NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Num dia de abril de 1898, uma pessoa entrou na igreja de Santa Maria, em Alexandria, no estado de Virgínia, e despejou ácido carbólico nas pias de água benta. Uma frequentadora da paróquia sentiu o odor forte e soou o alerta a tempo de impedir que a substância cáustica e altamente tóxica ferisse os fiéis.

O incidente é destacado no site da hoje Basílica de Santa Maria como registro da onda anticatólica que varreu os Estados Unidos na segunda metade do século 19, quando o país recebia levas de imigrantes irlandeses, italianos e poloneses.

A última semana de ataques da Casa Branca ao papa Leão 14 ofereceu uma oportunidade de revisitar memórias dolorosas, especialmente para descendentes daqueles imigrantes. Para o historiador Scott Appleby, o conflito público está intensificando uma nova onda de sentimento anticatólico.

"Não vejo precedente, na história do relacionamento da Igreja com o governo dos EUA", diz à Folha o historiador Scott Appleby, comentando a sequência de declarações, desde que Donald Trump acusou Leão 14 de ser liberal demais e "fraco em crime", como se o líder de 1,4 bilhão de católicos fosse um político da oposição no Congresso.

O primeiro papa americano é o segundo pontífice a atrair a ira de Donald Trump, que testou com o papa Francisco os limites da tolerância à blasfêmia entre mais de 53 milhões de católicos americanos. Ainda candidato, em 2016, Trump acusou Francisco de ser um "agente" do México, por causa das críticas do argentino à agenda anti-imigração do republicano.

Em maio passado, logo após a morte de Francisco, o presidente postou na rede social um meme de inteligência artificial em que aparecia vestido como o papa e sentado em seu trono. Consultado por repórteres, disse que gostaria de ser eleito o próximo pontífice.

No caso do presidente americano, a personalidade tende a se sobrepor a instituições. O rancor dirigido a Leão 14 por suas críticas à guerra contra o Irã indica que Trump encara também a religião como um exercício de poder. Na semana passada, chegou a afirmar que Leão deve a ele sua eleição no conclave de 2025 porque o Vaticano teria escolhido um americano para se relacionar melhor com a Casa Branca.

A desconfiança do Vaticano como uma fonte de desafio ao poder do governo vem da fundação da república, no século 18. OS EUA foram fundados "como uma espécie de fusão entre uma forma de cristianismo originalmente puritana, inglesa e de alianças e um grupo de pensadores deístas da era do Iluminismo", lembra Appleby, que é professor da Universidade de Notre Dame.

"Fundadores como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e George Washington eram figuras do Iluminismo que consideravam o catolicismo não uma força de esclarecimento, mas de regressão, de obscurantismo, de irracionalidade, uma espécie de sobrenaturalismo inquietante."

Esse padrão de suspeita, tanto por parte do governo quanto do público não católico em geral, só aumentou à medida que os imigrantes começaram a chegar aos EUA, especialmente entre as décadas de 1840 e 1880.

"Durante esse período", explica o historiador, "houve um influxo de católicos que começou a alarmar esses grupos e a reavivar a hostilidade inicial do período republicano."

Depois da eleição de Leão 14, houve uma percepção de que ele reconquistou a confiança de católicos conservadores americanos. Trump recebeu a maior parte do voto católico nas três eleições que disputou.

Mas Appleby destaca que, ao contrário de outras denominações cristãs, a Igreja Católica, apesar de não se envolver em política partidária, tem uma longa tradição de engajamento em temas globais. "A Igreja é chamada a pregar a mensagem de Jesus Cristo em voz alta e firme, a respeito dos acontecimentos. Sempre esteve envolvida na arte de governar, sempre interagiu com reis, imperadores e presidentes."

Ainda segundo o especialista, parte da extrema direita tenta redefinir o catolicismo e se tornar uma espécie de "magistério leigo", isto é, uma autoridade de ensino leiga dentro da Igreja. O vice de Trump, J. D. Vance, seria um exemplo.

"Vance não possui credenciais. Ele leu alguns textos de Santo Agostinho e, por isso, acredita que é um especialista", diz Appleby.

No sábado (18), depois que o papa minimizou sua desavença com Trump, o vice-presidente publicou uma postagem na rede X expressando sua gratidão a Leão 14 por desarmar a tensão que ele atribuiu à "narrativa midiática" instigando conflitos.

Vance só se converteu ao catolicismo em 2019, o que não o impediu de declarar que o papa deveria "ser cuidadoso quando fala sobre questões teológicas", numa referência ao conceito de "guerra justa" de Santo Agostinho, a cuja ordem pertence Leão 14.

O vice-presidente foi alvo de sarcasmo de católicos proeminentes, chamando atenção para a audácia de dar lições a um pontífice diplomado em matemática, filosofia e com doutorado em lei canônica. Uma nova pesquisa Reuters/Ipsos revela 60% de aprovação do papa nos EUA, enquanto 36% aprovam o presidente que Vance quer suceder.