SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Negociadores dos Estados Unidos estão a caminho do Paquistão para mais uma rodada de conversas com autoridades iranianas, mas a mídia estatal iraniana disse que autoridades de Teerã podem não comparecer às discussões.

À agência Reuters, uma fonte iraniana de alto escalão afirmou nesta segunda-feira (20) que o país está considerando participar das negociações de paz, mas que a decisão final ainda não foi tomada.

Em paralelo, o presidente Donald Trump disse ao jornal New York Post que o vice-presidente J.D. Vance chegaria a Islamabad em algumas horas, liderando uma delegação americana. Mas, segundo a Reuters, uma fonte afirmou que o vice-presidente ainda não havia partido dos EUA.

Vance liderou a delegação americana na primeira rodada de negociações, há duas semanas, que também incluiu o enviado de Trump, Steve Witkoff, e o genro Jared Kushner.

A situação é volátil desde que os EUA apreenderam um navio com bandeira iraniana no Golfo de Omã, no domingo (19). Foi a primeira vez que os americanos usaram a força para fazer valer seu bloqueio marítimo.

O Paquistão tenta convencer os EUA a encerrar o bloqueio aos portos iranianos, um grande obstáculo para o Irã retomar os esforços de paz.

Com o cessar-fogo de duas semanas prestes a expirar nesta terça-feira (21) à noite, a autoridade iraniana de alto escalão disse que Teerã estava "avaliando positivamente" sua participação, mas nenhuma decisão final havia sido tomada. Os comentários mostram uma mudança de tom em relação a declarações anteriores, que descartavam a participação e prometiam retaliação pela agressão americana.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, disse nesta segunda-feira que Washington havia mostrado que "não estava levando a sério" o processo diplomático e que Teerã não recuaria de suas exigências.

Os EUA esperam iniciar as negociações no Paquistão pouco antes de o cessar-fogo expirar, com amplos preparativos de segurança em andamento em Islamabad --quase 20 mil agentes de segurança foram mobilizados na cidade--, mas Baghaei declarou que os EUA estavam "insistindo em algumas posições irracionais e irrealistas".

Uma fonte iraniana de alto escalão disse também à Reuters que as "capacidades defensivas" de Teerã, incluindo seu programa de mísseis, não estão abertas a negociação.

Uma fonte paquistanesa, por sua vez, afirmou que o principal mediador do Paquistão, o marechal Asim Munir, havia dito a Trump que o bloqueio era um obstáculo para as negociações, e o presidente teria então prometido considerar mudanças.

O cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã foi anunciado em 7 de abril, mas não foi especificado a que horas ele termina. Uma fonte paquistanesa envolvida nas negociações afirmou que ele expiraria às 20h (horário de Brasília) desta terça-feira, o que seria às 3h30 de quarta-feira (22) no Irã.

Questionado no fim de semana sobre a chance de uma prorrogação, Trump respondeu: "Não sei. Talvez não. Talvez eu não estenda. Mas o bloqueio vai continuar".

Os EUA mantiveram seu bloqueio aos portos iranianos, enquanto o Irã suspendeu e depois reimpôs seu próprio bloqueio ao estreito de Hormuz, que normalmente movimenta cerca de um quinto do petróleo e do gás liquefeito do mundo.

Os preços do petróleo recuaram das máximas anteriores para ficar em torno de 4% de alta no dia, enquanto os traders permaneciam temerosos de que o cessar-fogo entrasse em colapso. O tráfego pelo estreito de Hormuz estava praticamente paralisado, com apenas três travessias no espaço de 12 horas, segundo dados de navegação.

No domingo, os militares americanos dispararam contra um navio de carga com bandeira iraniana que se dirigia ao porto iraniano de Bandar Abbas, após um impasse de seis horas, danificando seus motores. O Comando Central dos EUA divulgou vídeo mostrando fuzileiros navais descendo de helicópteros apor cordas até a embarcação.

Os militares iranianos disseram que o navio estava vindo da China e acusaram os EUA de "pirataria armada", segundo a mídia estatal. Eles afirmaram estar prontos para confrontar as forças americanas pela "agressão flagrante", mas, segundo contaram, estavam limitados pela presença de familiares dos tripulantes a bordo.

A China, principal compradora de petróleo bruto iraniano, expressou preocupação com a "interceptação forçada", e o presidente chinês Xi Jinping pediu que os navios retomem a passagem pelo estreito normalmente e que o conflito seja resolvido por canais políticos e diplomáticos, segundo a agência de notícias estatal Xinhua.

Também no domingo, Trump alertou que os EUA destruiriam todas as pontes e usinas de energia no Irã se o país rejeitasse seus termos, continuando o padrão recente de ameaças.

O Irã disse que se os Estados Unidos atacassem sua infraestrutura civil, o país revidaria em usinas de energia e plantas de dessalinização de seus vizinhos árabes do Golfo.

Aliados europeus, repetidamente criticados por Trump por não ajudarem em seu esforço de guerra, temem que a equipe de negociação de Washington esteja pressionando por um acordo rápido e superficial que exigiria meses ou anos de negociações complexas de acompanhamento técnico.

Milhares de pessoas foram mortas por ataques americano-israelenses ao Irã e em uma invasão israelense ao Líbano conduzida em paralelo desde que a guerra começou, em 28 de fevereiro, onde uma trégua também está atualmente em vigor.

O Irã respondeu aos ataques com mísseis e drones contra Israel e países árabes vizinhos que abrigam bases americanas.

Washington sediará uma segunda rodada de negociações entre Israel e Líbano na quinta-feira (23).

Ataques israelenses já mataram 2.300 pessoas no Líbano desde que o Hezbollah, aliado do Irã, passou a lançar foguetes em território israelense, em 2 de março.

Um cessar-fogo de dez dias entre os dois países entrou em vigor na semana passada. Mas os combates não cessaram completamente.

Durante a noite, as forças militares de Israel teriam realizaram novamente ataques no sul do Líbano, com mais relatos de bombardeios na manhã desta segunda-feira.

Milhares de soldados israelenses permanecem no sul do Líbano, e os moradores que foram forçados a fugir dos combates foram alertados por Israel para não retornarem às suas casas.

Israel publicou um mapa do que chama de "zona tampão", estendendo-se por cerca de 10 km em território libanês, que diz ser necessária para reduzir a ameaça do Hezbollah. A área representa 5% do território libanês sob ocupação de Israel.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, exige a retirada total das forças israelenses para as "fronteiras internacionalmente reconhecidas".