ONGs alertam que a alta do petróleo e o bloqueio no estreito de Hormuz estão atrasando ou impedindo a chegada de comida, combustível e remédios a populações vulneráveis.

Organizações humanitárias pedem a criação de um "corredor humanitário" no estreito de Hormuz para destravar o envio de cargas de ajuda. Ao jornal britânico The Guardian, Bob Kitchen, vice-presidente para emergências do Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês), defendeu "conversas sérias e imediatas sobre a criação de corredores humanitários pelo estreito de Hormuz para que, no mínimo, possamos levar suprimentos para centros humanitários ao longo do estreito".

Interrupções no transporte já deixaram remédios e insumos parados em centros logísticos usados por agências internacionais. O IRC disse que não conseguiu acessar US$ 130 mil em suprimentos retidos em Dubai e destinados a atender 20 mil pessoas no Sudão.

Racionamento de combustível em alguns países também afeta serviços básicos de saúde mantidos por ONGs. Kitchen afirmou que, se o cenário persistir, "em certas partes dos hospitais, vamos ter que desligar a eletricidade para manter coisas mais importantes funcionando".

Agências relatam que os custos de operação subiram e estão consumindo rapidamente os orçamentos previstos para 2026. "Ficou mais caro comprar combustível para tocar nossas operações, transportar mercadorias e deslocar equipes em muitos países da África Subsaariana", disse Kitchen ao The Guardian.

Impacto da alta do petróleo aparece tanto na ponta do atendimento quanto na logística global da ajuda. "A realidade é que é 100% certo que o aumento do preço do petróleo está afetando a vida das pessoas e também nossas operações", afirmou Cecile Terraz, diretora da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

Oscilações do preço do petróleo se intensificaram desde fevereiro, quando o conflito entre EUA e Israel contra o Irã passou a afetar a navegação no estreito de Hormuz. O barril chegou a quase US$ 120, ante cerca de US$ 60 no começo do ano.

A ONG Save the Children estima que cada aumento de US$ 5 no barril gera um custo extra mensal de US$ 340 mil para a organização. Ao The Guardian, o diretor de cadeia de suprimentos global da entidade, Willem Zuidema, disse que o aperto vem de dois lados: "Estamos sendo espremidos dos dois lados. Enquanto líderes mundiais cortam orçamentos de ajuda, o conflito está elevando o custo de cada remessa, cada sachê de comida, cada kit médico que enviamos".

O Programa Mundial de Alimentos (WFP) avalia que a disrupção pode empurrar mais 45 milhões de pessoas para a fome. O número se soma aos 318 milhões que já eram considerados em insegurança alimentar antes dos ataques de fevereiro.

Em países em crise humanitária, o encarecimento do frete e do combustível já aparece no preço dos alimentos e na falta de medicamentos. No Iêmen, a Save the Children estima que o custo de transporte de mercadorias subiu até 20% e que os preços dos alimentos aumentaram 30%.

Na Somália, o custo para importar medicamentos usados no tratamento de desnutrição aguda em crianças teria triplicado desde o início do conflito. Ao The Guardian, Robyn Savage, diretora humanitária da Care, afirmou que "isso significa que há menos medicação disponível para essas crianças, e isso vai resultar em menos crianças podendo ser tratadas".

No Afeganistão, o WFP diz que precisou mudar rotas e alongar prazos para levar alimentos fortificados ao país. John Aylieff, diretor do WFP no Afeganistão, afirmou que "crianças afegãs hoje estão passando fome", após a necessidade de transportar biscoitos fortificados por estrada, atravessando sete países, para evitar a rota usual via Hormuz.

O WFP também estima que a alta do petróleo pode impedir a organização de atender cerca de 1,5 milhão de pessoas nos próximos meses. A agência da ONU tenta redirecionar cerca de 93 mil toneladas de alimentos, o que aumenta custos e causa atrasos, e diz que a congestão afeta a navegação em toda a região.

Mercy Corps alerta que a falta de fertilizantes e combustível pode prejudicar a produção agrícola em países onde a temporada de plantio já começou. Ao The Guardian, Nick Jones-Bannister afirmou que o impacto tende a se espalhar: "Isso vai ter um efeito em cadeia sobre conflitos civis e sobre a migração".