre a capital paraense depois de sua participação na COP30. Os dois líderes minimizaram o assunto pouco depois, em um encontro do G20 na África do Sul.