SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo de Vladimir Putin intensificou o cerco à internet da Rússia, levando os moradores do país a adotarem soluções desesperadas para continuar a ter acesso a informações que o Kremlin considera danosas à segurança nacional.

Os aplicativos de VPN (sigla em inglês para Rede Privada Virtual) agora são empregados como numa gincana: os internautas passaram a baixar dezenas de programas para poder driblar a censura virtual, trocando de app cada vez que um é derrubado pelo governo.

"É como uma gincana no celular", conta o jornalista Mikhail, que pediu para não revelar seu sobrenome. "Antes a gente só tinha de usar o VPN para acessar os sites proibidos, mas agora o próprio VPN parou de funcionar aqui em Moscou, no meio do dia. Temos de trocar toda hora de programa", afirmou.

O VPN funciona como um disfarce na rede, escondendo a origem do celular ou computador, como se ele estivesse acessando a internet de outro país. Com isso, boa parte dos 4,7 milhões de sites bloqueados pelo Kremlin desde o começo da Guerra da Ucrânia, em 2022, pode ser usada.

Muitos domínios de amplo uso, como Facebook, X, ChatGPT, Instagram e YouTube, foram vetados na Rússia. A justificativa é o que as autoridades chamam de falta de colaboração das empresas de tecnologia com o governo para evitar fraudes e terrorismo. Gigantes como a Meta, que é proscrita no país, dizem que é mera censura.

Desde o começo do ano, o aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, quem em dezembro tinha 94,5 milhões de usuários no país de 144 milhões de habitantes, foi proibido após passar meses sem funcionalidades como chamadas de voz ou vídeo.

Em fevereiro, passou a valer restrição total ao Telegram, que tem um número similar de clientes mas é muito mais popular em termos de uso: negócios, listas de transmissão, grupos e comunicação na frente da guerra são todos feitos por meio dele.

Houve protestos e a insinuação de que o Kremlin buscava apenas promover o MAX, um serviço criado pelo governo que emula o chinês WeChat, servindo de multiplataforma de serviços.

"Eu não uso isso, é inseguro", afirmou Pavel, um soldado separatista pró-Rússia que mora em Donetsk e também não quer ver o sobrenome publicado.

Tanto ele quanto Mikhail falaram com a reportagem ao longo de dois dias por meio do Telegram, trocando de VPN a cada contato. "Não é viável assim", disse o militar.

A partir do meio de março, os próprios apps de VPN entraram na mira do governo. A Rússia já era o segundo país com mais utilização do sistema no mundo, com 37,5% do mercado atrás dos repressivos Emirados Árabes Unidos, segundo o site especializado Demandsage.

O MAX tem 70 milhões de usuários, mas o Kremlin nega que as restrições visem colocar a internet sob vigilância do governo, e sim evitar que apps ajudem a guiar eventuais ataques com drones da Ucrânia.

Nesta quinta-feira (23), Putin falou pela primeira vez sobre o assunto. "Não é tão comum, mas acontece, infelizmente", disse a ministros sobre os apagões. "Isso é relacionado ao trabalho operacional para evitar ataques terroristas. A prioridade é a segurança do povo."

Mas o torniquete virtual é ainda mais amplo. Na semana passada, o governo russo proibiu pagamento por meio de contas de celular associadas ao ApplePay, o serviço do gigante americano que ainda funciona com limitações na Rússia.

Para muitos moradores de centros urbanos mais abastados, como Mikhail, esta era a única forma de acessar a loja de aplicativos para os iPhones que seguem sendo usados e vendidos, importados por meio de países terceiros, na Rússia.

"Eu tive de comprar um modelo chinês que aceita Android, pois esse sistema ainda não foi bloqueado. Mas duvido que vá durar", disse o jornalista. Ele paga o equivalente a R$ 50 mensais para cada 1 dos 8 apps de VPN que usa de forma alternada.

"Aqui em Moscou, o apagão é temporário. Às vezes, estamos no centro da cidade e nem conseguimos usar sites aprovados, como o Iandex", afirmou, em referência a outro aplicativo que tem várias funções, de entrega de comida a serviço de táxi, passando por cartografia online.

Considerando a dinâmica da política russa, na qual a popularidade do presidente está acima de qualquer outra consideração, as medidas podem sofrer algum tipo de revisão.

Putin segue amplamente aprovado, mas a crise já começa a afetá-lo. Segundo o principal centro de pesquisas de opinião pública independente do país, o Levada, a aprovação do presidente deslizou de astronômicos 85% para estratosféricos 80% de dezembro para cá.

Mesmo o tradicional VTsIOM, instituto ligado ao Kremlin, viu a confiança no governo cair de 80% para 74% e a insatisfação com o presidente ir de 22% para 31%, no mesmo período. Para padrões ocidentais, é nada. Mas na Rússia obcecada por controle, é um sinal de alerta.